AlexandreSoares Silva

Feliz Natal de 2051

24.12.21

Prevejo o futuro, como vocês sabem. Não digo que prevejo o futuro como ele vai acontecer – o que sou eu, um pai de santo? Não, prevejo o futuro como ele talvez aconteça, ou talvez não aconteça. É um chute, digamos. Ou nem digamos: é um chute mesmo. Sou um profeta que dá chutes com a mesma qualidade de qualquer profeta amador, mas que pelo menos gosta de chutar e está aqui disposto a chutar um negócio pra vocês: o Natal tal como ele vai ser, em vinte ou trinta anos.

Visualizem os jovens de cabelo azul de agora, pronomes na biografia e tudo, hormônios em alegre desarranjo, em vinte ou trinta anos. Como vão comemorar o Natal? Você talvez diga que não vão, mas vão: com os olhos da minha mente vi um Natal de 2051 – e essa gente vai comemorar o Natal, sim, embora lá do jeito deles.

Incomodarão os sobrinhos (por um milagre vai ser uma geração inteira sem filhos, só com sobrinhos, como os personagens da Disney; mas se você me perguntar de quem esses sobrinhos são filhos, não sei dizer. Talvez cruzamentos genéticos de millenials com pugs?) do mesmo modo que eram incomodados pelos tios do pavê e pelas tias do tipo e-as-namoradinha? Certamente, e os sobrinhos vão incomodá-los de volta.

Agora me deixe dizer para vocês algo que talvez soe estranho, mas é absolutamente verdadeiro: por volta de 2050, o Especial de Natal do Porta dos Fundos vai ser uma tradição antiga de Natal. As pessoas vão reunir a família – o que sobrar da família: um tio pedófilo, uma estátua de Beelzebub, uma tartaruga de batom, um Kiko Marinho tatuado numa cadeira de rodas fumando crack num cachimbinho – e vão ver o Especial de Natal do Porta dos Fundos juntos, na noite de 24 de dezembro. Comerão gafanhotos de Natal e beberão tacinhas de urina de e-girls e comerão rabanadas feitas com o pênis recém-retirado do sobrinho designer gráfico Edna, e se reunirão na frente da lareira para zombarem de Jesus Cristo juntos. Isso vai fortalecer a unidade das famílias, e eles vão ser bastante sentimentais a respeito da festa, que vai lembrá-los da infância e da pureza perdida.

O problema vai surgir em 2051, quando um grupo de jovens cômicos irreverentes vai fazer um especial zombando do que, nessa época, ninguém vai poder zombar: o Especial de Natal do Porta dos Fundos. Contra esse especial zombando dos especiais do Porta dos Fundos haverá campanhas dos conservadores de 2056, fracassadas como todas as campanhas de conservadores moralmente indignados. Dessa vez vão estar furiosos com essa dessacralização de uma das tradições familiares mais queridas dessa época. “Oooh, zombar de quem zomba de Jesus Cristo, quanta coragem! Quero ver zombar de quem zomba de Maomé!”

Os jovens cômicos irreverentes de 2051 se defenderão dizendo que o Porta dos Fundos não é engraçado. “Engraçado? Desde quando o Porta dos Fundos é pra ser engraçado?”, dirão os millenials e os membros da Geração-Z em 2051, suas narinas convulsionando de fúria, o que vai fazer os seus piercings tilintarem como guizos. “Rir quando o Fabio Porchat está falando? Não se respeita mais nada?” E a vó sem netos de 2051 vai se benzer fazendo o sinal da cruz invertido.

Em 2070 as pessoas vão ter saudade desses natais dos 2050s: “Por que não fazem mais especiais de Natal bonitos e simples que nem os de antigamente, quando a gente se reunia pra zombar das dores de Jesus Cristo juntos? Por que tratar o nosso cinismo com tanto cinismo?”

Em algum ponto da festa, a campainha vai tocar, anunciando uma visita. Me deixem explicar algo sobre o futuro: Quando carros self-driving forem comuns, pessoas vão pagar para que depois da morte seus corpos sejam postos em limousines e fiquem circulando pra sempre pelo mundo inteiro. Trânsito atravancado porque os mortos decidiram passear para sempre. Vão ser os Tesla Coffins, bastante comuns já a partir de 2026.

