Foto: Divulgação

Como Dave Chappelle antecipou o fim do aborto legal nos EUA

03.07.22 16:34

Dave Chappelle (foto) previu o fim do direito constitucional ao aborto nos Estados Unidos. Foi em Sticks & Stones, especial de stand up comedy gravado em Atlanta que a Netflix lançou em 2019.  Depois de zoar os excessos histéricos do movimento MeToo – em particular, o caso do comediante Louis C.K., acusado de cometer abuso sexual por via telefônica –, Chappelle comentou que, ao gastar tanto tempo com questões menores, os militantes de rede social  negligenciam as questões que realmente importam: “Por acaso o machismo morreu? Eu disse que o machismo voltaria com mais força, e disseram que eu não estava entendendo as coisas direito. Mas recentemente oito estados americanos, incluindo este onde estamos hoje, aprovaram as leis mais mais restritivas sobre o aborto que já se viram desde Roe vs. Wade”.

Passados três anos, a decisão da Suprema Corte no caso Roe vs. Wade – que em 1973 legalizou o aborto nos Estados Unidos – foi derrubada pela maioria conservadora do mesmo tribunal. Cada um dos 50 estados agora terá autonomia para estabelecer sua própria legislação sobre o tema. E se apenas oito tentavam restringir a interrupção da gravidez em 2019, quando Chappelle se apresentou na capital da Geórgia, agora mais de metade deve proibir ou limitar drasticamente a prática do aborto. Dave Chappelle, antena da raça – de todas as raças!

Ok, admito, forcei a mão ao pintar um comediante como profeta. Debite isso a meu entusiasmo de fã: admiro o stand up de Dave Chappelle pelo desprezo altaneiro que manifesta pela turma que pratica “cancelamentos” e pelo humor que se mostra inteligente até quando é francamente grosseiro (esse equilíbrio, até onde sei, nunca foi alcançado pelos praticantes brasileiros do stand up). Nem por isso ele chegou de fato a prever que a jurisprudência estabelecida em 1973 seria revertida. Mas essa possibilidade estava desenhada em Stick & Stones. Não será exagero afirmar que o fim da garantia legal ampla para o aborto era o ponto de fuga necessário da caricatura do progressismo woke traçada por Chappelle em seus especiais na Netflix.

Sob o adjetivo woke (acordado, desperto – diante dos crimes do patriarcado branco, supõe-se), agrupam-se os movimentos identitários que hoje exigem reformas vocabulares e autos de fé para reparar as injustiças – reais, simbólicas ou imaginárias: não há distinção – que certos grupos sofreram e ainda sofrem. Talvez nem se possa falar de fato em “movimentos”, pelo menos não no sentido com que falamos do movimento pelos direitos civis que derrubou a segregação racial nos Estados Unidos. O “wokismo” é antes uma tendência comportamental das jovens elites universitárias. Ainda assim, nos Estados Unidos e em suas adjacências (Brasil inclusive), esse progressismo melindrado vêm alcançando uma repercussão desproporcional na conversa cotidiana sobre política, cultura, sociedade. Jornais como The New York Times e Folha de S. Paulo abraçaram a nova onda, embora reservem colunas de opinião para críticos do ideário woke (mal comparando, é como a Jovem Pan, que contrata alguns jornalistas vertebrados para fazer de conta que não é uma emissora bolsonarista).

No Twitter e no Facebook, a malta woke vem forçando celebridades, artistas e figuras públicas acovardadas a se retratarem por declarações ou atos percebidos como racistas, homofóbicos, transfóbicos (Chappelle, a propósito, nunca se dobrou). Também tem conseguido demitir alguns profissionais, especialmente professores universitários, por crimes de opinião. Na concepção de mundo woke, o uso de uma palavra “ofensiva” coloca em risco a segurança de membros de minorias, que são muito, muito frágeis, os coitadinhos!

