CrusoéMendonça em êxtase no palco-altar: "Se você está sendo perseguido porque você é justo, dê um glória a Deus"

O pastor sobe o monte

Sofrimento, superação e sectarismo: acompanhamos uma pregação de André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro para o STF
24.09.21

O portão da igreja Comunidade das Nações, localizada a 10 quilômetros da Praça dos Três Poderes, estava abarrotado de fiéis na manhã de domingo, 19. Duas filas se formavam para aquele que seria o mais concorrido culto do dia. Após se submeterem a um termômetro para medir temperatura, ao entrar os fiéis se deparavam com um salão repleto de luzes coloridas e três telões gigantes que exibiam a imagem de um portentoso edifício. A foto era uma referência ao tema da principal pregação do dia, que viria a seguir, feita por um pastor ilustre. Passava pouco das 11 horas quando o bispo João Batista Carvalho, presidente da congregação, anunciou o convidado. Foi então que, carregando uma bíblia debaixo do braço esquerdo, subiu ao palco-altar André Mendonça, o ex-advogado-geral da União e ex-ministro da Justiça “terrivelmente evangélico” escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Pastor presbiteriano, Mendonça vive uma situação insólita. Nesta sexta-feira, 24, completam-se 71 dias desde que Bolsonaro enviou o nome dele ao Senado para ser sabatinado. Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, reluta em marcar a audiência, porém – ele defende publicamente o nome do procurador-geral da República, Augusto Aras, para a vaga aberta no Supremo com a aposentadoria de Marco Aurélio Mello. Além de agir por interesse próprio, Alcolumbre vocaliza a insatisfação de outros senadores que também torcem o nariz para o escolhido de Bolsonaro. Hoje, diz o presidente da CCJ, Mendonça não teria votos suficientes para ser aprovado pelo plenário, o ato seguinte à sabatina na comissão. Seria algo sui generis. Desde que o STF foi criado, há 131 anos, apenas cinco indicados ao tribunal foram rejeitados pelo Senado, todos eles em 1894, no governo do marechal Floriano Peixoto, quando o Brasil vivia a transição da monarquia para o sistema republicano e o então presidente enfrentava uma oposição cruenta.

Premido pela ala evangélica, uma de suas principais bases de sustentação, Bolsonaro mantém a indicação mesmo diante dos sinais de resistência. Para não ficar mal com seus apoiadores, o presidente apelou pessoalmente a Alcolumbre para tentar tirar os obstáculos da frente, mas não teve sucesso. Nos bastidores, ele já admite um possível infortúnio. Por tudo isso, a pregação de André Mendonça na manhã de domingo foi, também, uma metáfora do momento que ele atravessa. Aos fiéis da Comunidade das Nações, ele discorreu sobre sofrimento, superação e dificuldades no trabalho. Também falou da “saga” que é progredir na vida e na carreira em um mundo repleto de “inimigos e tentações do diabo”. Os temas compõem a essência do Sermão da Montanha, uma conhecida pregação de Jesus Cristo com ensinamentos morais que orientam a vida em sociedade e cuja mensagem essencial – “Não sejam iguais a eles” – passa longe do establishment reinante em Brasília.

Depois de pedir que os presentes o acompanhassem, em suas próprias bíblias ou nas versões digitais do livro sagrado baixadas em seus smartphones, Mendonça partiu para um sermão sentimental, ilustrado por suas experiências pessoais. Explicou que a vida é feita de momentos difíceis, cheios de tentações extramundanas “que estão aí para serem superadas com fé em Deus”. “Cairá chuva, transbordarão rios, o vento dará com ímpeto contra sua vida. Talvez esse seja o momento que você esteja vivendo. Talvez essa palavra lhe prepare para momentos como esse”, disse. Apontando o dedo indicador para o alto, ele emendou: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça. Se você está sendo perseguido porque você é justo, dê um glória a Deus. É sinal que, dentro da perspectiva do reino de Deus, do mundo espiritual, você está chegando para ser diferente. Fazer diferença incomoda. Isso incomoda aquilo que não pertence ao grande Deus”.

No centro das atenções, o indicado de Bolsonaro para o Supremo desfilava familiaridade com a oratória e o physique du rôle de pastor. Gesticulava, fazia pausas longas entre uma fala e outra, circulava por todo o palco, de 30 metros quadrados. Diminuía ou acelerava o discurso ao sabor do entusiasmo dos fiéis. O tom de voz ia de um sussurro, quando queria imprimir ênfase a um trecho bíblico, a frases mais vibrantes e graves na hora de concluir um argumento. Era a senha para os aplausos, seguidos, em geral, de um coral eloquente de “amém”. Cada trecho da pregação obedecia a uma ordem bem definida de temas. Quando mudava de assunto, fazia sempre uma pergunta, que era imediatamente respondida por ele mesmo. “Quer uma vida plena? Se prepare, você vai disputar uma Olimpíada. Você não vai ficar no joguinho do bairro. Você não vai ficar disputando palavra cruzada, você vai estar disputando a Copa do Mundo”, bradou, exortando os fiéis a não se contentarem com a mediocridade e a se prepararem para desafios grandiosos. Era como se estivesse falando para si mesmo: “Vocês estão vendo que os obstáculos, os desafios, são grandes? Meus irmãos, os obstáculos e desafios na vida do crente foram feitos para serem superados. Não queira uma vida medíocre”.

