MarioSabino

Cala a boca já viveu

21.01.22

Publiquei na quarta-feira, em O Antagonista, um artigo sobre a censura que uma penca de jornalistas da Folha quer impingir ao antropólogo Antonio Risério, por causa de suas críticas ao identitarismo — censura extensiva a quem ousar discordar dos dogmas importados das catedrais universitárias americanas. Os 191 bravos rapazes e moças fizeram um abaixo-assinado, com o ineditismo de mais 17 signatários anônimos, expressando a sua “preocupação” com o espaço que o jornal estaria dedicando ao “racismo”. Foram muito aplaudidos em outras redações, no que é mais um  sinal indecoroso de que a vaca está indo para o brejo. A tolice e a desonestidade intelectual nunca se apresentaram tão irmanadas. Em resposta ao abaixo-assinado, 186 cidadãos, entre os quais professores universitários, escritores, profissionais liberais e jornalistas, lançaram uma carta aberta em defesa de Antonio Risério e contra o identitarismo.

Eis o texto da resposta aos censores que dão expediente na Folha (retomo em seguida):

Nos últimos quatro meses, o antropólogo baiano Antonio Risério foi alvo de duas reações de parte da classe intelectual nacional por suas obras sobre raça. Em setembro de 2021, seu livro As Sinhás Pretas da Bahia: Suas Escravas, Suas Joias foi resenhado por Leandro Narloch. A resenha atraiu não apenas críticas, mas chamados pela demissão de Narloch, a quem muitos atribuíram o conteúdo do livro. Não há, ao contrário do que dizem esses críticos, nenhum delito moral no livro ou em sua resenha: Risério, que escreve há décadas sobre o assunto, divulga pesquisas a respeito de personalidades reais da história brasileira que complexificam o modo como entendemos as relações sociais da época da escravidão.

Nos escritos de Risério, que é um dos melhores leitores vivos da nossa cultura, está claro que ele considera a escravidão uma instituição moralmente repugnante, e que ele busca entender como seres humanos que não são monstros poderiam ter convivido com ela no passado. É preciso fôlego para entender como ex-escravos se tornavam senhores de escravos. Risério tem esse fôlego; seus canceladores, não.

Na segunda polêmica, Risério publicou na Folha de S. Paulo um artigo a respeito da universalidade do erro moral que é o racismo, documentando casos em que negros foram, sim, racistas. Falamos ‘racismo’ segundo a definição clássica, do senso comum e do bom senso, registrada em dicionários. Um dos projetos intelectuais do autor, a oposição ao pós-modernismo e à teoria crítica, que fundaram o identitarismo, o leva a essa condenação. Os identitários querem alterar à força, unilateralmente e sem consultar os falantes da língua, a definição de ‘racismo’ de forma a fazê-lo unidirecional e maleável a seus interesses, alegando que é ‘relação de poder’.

Esta disputa vai além de uma mera querela semântica a respeito da definição de uma palavra. É um ataque novo ao tratamento igual dos indivíduos perante as normas sociais que herdamos do consenso pós-guerra que nos deu uma Declaração Universal dos Direitos Humanos. Risério é uma voz experiente do segundo campo, suas preocupações são mais que justificadas, e nos posicionamos firmemente contra tentativas de censurá-lo.

O mal-estar que Risério causa é absolutamente necessário para que os identitários, antiuniversalistas, relativistas e revanchistas saibam que a oposição existe e não será dobrada, não importa quantas grandes empresas tenham ao seu lado em sua cruzada pela desigualdade moral. Não se trata de colecionar casos em que negros foram senhores de escravos ou cometeram racismo contra pessoas não-negras: trata-se de reafirmar que ninguém é inerentemente bom ou mau por causa da cor, então ninguém tem carta branca para desumanizar ninguém. Antonio Risério é no momento uma das vozes mais importantes do país, sobretudo por fazer oposição a uma ideologia intolerante e autoritária. Manifestamo-nos com um apelo para que sua livre expressão seja respeitada.”

O que a Folha vai fazer com os jornalistas censores — se é que fará alguma coisa — é problema dela, não meu. Só posso esperar que honre a memória de Otavio Frias Filho, um intelectual que nunca cerceou o debate. O ponto aqui ultrapassa os assuntos internos do jornal.

O ponto é que, como disse no meu artigo para O Antagonista, “se o bolsonarismo apropriou-se indevidamente de pautas que merecem ser questionadas, como as sanhas do politicamente correto e da visão identitária do mundo, isso não pode servir de pretexto para que se cancele a liberdade de expressão e a livre circulação de ideias”. É o que a esquerda brasileira faz diligentemente, aproveitando a oportunidade que o sociopata instalado no Palácio do Planalto lhe deu: todo o ideário que conflita com o dela passou a ser tachado de “bolsonarista”. É um epíteto concreto e, portanto, bem mais eficaz do que a tática tradicional — a de classificar genericamente todo e qualquer opositor ideológico de “extrema-direita”.