Quase nenhuma das pessoas demitidas ou constrangidas a pedir desculpas públicas pertence aos quadros do trumpismo, do bolsonarismo, da alt right. São tipicamente pessoas simpáticas à hipersensibilidade woke que caíram em desgraça nas redes sociais, e às vezes por um delito antigo. Tal foi o caso, por exemplo, de Justin Trudeau, o primeiro-ministro fofinho do Canadá, que se penitenciou por ter usado black face. Donald Trump nunca se desculpou por nenhuma das barbaridades que disse. É um político à prova de cancelamento. Encastelada em seus safe spaces, a esquerda identitária nunca conseguiu articular uma estratégia de oposição viável ao trumpismo, que acabou derrotado nas urnas por uma figura da velhíssima guarda do Partido Democrata (Joe Biden, porém, faz seus acenos e concessões à mentalidade identitária).

Enquanto isso, a carreira de Luis C.K. afundou. Vitória!

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Comédia é exagero, é simplificação – e também provocação. Chappelle não submete os pressupostos e as propostas do ideário woke a uma análise metódica, e nem se deveria esperar que ele fizesse isso. Mas seu deboche anárquico escancara pelo menos uma realidade incômoda para os dogmas do novo progressismo: as diferentes identidades misturadas no caldo grosso da política identitária não compartilham necessariamente de interesses comuns.

Chappelle tem especial birra com o status elevado que o “povo do alfabeto” – referência à cada vez mais longa sigla LGBTQIA+ – teria ganho sobre outras grupos discriminados e oprimidos, e em particular sobre o seu grupo (para quem não percebeu pela foto acima, Chappelle é negro). Em The Closer, outro stand up disponível na Netflix, ele comenta o caso do rapper DaBaby, que causou indignação por fazer declarações homofóbicas. Eis o comentário incisivo do humorista:

“DaBaby já matou um negro a tiros em um WalMart na Carolina do Norte e nada de mau aconteceu com sua carreira. Vocês veem aonde eu quero chegar com esse caso? Neste país, você pode matar um negro, mas é melhor não ferir os sentimento de uma pessoa gay.” (“Negro”, aqui, traduz nigger, palavra em geral depreciativa, mas que é empregada livremente por comediantes negros como Chappelle e Chris Rock.)

A comparação é capenga, eu sei. Mas, de novo: a sátira dispensa argumentação rigorosa. E não há como negar que o identitarismo elegeu as questões de gênero como uma preocupação central, talvez até à frente do racismo (pobreza e desigualdade são coisa do século passado, leitor tiozão!). Chappelle, aliás, é atacado sobretudo por fazer piadas com os transgêneros, que estão para a sensibilidade woke como os proletários estavam para a teoria da história marxista. É uma pena que em The Closer, lançado no ano passado, Chappelle tenha dito que não faria mais graça com a comunidade trans. Tenho visto artigos e posts falando de como a ilegalidade do aborto vai prejudicar especialmente… os transgêneros! Isso daria ótimo material para um stand up.

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Vislumbro curiosos pontos de contato entre o stand up que debocha da santimônia woke e o livro breve no qual um importante ensaísta americano aponta os descaminhos de uma nova esquerda que se desconectou da luta política efetiva – aquela que envolve conversar com pessoas alheias a conceitos como “interseccionalidade” e “racismo estrutural” para talvez convencê-las a eleger candidatos a cargos públicos que terão o poder efetivo e legítimo de defender políticas progressistas.

Falo de O Progressista de Ontem e o do Amanhã, de Mark Lilla. O professor da Universidade de Columbia argumenta que o progressismo identitário esbarra em um paradoxo: “ele paralisa a capacidade de pensar e agir de uma maneira que realmente realize as coisas que ele diz reivindicar”. Nos termos que Dave Chappelle empregaria: enquanto a militância estava ocupada cancelando comediantes no Twitter, Trump tornou-se presidente e indicou três juízes da Suprema Corte, os quais, como seria de se prever, votaram pelo fim do direito ao aborto.

A batalhas mais típicas da política identitária, diz Lilla, se dão em torno de símbolos. Dois exemplos elencados em O Progressista…: o esforço de recontar a história para enaltecer o papel de “grupos marginalizados e em muitos casos minúsculos” e a tentativa de “proteger ouvidos jovens” de qualquer contato com pontos de vista alternativos ao novo catecismo.

