UsaidMulher recebe vacina contra a Covid na África do Sul: número de casos dobrou em 24 horas

Perigo de alta transmissibilidade

Variante Ômicron do coronavírus se espalha pelo mundo em poucos dias e aporta no Brasil, levando governantes a acelerar a vacinação e a repensar medidas sanitárias. Entenda o que já se sabe sobre a nova cepa
03.12.21

De um dia para o outro, o número de casos de Covid na África do Sul dobrou. Foi de 4,3 mil na terça, 30 de novembro, para 8,5 mil na quarta, 1º. O salto é ainda mais assustador quando se considera que, em meados de novembro, a média de novos casos era de 300. De todos os genomas sequenciados de infectados nos últimos dias, 70% eram da Ômicron, a nova variante do coronavírus que colocou o mundo inteiro em alerta. Menos de dez dias após ter sido reportada para a Organização Mundial de Saúde, a OMS, a Ômicron já tinha se espalhado para mais de 20 países, um indício claro de sua alta transmissibilidade. Até a última quinta, 2, cinco casos tinham sido confirmados no Brasil e havia mais oito suspeitos, no Distrito Federal, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A capacidade de uma cepa de se espalhar pelo planeta não necessariamente implica que ela causará mais mortes. Por isso, cientistas estão atentos para a evolução da situação nos países mais afetados. Muito vai depender da habilidade da Ômicron para driblar a ação das vacinas. Atualmente, 55% da população mundial já tomou ao menos uma dose. A preocupação maior é com os países pobres, onde apenas 6% dos habitantes receberam uma dose.

A elevada transmissibilidade e a falta de informações sobre a nova cepa são os aspectos que mais geram medo com a Ômicron. O momento atual, contudo, é muito diferente daquele vivido no início de 2020, quando o coronavírus causava milhares de mortes, ignorando as fronteiras nacionais. A prova disso é que, antes mesmo de um primeiro óbito pela Ômicron ser anunciado, empresas já preparavam uma vacina específica contra a nova ameaça e governantes anunciavam medidas para conter sua disseminação. Para ajudar na compreensão dessa ameaça, Crusoé consultou especialistas para responder a dez questões.

A Ômicron vai causar casos graves?
Os médicos que trataram de pacientes com a nova variante em países do sul da África relataram que a maioria dos casos foi assintomática ou com sintomas leves. Segundo a doutora Angelique Coetzee, chefe da Associação Médica da África do Sul, os contagiados apresentaram cansaço, dores musculares, coceira na garganta e tosse seca. Não foram detectados perda de paladar ou de olfato ou dificuldade de respiração. A OMS afirma que ainda não há dados sobre o grau de agressividade da Ômicron, assim como não há nada até o momento que indique que a variante cause quadros graves. Existe a possibilidade de que, com o passar dos dias, casos leves evoluam para quadros preocupantes. Em geral, pacientes internados com Covid sofrem uma piora entre o 7º e o 10º da infecção, e precisam ser transferidos para a UTI. Como a Ômicron só foi reportada no dia 24 de novembro, esse período mais crítico estaria chegando agora. “Mas os casos que foram noticiados da Ômicron até agora nem sequer necessitaram de internação, então não há nada ainda que possa sustentar que essa variante possa levar a situações mais complicadas”, diz o infectologista Wladimir Queiroz, do Instituto Adolfo Lutz, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia. Uma ressalva importante deve ser feita quanto à amostra de infectados que se tem até agora. Os primeiros casos identificados no sul da África foram detectados entre jovens universitários, que geralmente desenvolvem sintomas leves da doença. Para tirar uma conclusão mais segura sobre a agressividade da Ômicron, é preciso esperar que o vírus se espalhe pela população mais velha e não vacinada.

O que as mutações encontradas na nova cepa significam?
A Ômicron tem 50 mutações, sendo 32 na proteína espícula (spike, em inglês), que o vírus usa para penetrar nas células humanas. Com isso, deduziu-se que a cepa seria mais transmissível. O fato de que, em poucos dias, a Ômicron tornou-se a variante predominante na África do Sul e se espalhou por mais de 20 países comprova essa aptidão. Como a maior parte das vacinas disponíveis treina o corpo para atacar a espícula, também se supôs que a Ômicron enganaria os anticorpos produzidos pelas vacinas. “Das 32 mutações na espícula, sobre 12 não temos a mínima ideia do que elas fazem. Outras, nós já conhecemos, porque apareceram em outras variantes, e sabemos que algumas delas são capazes de atrapalhar um pouco a ação das vacinas”, diz o médico geneticista Salmo Raskin, diretor do laboratório Genetika, em Curitiba.