A apropriação indébita cometida por Jair Bolsonaro e seus asseclas transformou em “bolsonarista” — e, assim, alvo de execração — o brasileiro ajuizado que:

— Comunga dos princípios do liberalismo econômico;

— Acha que lugar de bandido é na cadeia;

— Nutre aversão por corruptos;

— Critica a jurisprudência de ocasião dos tribunais superiores;

— Acha que inquérito aberto de ofício pelo Supremo Tribunal Federal é uma enormidade;

— Alarma-se que, em nome da democracia, sejam decretadas prisões arbitrárias e praticados atos de censura oficiais;

— Espanta-se com o bombardeio autoritário das pautas identitárias nas escolas, nos meios de comunicação e nas empresas e acredita que elas trazem ainda mais divisões na sociedade. Detalhe: não é preciso ser um conservador para espantar-se;

— Teme a doutrinação nas escolas e universidades;

— Constata que a Lei Rouanet foi desvirtuada para financiar artistas ricos e os departamentos de marketing de grandes empresas.

Tudo isso parece razoável e é razoável, mas ai de você se expressar esses seus pontos de vista em qualquer contexto. Apontam-lhe o dedo: “Bolsonarista!”.

O que fazer, então, diante desse quadro contaminado? Intimidar-se com a pecha e aceitar passivamente que a esquerda o desqualifique, com a desonestidade que lhe é peculiar? Resignar-se com o fato de ideias certas estarem em bocas erradas, de uma direita grotesca que as distorce? Não posso julgar quem se abstém. A maioria esmagadora das pessoas tem afazeres e necessidades mais prementes do que o bom combate ideológico e a defesa da democracia que não prende e arrebenta. Cabe-me somente alertar que, num dia não tão distante assim, você poderá acordar e perceber que um nada admirável mundo novo o engoliu de vez. Um mundo em que a liberdade ficará sem pai nem mãe, todos reféns de uma engenharia social parecida com aquela imaginada por Aldous Huxley. Tenho lugar de fala: perdido entre jornalistas que pedem censura e os que aplaudem censores, eu sou um Bernard Max.

Cala a boca já viveu.

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  1. esse comportamento principalmente de jornalista para impedir um debate plural é herança de universidades com discurso único sendo discriminado quem ousa confrontá-lo. Infelizmente, o presidente aloprado do BR piorou ainda mais essa situação. Deu azo à esquerda.

  2. Mário! Sugiro que messe momento possamos divulgar a. Cruzoe através de seus artigos. Que se estabeleça um número mínimo para que outras pessoa possam conhecer e se concientizar que existe uma outra imprensa ,livre e independente . Pense ! Obrigado. PS. Fico angustiado em não poder compartilhar alguns artigos tão importante para o Brasil nesse momento .

    1. Eu super concordo! Um ou dois artigos por edição poderiam fazer alguns entrarem no debate e até assinarem essa revista (excelente), por sinal)

  3. As cadeiras não pensam; logo, as cadeiras não existem. Desde a década de 1970, tentam decifrar o “enigma da piràmide de Maslow”. O Terceiro Degrau é o mais complexo.

  4. Quando os seguranças do Carrefour espancaram um cliente que morreu a Maju, da Globo, noticiou que "vigilantes brancos mataram um negro"; na notícia seguinte um PM bate com o cassetete em um rapaz e ela noticiou que "PM bate em rapaz que já estava com os braços levantados", mas não falou que o policial era negro.

  5. Poucos conhecem a utilização política na América Latina do pensamento de António Gramncy e a manipulação cultural. O propósito essencial das esquerdas tem sido o desmantelamento das instituições básicas com a família, a democracia e a iniciativa privada, etc.

  6. Admirável lucidez e profundidade sobre o que pode ser ciência social e o que pode ser idiossincrasia nociva. Brilhante texto, Mário. Gostaria que obtivesse imensa "readership".

  7. Triste realidade a nossa. Pensar, contrapor, fincar-se contra ideias que criam mais segregação, não trazem soluções que possam diminuir a desigualdade de oportunidades vigente, entender a história, para não repetir, o que na visão de hoje é desumano, não querer mudar o passado, etc, etc, torna todos que questionam as agendas atuais, no mínimo, NEGACIONISTAS! Sempre que o Risério publica artigos leio com atenção e os tenho como uma lanterna nessa jornada. Precisamos de mais Antonios Risérios!

