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‘Agência da ONU para refugiados palestinos deve ser fechada’, diz historiador israelense

03.10.21 16:02

A Agência das Nações Unidas de Assistência para os Refugiados da Palestina, a UNRWA (foto), foi criada para cuidar de cerca de 726 mil árabes que deixaram ou fugiram de suas casas na Guerra de Independência de Israel, entre 1947 e 1949. Hoje, a agência está presente no Líbano, na Síria, na Jordânia, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, onde cuida de 5,4 milhões de pessoas, a quinta geração de descendentes daqueles primeiros refugiados.

No livro A Guerra do Retorno, que acaba de ser lançado em português pela Contexto, o historiador e cientista político Adi Schwartz e a ex-deputada Einat Wilf, do Partido Trabalhista, pedem o fim da UNRWA. Os dois autores argumentam que, ao perpetuar a ideia de que os palestinos que nasceram nesses países e territórios retornarão um dia para o Estado de Israel, a UNRWA mina as negociações de paz e emperra o desenvolvimento desses palestinos.

Adi Schwartz, que tem 47 anos e trabalhou por dez anos no jornal Haaretz, conversou com Crusoé. Eis o que ele disse:

Por que o sr. defende o fechamento da UNRWA?
Há um equívoco muito grande no exterior quando se tenta entender o que acontece entre israelenses e palestinos. Muitos pensam que a raiz do problema é a disputa por territórios, a construção de assentamentos na Cisjordânia ou a briga pela criação de um estado palestino. Mas a grande dificuldade não mudou. É a mesma que existia em 1948. Os palestinos e muitos cidadãos de países árabes continuam não aceitando a existência de um estado judeu na Palestina. Quando uma criança nasce na Faixa de Gaza, mesmo que seus pais e seus avós tenham nascido em Gaza, ela é automaticamente considerada uma refugiada. Seus professores e familiares então dirão para ela que um dia ela irá viver dentro de Israel. Eles sustentam a ideia de que, no futuro, entre 5 milhões e 6 milhões de palestinos se mudarão para Israel. Mas essa é aproximadamente a população de judeus vivendo no país hoje. O que eles querem, no final, é a destruição do meu país. E a UNRWA tem sido o principal mecanismo para divulgar essa visão. Por isso, deve ser fechada.

Qual é o papel dos outros países na perpetuação do conflito?
Outras nações, como o Brasil, seguem financiando ou dando apoio diplomático para os palestinos e para a UNRWA sem qualquer questionamento. O ex-presidente americano Donald Trump chamou atenção para o tema e cortou o financiamento da UNRWA, mas Joe Biden retomou as transferências. Não há problema algum em os palestinos formarem um estado próprio. A dificuldade é quando se divulga a ideia de que é preciso criar um outro país a partir das ruínas do estado de Israel. Com nosso livro, queremos que os estrangeiros entendam que, ao apoiar pessoas com as causas erradas, eles estão prolongando o conflito. Os palestinos são o único povo no mundo com uma agência da ONU específica para atendê-los e que defende a visão de que eles devem voltar para o seu país, mesmo sem nunca terem estado lá. Todos os outros povos do mundo que foram forçados a ir para outra nação por causa de uma guerra são recebidos por uma agência única. A Acnur os ajuda com moradia, saúde, trabalho e educação, para que eles possam seguir adiante com suas vidas. É assim com haitianos, venezuelanos, congolenses e ruandeses. Por que os palestinos têm uma agência separada? Isso só acontece porque a UNRWA quer prolongar a situação dos refugiados para, assim, perpetuar o conflito entre israelenses e palestinos.

Por que países árabes onde a UNRWA atua não reconhecem esses refugiados como seus cidadãos?
A Jordânia já fez isso, o que acabou criando uma situação bizarra. Os palestinos que estão no país passaram a ser reconhecidos como cidadãos jordanianos, mas ao mesmo tempo continuaram sendo considerados refugiados palestinos. Hoje, eles são cerca de 2 milhões. Votam para o parlamento na Jordânia e continuam sendo atendidos pela UNRWA. Esse exemplo deixa claro que se trata de uma questão política. Esses países querem prolongar as disputas com Israel. Quando essa mentalidade acabar, o conflito também irá cessar.

Os palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza teriam a ganhar com o fim da UNRWA?
Os fundos que hoje vão para a agência poderiam ser redirecionados para a Autoridade Palestina, para a Unicef ou para a Unesco. As ações sociais, assim, poderiam seguir, sem a necessidade de perpetuar a questão dos refugiados. Essa insistência tem mantido os palestinos presos ao passado. Na Faixa de Gaza, eles deveriam se perguntar por que, mesmo com todo dinheiro enviado pelo Catar e pela Arábia Saudita, eles continuam sendo tão miseráveis. Dinheiro nunca foi um problema para eles. Os palestinos de Gaza poderiam ter construído universidades ou atraído turistas para sua praia mediterrânea. Em vez disso, gastaram o dinheiro que receberam fabricando foguetes e construindo túneis para penetrar terroristas em Israel. Com o fim da UNRWA, os palestinos deixariam de pensar em destruir Israel e passariam a pensar no próprio futuro.

Ao contrário de outros países, a definição de esquerda em Israel se refere às pessoas que defendem a criação de um estado palestino e a negociação com os árabes. Como a esquerda israelense recebeu seu livro?
Essa divisão entre esquerda e direita em Israel não funciona mais. Nos últimos dez anos, a esquerda como conhecíamos diminuiu muito de tamanho. A maioria das pessoas não acredita mais em um futuro de paz com os palestinos. Dos 120 membros do nosso Parlamento, há apenas dez que poderiam ser considerados de esquerda. A maior parte da população migrou para o centro. Hoje, o ministro de Relações Exteriores de Israel, Yair Lapid, é tido como alguém de esquerda, mas suas posições são muito de centro. Desde o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a política israelense passou a se dividir entre a direita que  o apoiava e a esquerda que lhe fazia oposição.

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  1. A UNRWA é uma entidade criada por, entre outros, Gamal Abdel Nasser, antigo presidente egípcio, que usou os refugiados palestinos impedindo-os de entrar no Egito para acusar Israel de persegui-los, quando, na verdade a Palestina era habitada por árabes e judeus e era uma colônia inglesa. Quando Israel foi criado pela ONU, por razões históricas, os judeus emigraram em massa para lá.

  2. sugiro que criem uma para os milhões de sulamericanos venezuelanos . argentinos . bolivianos . paraguaios e creiam brasileiros aos poucos indo pro paraíso europeu da Guiana . além dos chilenos louquinhos para embarcar nesta . tem jeito não seremos sempre a América LatRina.

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