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‘Há muito de misoginia’, diz Marília Arraes sobre postura do PT que a levou a deixar o partido

26.03.22 08:04

Após deixar o PT trocando farpas com dirigentes do partido, a deputada federal Marília Arraes oficializou nesta sexta-feira, 25, a filiação ao Solidariedade para disputar o governo de Pernambuco. Embora ainda pretenda apoiar Lula à Presidência, a deputada diz que sua permanência no PT ficou insustentável depois que ela teve sucessivas candidaturas barradas pelo partido, o que ela atribui, entre outros fatores, a uma postura misógina da sigla.

“Se fosse um homem no meu lugar, um homem mais jovem, não teria sofrido tantos ataques quanto sofri”, diz a deputada. Ela prossegue: “Não foi de uma hora para outra e nem um fato isolado. Existiu misoginia em determinados fatos, em vários aspectos, que não são vistos, mas são naturalizados”. Marília Arraes falou nesta sexta, 25, a Crusoé. Eis os principais trechos da entrevista.

O que foi determinante para sua saída do PT?
Principalmente questões locais. Eu enfrento conflitos com lideranças locais que têm hegemonia no partido há muito anos. E há um processo de desgaste de relações que não conseguimos equacionar. É uma desmoralização constante, via própria imprensa local, feito por lideranças locais, sem nenhuma justificativa política.

A sra. diz que foi vítima de uma manobra política do PT. Que manobra foi essa?
Quero deixar claro que não estou deixando o PT porque queria ser indicada ao cargo A, B ou C. Entrei no PT no pior momento do partido, e quando éramos oposição bastante ferrenha ao PSB, que agredia o PT nacionalmente. Jamais entrei em disputa nessa eleição. Há menos de um ano e meio fui eleita para fazer oposição ao PSB. Não poderia simplesmente virar a chave sem nenhuma construção. Há uma mudança de postura política, por parte do próprio PSB, pela direção local. Não é assim que funciona, não vale tudo por um cargo. Não saio por disputa de indicação política. Me fizeram passar pelo processo de desgaste como fazem constantemente há cinco anos. Em toda eleição é a mesma coisa.

A sra. estava conversando com MDB e Solidariedade. O que pesou na escolha do Solidariedade?
Pesou a garantia de que formalmente eles vão apoiar o presidente Lula em todo país.

Em 2018, um acordo entre PT e PSB impediu sua candidatura ao governo do estado, quando a sra. liderava todas as pesquisas. Em 2020, a sra. acusou a cúpula do PT de agir para inviabilizar politicamente sua campanha. E agora o PT novamente trabalhava por outros nomes. Por que isso aconteceu?
Creio que a dificuldade de lideranças mais antigas em aceitar a renovação. Há muito de misoginia também. Se fosse um homem no meu lugar, um homem mais jovem, não teria sofrido tantos ataques quanto sofri.

A sra. entende que houve machismo no seu caso?
Machismo local, sim, e questões locais que inviabilizaram minha continuidade no PT.

É possível dissociar o machismo do PT local do comportamento do partido em âmbito nacional?
Ele não se dissocia, existe e precisa ser combatido. O machismo estrutura a sociedade. Temos de combater o machismo, desde dentro da nossa casa, até quando vamos comprar pão. 

E como a sra. identificou a misoginia?
Ao longo dos anos. A gente vai refletindo sobre como o machismo atua na sociedade. Com as violências cotidianas que sofremos, com a descredibilização por ser mulher, tomamos mais consciência disso. Não foi de uma hora para outra e nem um fato isolado. Existiu misoginia em determinados fatos, em vários aspectos, que não são vistos, mas são naturalizados. É importante que se forme uma geração de mulheres que entendam isso desde cedo. Tenho 37 anos e passei muito tempo sofrendo violência sem enxergar onde estava o machismo e a misoginia.

Como a sra. avalia a dificuldade do PT de renovar seus quadros?
É um problema em todos os partidos. Vejo na política de uma maneira geral dificuldade de haver renovação dos quadros. Deixo o PT para continuar nesse embate, mas me mantenho alinhada ao projeto de eleger Lula.

O PSB e o PT têm dito que Lula terá apenas um palanque em Pernambuco, o que deixaria a sra. de fora do palanque. O que acha disso?
Acho que essas manifestações do PSB são parte do grande medo de perder o poder aqui no estado. Eles estão há 16 anos no governo. É o núcleo de Pernambuco que manda no PSB nacional. Eles sempre usam Pernambuco como barganha. Não me assusta de maneira nenhuma. A população sabe que sou uma liderança respeitada e que sempre estive com Lula. Vou fazer campanha para ele em qualquer espaço. E a questão de palanque não é hora de se discutir. Se eles estão com tanta avidez e preocupação com isso, é porque sabem que nossa candidatura é competitiva.

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  1. O pt não passa de um grande sindicato, onde as decisões são definidas de cima para baixo. Assim, tal como acontece nos sindicatos as direções do pt serão ocupadas por homens e as decisões determinadas por eles. Somente a deputada não consegue ver isto, mas admite continua desempenhando o papel de segunda categoria quando sai do pt e continua apoiando lula.

  2. Interessante uma renovação que apoia um velho e conhecido corrupto e que chefiou o maior assalto a um estado na história do Brasil e do mundo. E o sujeito não mudou nada, exceto pelo desejo de vingança

  3. Incoerente, saiu do pt mas apóia o chefe da seita?? O ex-presidiário lider do mensalão, petrolão!!! Honestos na política tem por obrigação apoiar outros honestos ou então é o vale tudo pelo poder que é o que parece, não merece nenhum crédito, o povo de Pernambuco fique esperto com este tipo de político camaleão.

  4. Não há nenhum escrúpulo em se declarar apoiadora do condenado por roubar os cofres públicos em grande escala. Chegamos no mais baixo nível da política nas últimas décadas.

  5. Políticas e políticos da cloaca Brasil. De todo o discurso, a parte objetiva, é que é mais uma sabuja do safado mor

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