Foi nesse momento que Mendonça apontou para a imagem reproduzida nos telões e aconselhou os “irmãos” a edificarem suas vidas como engenheiros edificam prédios seguros, sobre bases sólidas. A certa altura da pregação, de 43 minutos, ele passou a se referir a si mesmo em primeira pessoa. E se disse confiante, apesar das pedras no caminho. “As pessoas me perguntam, por exemplo: ‘Nos momentos difíceis, como é que você está?’. Estou em paz, continuo em paz. Porque Deus é poderoso.” Ovacionado, Mendonça explicou que não costuma fazer pedidos específicos a Deus e que deixa as bênçãos “a cargo do Todo-Poderoso”. “Eu me fio muito em Isaías, 55 (refere-se ao livro da Bíblia). Como eu sei que os pensamentos d’Ele são maiores que os meus, e os caminhos d’Ele são maiores do que os meus, se eu estivesse pedindo a Deus só o que eu queria, eu teria parado na minha aprovação lá na AGU em 98 e 99 (quando ingressou no órgão por concurso público). Mas falei: ‘Não, eu quero que o senhor me diga o que eu quero”. A pregação, enfim, era também sobre ambições.

Milton Ribeiro desejou sorte ao amigo em sua jornada: caminho para o STF está repleto de obstáculos
Mendonça disse que o Sermão da Montanha foi decisivo em alguns momentos de sua vida. E exemplificou: “Esse texto me falou muito ao coração na véspera da minha ida para a Espanha em 2012 (para fazer o doutorado em Salamanca). Eu era diretor de um departamento na AGU, tinha acabado de receber vários prêmios. E a decisão que eu tomei era ter um período de estudo, dar alguns passos atrás, e muita gente da minha família disse: ‘André não faça isso, você vai deixar seu cargo, vai deixar benefícios financeiros, materiais’. Era um passo que eu tive que dar pela fé”.

A maior parte dos fiéis era formada por jovens entre 20 e 30 anos. Para atrair esse público, a igreja se adaptou aos novos tempos. Para participar do culto, era preciso fazer uma inscrição por meio de um aplicativo. Após deixar alguns dados, cada fiel recebe um QR Code que precisa ser apresentado na entrada. Pouco antes de Mendonça começar a falar, um pastor lembrou os fiéis da necessidade de pagamento do dízimo, explicando que a contribuição seria “retribuída por Deus por meio de bênçãos e vitórias financeiras na vida de cada um”. Maquininhas de cartão de crédito circulavam entre os fiéis para coletar as doações.

Fundada em Brasília, há 17 anos, a Comunidade das Nações é uma igreja evangélica com cerca de 25 templos espalhados em nove estados. A congregação, que há tempos atrai políticos, ganhou mais projeção no atual governo pelo alinhamento com Jair Bolsonaro. Seu fundador, o bispo João Batista Carvalho, conhecido como JB Carvalho, costuma aparecer em eventos públicos ao lado do presidente. Em julho deste ano, ele esteve com Bolsonaro em Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, para a inauguração de uma obra. Natural de Teresina, o bispo se apresenta como teólogo, conferencista, professor universitário, compositor, jornalista e escritor. Ele também é amigo do pastor e deputado Marco Feliciano e de vários outros parlamentares. Entre os políticos que frequentam a igreja, estão a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e a deputada federal Celina Leão, que emprega Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe do filho 04 do presidente.

Assim que concluiu sua pregação, André Mendonça acomodou-se na primeira fileira de assentos. Ele ainda permaneceria no local por mais 30 minutos. Na ida à igreja, ele foi escoltado pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro, que também é pastor evangélico e chegou a usar o microfone para desejar “sorte” ao amigo “em sua jornada”. Se o ministro estava se referindo à aprovação de Mendonça para o STF, o desejo não basta. O amigo vai precisar bem mais do que sorte. Como no Sermão da Montanha, o caminho para Mendonça está cada vez mais estreito e apertado.

O CENÁRIO NO MOMENTO – Nesta quinta-feira, 23, Davi Alcolumbre já admitia agendar a sabatina de André Mendonça até a segunda quinzena de outubro. Na semana passada, a previsão era de que a sessão só seria marcada para depois de novembro. O presidente da CCJ resolveu se mexer depois que o ministro do STF Ricardo Lewandowski lhe enviou um ofício questionando as razões para a demora em destravar a questão. Como não tem como explicar os reais motivos para postergar a sabatina, Alcolumbre ficou emparedado. Mendonça ainda terá algum tempo para reduzir a má vontade em relação ao seu nome e cabalar os apoios que faltam para a aprovação de seu nome em plenário. Nos cálculos dos governistas, hoje ele contaria com algo em torno de 39 votos – são necessários 41. No STF, ministros não acreditam que o nome de Mendonça será rejeitado pelo Senado.

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