Símbolos têm sua importância. Mas a vida real se impõe sobre fatuidades como a escolha de pronomes não-binários e a linguagem neutra. Nada, absolutamente nada do que a militância woke-identitária defende vai melhorar a vida de Drica, a trans sem teto que volta e meia encontro pedindo produtos de higiene na porta das farmácias de Santa Cecília, meu bairro em São Paulo.

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Não estou em absoluto afirmando que a responsabilidade pelo que se anuncia como o fim do aborto legal em boa parte do território americano seja da esquerda identitária. O mérito é todo da direita populista, que não é exatamente amiga da democracia mas conquistou essa vitória no jogo político legítimo. Uma esquerda com o mínimo de racionalidade estratégica talvez tornasse o jogo mais disputado, mas dificilmente alteraria o resultado.

(Incidentalmente, conheço esquerdistas que são contra o aborto e direitistas que são a favor. Gente assim é rara. A maioria preguiçosa compra pacotes ideológicos embalados na fábrica. Quando alguém diz que é a favor do aborto, em geral já dá para cravar que essa pessoa é a favor da proibição da venda de armas e contra a reforma trabalhista do Temer.)

Aqui no Brasil – aliás, em Balneário Camboriú, espécie de sucursal de Miami no litoral catarinense –, Jair Bolsonaro declarou-se contra o aborto para se contrapor a Lula, que recentemente manifestou-se a favor da prática e depois tentou desmentir o que de fato havia dito. Falando aos evangélicos presentes em uma Marcha para Jesus, no sábado 25, Bolsonaro quis reafirmar causas caras a essa plateia – e também se evadir do tema do momento, a então recente prisão (e quase imediata libertação) do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, suspeito de corrupção em um caso que envolve, veja só, pastores…

A militância anti-aborto costuma se definir como “pró-vida”. A propriedade ou impropriedade desse termo exigiria outro texto e outro autor (o leitor mais antenado terá percebido que o tema desse ensaio não é propriamente o aborto). Só sei dizer que o presidente que desprezou a vida dos brasileiros durante a fase mais grave da pandemia, que celebrou uma operação policial apenas pelo número dos supostos criminosos mortos e só protocolarmente “lamentou” a morte de uma mulher inocente, e que culpou Bruno Pereira e Dom Phillips, brutalmente assassinados no Vale do Javari, por suas próprias mortes – não há hipótese em que um sujeito desses possa se declarar pró-vida.

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Em um excelente artigo, a revista The Economist saudou Dave Chappelle como a voz do “realismo em questões de gênero”. Na maior parte da imprensa, porém, o humorista americano é tido como transfóbico. Por causa de piadas sobre mulheres com pênis em seu mais recente  stand up, SuperNature, o inglês Rick Gervais também mereceu a mesma pecha. E J.K. Rowling é frequentemente chamada de transfóbica por jornalistas que já nem se dão ao trabalho de verificar que coisa odiosa ela teria dito sobre os transgêneros (basicamente, ela afirma que sexo biológico tem importância e que a palavra “mulher” ainda guarda um sentido específico).

Dave Chappelle, o transfóbico, apoiou a carreira de uma comediante trans, Daphne Dorman. Deu-lhe dicas preciosas sobre como atuar no palco e chamou-a para abrir apresentações suas. Para Daphne, foi a oportunidade de trabalhar ao lado de um ídolo. Ela ria das piadas sobre trans que Chappelle contava. Em 2019, quando o amigo e mentor começou a ser atacado como transfóbico, Daphne partiu em sua defesa no Twitter. Mas qualquer coisa que se faça no Twitter é um erro: ela foi duramente atacada. Suicidou-se alguns meses depois, aos 44 anos, não se sabe por que razão (haverá uma só razão para o ato extremo?). “Para aqueles que estão bravos comigo: me perdoem. Para aqueles que acham que falharam comigo: vocês não falharam”, disse Daphen em uma mensagem de despedida no Facebook.

Em The Closer, Chappelle contou a história de Daphne, e tudo o que ele disse foi depois confirmado pela família da suicida. Em um momento tocante, atípico em um show de stand up, ele lembrou o dia em que a comediante novata lhe disse seu maior desejo: que reconhecessem que ela estava vivendo “uma experiência humana”.