ReproduçãoReproduçãoVírus da Ômicron tem 32 mutações na proteína espícula
Quais vacinas podem ser mais eficientes contra a Ômicron?
Em tese, as vacinas que treinam o corpo para atacar a proteína espícula seriam menos eficientes, por causa das 32 mutações. Nesse grupo estão todos os imunizantes disponíveis no Brasil, com exceção da Coronavac, que prepara o corpo para destruir o vírus como um todo. Mas informações preliminares divulgadas por autoridades de saúde de Israel e da África do Sul indicam que mesmo aquelas que miram a espícula têm cumprido o seu papel. A Pfizer, a AstraZeneca, o Instituto Butantan e a Janssen iniciaram testes misturando o sangue de pessoas vacinadas com a variante Ômicron, para entender como se dá a resposta imunológica. Os primeiros resultados deverão ser conhecidos ainda neste mês. Os cientistas já descobriram que ter contraído a Covid previamente não protege de uma nova infecção com a Ômicron. A solução, portanto, passa principalmente pelas vacinas.

Quando haverá vacinas feitas para combater a Ômicron?
A Pfizer declarou que seriam necessárias seis semanas para desenvolver uma nova vacina e 100 dias para produzi-la. A Moderna estimou que o prazo seria de dois meses.Vacinas baseadas com a tecnologia de RNA mensageiro, como a da Pfizer e da Moderna, são mais fáceis de modificar para iniciar a produção rapidamente. A Moderna teve o primeiro lote pronto para testes apenas 40 dias após o sequenciamento do coronavírus”, diz Edécio Cunha-Neto, diretor do Laboratório de Imunologia Clínica e Alergias da Universidade de São Paulo, USP. A partir daí, seria preciso realizar estudos clínicos e obter a aprovação das agências reguladoras.

Qual teste pode detectar a Ômicron?
Os testes de PCR, que usam um cotonete nasal, podem detectar a presença do coronavírus com ótima precisão, e dão uma boa ideia se é pela variante Ômicron ou pela Delta. Esses exames buscam por três trechos do código genético do vírus. Em uma amostra com a Ômicron, dois deles darão positivo. O terceiro dará nulo, como se a pessoa não tivesse testado. “Esse terceiro trecho não existe na Ômicron, é como se existisse ali um buraco. Então, quem fizer o exame já vai saber se tem essa nova cepa”, diz Salmo Raskin, da Genetika. A falta do terceiro gene foi o que possibilitou a descoberta da Ômicron por técnicos do Laboratório Lancet, em Pretória, na África do Sul. Eles notaram que, em vários testes, havia um gene faltando. Ao mesmo tempo, notaram um aumento dos casos positivos de Covid.

Por que a Ômicron surgiu no sul da África?
Não há certeza sobre isso. O que se sabe é que os dois primeiros países a reportar casos da nova variante para a OMS foram Botsuana e África do Sul, no dia 24 de novembro. Também se sabe que muitos viajantes internacionais que saíram desses países tinham essa cepa. Mas é possível que essas nações tenham sido as primeiras porque nelas há um sistema de vigilância epidemiológica avançado, que foi desenvolvido com ajuda internacional para lidar com os casos de Aids. À medida que novos estudos forem realizados, pode ser que casos anteriores aos africanos sejam relatados por outros países. Isso porque muitos sequenciamentos genéticos de amostras colhidas em novembro ainda não foram concluídos. Na terça, 30, autoridades sanitárias da Holanda afirmaram que dois casos, com exames feitos nos dias 19 e 23 de novembro, deram positivo para a Ômicron. Um deles provavelmente contraiu o vírus na Holanda. Na quinta, 2, o estado americano de Minnesota anunciou o caso de um homem que não viajou para o exterior recentemente e desenvolveu os sintomas no dia 22, após frequentar um evento de desenho animado em Nova York, entre os dias 19 e 21.

Cancelar voos pode ser uma medida eficiente para conter a Ômicron?
Mais de 70 países bloquearam voos do sul da África após a descoberta da Ômicron. A OMS é contra tal medida. A entidade alega que isso pode levar alguns países a não compartilhar informações genéticas e epidemiológicas, com medo de serem isolados do resto do mundo. Outro argumento usado pela OMS é que o cancelamento de voos prejudica economicamente os países e os seus cidadãos, sem conter o avanço da nova cepa. Especialistas na área de saúde, como o imunologista americano Anthony Fauci, e governantes, como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, acham que a medida, quando feita de maneira temporária, ajuda as entidades nacionais a se preparar para a nova ameaça. “Se tomada com o prazo de algumas semanas, essa medida pode ajudar as autoridades de saúde a entender o que está acontecendo e ganhar algum tempo”, diz o epidemiologista Eliseu Waldman, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. “Mas não faz sentido fechar as fronteiras por períodos longos, porque as fronteiras são porosas ao vírus.” O casal de missionários que primeiro testou positivo para a Ômicron no Brasil está no país desde o dia 23. Três dias depois, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, anunciou que o Brasil fecharia as fronteiras para seis países da África.