Algumas pessoas vão deixar instruções para que depois da sua morte o carro circule por pontos turísticos; outros pelos lugares que eles amaram quando estavam vivos. E muitos vão deixar a instrução de que, na noite de Natal, o carro transportando o seu corpo pare durante uma hora ou duas na frente da casa dos seus descendentes, para que a família saia por um momento e eles possam passar um pouco da festa juntos.

Bom, o problema é que estamos falando de millenials e membros da Geração Z, que mal aguentam a companhia da família nas festas de fim de ano e que dizem a toda hora que têm vergonha dos seus ancestrais porque eles eram racistas, ou porque, cinco séculos antes, os seus ancestrais venceram ao invés de perderem alguma guerra. Então, quando o Tesla Coffin chegar com o bisavô e a bisavó na noite de Natal, muitas famílias de 2051 não vão nem abrir as cortinas da janela da frente.

Completamente ignorados, os carros vão ficar parados por uma hora ou duas, e depois vão embora automaticamente, para Acapulco ou para a Costa Amalfitana – com os seus ocupantes nem mais tristes, nem mais alegres do que estavam antes.

Dentro de casa, a festa vai continuar. Uma tia inconveniente, com o brancos dos olhos tatuados de negro e um rabo de texugo implantado no derrière, vai parar os sobrinhos e dizer: “E as orgia, como é que vai? Hein? Hein?” E os sobrinhos, embaraçados: “Ai, tia.”

E é claro que em algum ponto da festa vai aparecer essa velha e tradicional figura de todas as famílias, o Tio Trangênero do Pavê:

-Isso aí é pra verx ou pra comerx?

Eu contaria muito mais coisas que vi, com os olhos do espírito do Natal de 2051. Mas sou só profeta como hobby, e pode ser que esteja tudo errado, quem sabe.

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500
  1. Arte é intriga, como dizia Millôr! O quanto aquele Natal de 2051 se parece com o de 2021, fica a critério de cada um imaginar, comparar ou profetizar. Os exageros, a meu ver, totalmente cabíveis, aumentam o valor desse texto, provocativo e genial!

  2. Nefasto, altamente conservador, reacionário, e ainda por cima sem graça. Se os jornalistas de hoje ainda não conseguem admitir que o mundo mudou, e pra melhor, driblando e aplaudindo as diferenças do presente, como ousarão a criticar ou muito menos prever as indiferenças do futuro, já que ainda estão entalados com seus instantâneos, ancestrais, atávicos preconceitos originais! Genesi: 1/1 Vergonha!!!!

  3. Caramba, vocês perderam tempo lendo esse monte de bobagens? Esse cara não consegue ser sério nem engraçado. Não sei onde os meninos Antagonistas descobriram essa peça...

  4. Engraçadíssimo.. huahushua.. merece uma produção televisiva.. dá-lhe Rede Bozótica Lulal RBL, cujos proprietários serão descendentes diretos de uns caras dos anos 20..

  5. Espero já ter morrido a essa altura! Em tempo: Natal é coisa de quem acredita em Papai Noel, ou seja, de crianças ...

    1. Querido robô bolsominio, lembre-se de que você é dotado de Livre Arbítrio ou seja pode escolher o que comprar, ler, ver, eleger o governante , o deputado, o senador e até o país onde morar.

    2. Você não estará presente no natal de 2051. Que peninha. Um nativo da ilha. 🌲

  6. Descobri os artigos do Alexandre uns 3 ou 4 artigos atrás. Fiquei fã de imediato. Agora, semana sim outra não, após a leitura do Diogo e do Mário eu pulo para o Alexandre e curto.

    1. São artigos diferentes, que fogem do costumeiro. Sempre com ácidas ironias ocultas - ou nem tanto. ... Basta ler uma ou mais vezes. ... Leio quantas vezes dá na telha.

    1. Eu não sou millenial nem geração XYZetc. Por isso, tô rindo até agora. Mas admto que só só com um lado do rosto, o outro não para de chorar de tristeza.

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