Reconhecer a beleza e a tristeza únicas de uma verdadeira experiência humana: disso a direita brucutu e a esquerda dodói serão sempre incapazes.

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  1. Nesse país atrasado, de analfabetos e carentes de tudo, culpa-se uma menina de 11 anos - VÍTIMA - de cometer assassinato! É de uma falta de humanidade total! Pois bem, vamos prestar a devida atenção em quem merece, as verdadeiras vítimas da sociedade, e culpar os verdadeiros assassinos, gente graúda, negligente, como o STF, incompetente no seu papel! Cancelem o STF, se quiserem justiça.

    1. Quanta hipocrisia e cinismo ... um nascituro com 7 meses foi covardemente arrancado aos aos pedaços do ventre da mãe criança com as femilôkas insanas usando o hediondo assassinato de um inocente e tragédia de outra para impor sua ideologia assassina cruel e desumana ... vampiras criminosas a se nutrir do sangue de inocentes vítimas ... duro mas esta a verdade ... monstros.

  2. Que bonito! Também lamento que se gaste tanta energia (e tempo!) com ódio, ou cancelando palavras e pronomes. Pois há tanta coisa por fazer pela sociedade pra todo lado que se olha! Larga o teclado e bota a mão na massa, pessoal…

  3. Assisti a The Closer e foi realmente tocante a homenagem que o Chappelle fez a Daphne. Ser objetivo e meter o dedo na ferida hoje em dia é ofensivo. Muito bom seu texto. Concordo em gênero, número e grau. Parabéns!

  4. Diferença que ninguém mais diz, caiu o direito ao aborto Constitucional, nos EUA, porém, libera os Estados a fazer sua própria legislação. Big diference!

  5. Não é o caso do Brasil onde o aborto é legal permitido e MAIS QUE ISTO neste país chiqueiro dividido entre a ignorância fanatismo e ódio É PERMITIDO até o assassinato de um nascituro de 7 meses arrancado aos pedaços do ventre da mãe tamém criança por simples decisão familar ... por que ninguém viu esta monstruosidade? o STF o ôlho que tudo vê curador do Estado de idiotas fingiu não ver isto? se interferem até na vida sexual da primeira dama (isto é metáfora) nosso rabo aguenta mais 1 estupro.

  6. Como haverá estados que ainda permitirão o aborto, não é correto afirmar que o aborto foi proibido nos EUA, como a turma de esquerda quer fazer crer!

  7. Caraca! Passei o dia espiando a Crusoé, esperando pelos artigos de domingo... Valeu a pena a demora! Fui "retrucando" um monte de coisas na minha kbça, pela pura mania de contestar, mas não sobrou espaço pra comentários, só aplausos! Arrasou no textão!

  8. Lamentavelmente, a Daphne "desejava" que as "pessoas reconhecessem a experiência humana... Esse é o grande problema. Se aplicarmos em nossa vida a lei do Tao, importariamos, prioritariamente, com a nossa autoridade intrínseca: os outros são os outros.

  9. Show de texto, terminando com essa preciosa definição dos dois extremos que melhor exemplificam e involução humana dos dias de hoje: a direita brucutu e esquerda dodói. Peço licença para usar e difundir ao máximo.

  10. Parabéns efusivos Jerônimo Teixeira pela objetividade e contundência desse seu primoroso texto sobre a pretensa postura caridosa “pró-vida” de pessoas que negam o direito à opção pelo aborto aos pais de um feto em gestação. Sou cidadão carioca de 85 anos e avô de 3 netos, dos quais 2 já são universitários, e – como eu - favoráveis ao direito ao aborto. Não esmoreçamos!

  11. Pare de rir, Anne Frank - https://crusoe.uol.com.br/edicoes/177/pare-de-rir-anne-frank/. ... "Reconhecer a beleza e a tristeza únicas de uma verdadeira experiência humana: disso a direita brucutu e a esquerda dodói serão sempre incapazes." - é o que penso, a única coisa que tem algum significado para mim.

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