ReproduçãoReproduçãoO ministro Queiroga: preocupação, não desespero
O Brasil está preparado para lidar com a Ômicron?
O comportamento da pandemia no Brasil tem repetido os padrões da Europa, com seis meses de atraso. Sendo assim, é esperável um aumento de casos a partir de abril do ano que vem. A maior barreira que pode ser erguida contra a Ômicron é a vacinação. Prova disso é que a grande maioria dos contágios tem ocorrido entre não vacinados. Os dois primeiros casos detectados no Brasil foram em dois missionários que estavam na África do Sul e não tinham se vacinado. Eles apenas desenvolveram sintomas leves. O terceiro caso é de um homem que chegou da Etiópia. Ele estava vacinado e não apresentou sintomas, mas decidiu fazer o teste porque tinha visitado a África do Sul. Nos próximos meses, espera-se que uma porcentagem maior de brasileiros se imunize ou ganhe uma dose de reforço. O país, assim, poderia evitar um quadro muito negativo, assim como conseguiu resistir muito bem à Delta, que teve origem na Índia e entrou no Brasil no primeiro semestre. Outro fator que pode contribuir é que a vacina demorou mais para ser aplicada nos brasileiros, o que faz com que a última dose tomada em vários casos seja recente e ainda ofereça uma boa proteção. As demais medidas aconselhadas pela OMS são as mesmas empregadas contra a Delta: distanciamento social, uso de máscaras, evitar aglomerações e melhorar a ventilação dos ambientes.

Aglomerações no Réveillon e no Carnaval devem ser evitadas por causa da Ômicron?
Ainda que 62% da população brasileira esteja completamente vacinada, especialistas em saúde já recomendavam manter as precauções vigentes, antes da descoberta da Ômicron, por prudência.No ano passado, ocorreu um aumento das interações sociais com as festas de fim de ano e com as eleições municipais, o que levou a uma subida nos casos. Ainda que a vacinação tenha evoluído, não podemos repetir o erro”, diz o epidemiologista Eliseu Waldman, da USP.

As autoridades brasileiras estão tomando as medidas corretas?
Na segunda, 29, o ministro Marcelo Queiroga tentou acalmar os brasileiros sobre o advento da Ômicron. “Ela é uma variante de preocupação. Não é uma variante de desespero porque nós temos autoridades sanitárias comprometidas com a assistência de qualidade a nossa população”, disse Queiroga. Quanto a considerar a Ômicron como variante de preocupação, como diz a OMS, ou “de desespero”, como disse o ministro, isso dependerá da evolução dos casos nos próximos dias. Em relação ao que ele diz sobre “autoridades sanitárias comprometidas”, o Brasil tem tido divergências entre os diversos níveis administrativos. O governo federal, seja na figura do presidente Jair Bolsonaro ou dos ministros de Saúde, tem apresentado falas controversas sobre a necessidade das vacinas e promovido remédios de ação questionável. Existe ainda uma recusa em exigir comprovante de vacinação de passageiros de voos internacionais e de pessoas que entram no país por terra. Tal medida poderia ter impedido o desembarque dos primeiros casos no país. Governos estaduais e municipais, por outro lado, estão reavaliando os planos para liberar o uso das máscaras e permitir grandes aglomerações. O governo estadual de São Paulo desistiu de suspender a obrigação do uso de máscaras. Prefeituras de 20 capitais cancelaram festas de Réveillon, incluindo a do Rio de Janeiro. Por enquanto, a prefeitura da cidade passou a obrigar a apresentação de um comprovante de vacinação para que as pessoas possam frequentar salões de beleza, hotéis, pousadas, bares, restaurantes e lanchonetes.

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  1. O Bozo, advogado do coronavirus, não quer que se exija comprovante de vacinação para viajantes que chegam do exterior, alega que a exigência do passaporte vacinal é um cabresto. E a pergunta que se faz é o que se usa para os burros?

  2. A maior preocupação é essa variante altamente transmissível sofrer novas mutações e gerar um monstro que não responda as vacinas, aí ferrou.

  3. Certamente a expectativa de vida do ser humano demostra que o nosso organismo se adaptou bem as vacinas e antibióticos … senão estaríamos morrendo ainda quando crianças ou mal chegando a meio século.

  4. Radicais livres. O corpo humano é, por si só, um milagre. Evolutivo? Deus sabe. Muitos acreditam que sim. Éramos macacos e nós tornamos esta belezura de seres vivos, muitos racionais, outros nem tanto. A questão é: fomos preparados para receber este bombardeio de medicamentos e vacinas? São muitas substâncias e elementos químicos ingeridos e respirados diariamente. O combate a estas "variantes" passa por uma drástica mudança de vida. Nossa " visão de mundo" precisa mudar.

    1. Os bons jornalistas escrevem pouco e dizem muito. Outros escrevem muito e não dizem quase nada. Pior são aqueles que escrevem muito gerando confusão e/ou dúvidas. Em síntese, quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. Abs

    2. Se você não gosta de ler, tem um item lá em cima, bem no começo: "ouvir".

    3. Vai para o zapzap. Lá tem fofoquinhas, pequenininhas. MS

  5. GENOCÍDIO, CRIME CONTRA a HUMANIDADE, RACHADINHAS, CORRUPÇÃO nas VACINAS e MANSÕES para o 01 e 04! BOLSONARO é um DEGENERADO MORAL que IMPEDE o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

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