  8. No fim do túnel sempre há uma luz. Esqueçamos o partidarismo! O que está em jogo vai muito além! Vamos abrir os olhos, pq a vaca já está indo pro brejo. Parabéns Mário.

  9. Excente artigo Parabens Mario Sabino Vc é uma das pouquissimas pessoas lucidas corajosas e nao superficiais na revista Crusoe

    1. Você está sugerindo que os outros colunistas - são apenas sete!! - Não são lúcidos e são superficiais. ... Foram escolhidos e contratados pelo Publisher Mario Sabino. ... Colocação Com pé e Sem Cabeça. Discordo frontalmente. ... Cala a boca já viveu!!!

  10. CRUSOÉ e O ANTAGONISTA, liberem e permitam o compartilhamento de textos tão fundamentais e didáticos como esse de Mário Sabino, neste período de campanhas eleitorais tão perigosas e agressivas à nossa democracia!

    1. Texto perfeito! Concordo com a sua ideia de podermos compartilhar!

    2. Excelente ideia. Neste Brasil anormal de hoje, são tão poucos meios de imprensa que se atrevem a publicar verdades duras mas factuais, que se não compartilharmos elas desaparecerão entre os que não precisam ser convencidos.

  11. Parabéns! Análise perfeita. Tenho certeza de que a versão nacional do antigo Pravda nada fará (como nunca fez) contra os sensores de plantão.

  12. Excelente texto. Expressa tudo o que penso. Lamento que só quem tem assinatura possa lê-lo. Se pudesse replicar, postaria em todas as minhas midias sociais.

  13. Mário, tornaste a 'Folha' nesse artigo, uma folha A4 em branco. Mário Frias, deve ter dado um chute na perna da mesa, ao lê-lo.

  14. Estamos colhendo a safra de uma geração que cresceu vendo a vontade da minoria sobrepor a da maioria. A relativização de princípios básicos, a negação do dever comungada com a sobrevalorização dos direitos. A esquerda plantou suas sementes. É hora da colheita.

  15. Parabéns ao autor que expôs o pensamento correto sobre aqueles que se julgam dono da verdade e não aceitam pensamentos diferentes do deles, o famoso politicamente correto.

  16. nominar os imbecis da Folha que escreveram a tal carta de intelectuais é a única restrição que faço a resposta. sou leitor da FSP a mais de 30 anos e desde a morte do Otávio Frias Filho ela só me envergonha, virou um panfleto de um coletivo de ultra esquerda, um bando de analfabetos brincando de jornalismo

  17. Impressionante como o Mário Sabino fala de forma tão fácil e didatica o que eu penso mas temos dificuldade em organizar e expressar neste mundo complicado das mídias sociais. Que bom que existe o Antagonista e a Cruzoe como portos seguros nesta tempestade.

  18. O artigo é muito bom, pra quem tem tempo. Enxuga em 2/3. Vc diz a mesma coisa. Tal livro idiota Pauli freire. 52 páginas que eu resumo em meia a4.

  19. O Riserio recebeu apoio de um grande número de intelectuais pois todo mundo sabe exatamente que pode sim, acontecer de um negro praticar os mesmos atos de que ele foi vítima; não só isso, um ex operário, pode subir na vida e "pisar" nos seus subordinados, ora. Humanos são assim mesmo, imperfeitos.

  20. Mario, para de escrever bobagens. Seja objetivo Cruoser, tenha uma página de cultura. Morre Elza. Pra mim nunca cantou nada. Uma vaca berrando tinha mais melodia.

  21. Texto excelente. Mas ao mesmo tempo dá calafrios e tira o sono de qualquer pessoa capaz de entender a encruzilhada histórica e social que temos à nossa frente.

  22. Mário parabéns pelo artigo. Fico pensando que um dia eu assinei a Folha de S. Paulo. Mas essas mídias dançam conforme a música. Não interessa se lá dentro têm, ou não, gente que preste.

  23. 1- Fico impressionado qdo estes ditos intelectuais da esquerda, buscam apontar certezas sobre a natureza humana numa perspectiva, ou antolhos, se ñ conseguem explicar nem a sua própria natureza, diante das suas tomadas de decisões. Me vêm a mente o Lázaro Ramos, qdo aceitou fazer um galã, q transava com todas às mulheres da novela, deixando explícito, q isso se devia ao tamanho do seu pênis. Poderia provocar perguntando, se o máximo q um negro pode oferecer a uma mulher, é o pênis?

    1. 2- É óbvio que seria um imbecil, levando à questão para esse lado. Mas concordo que existiram e existem negros racistas, que se curvam por vontade própria à esteriótipos. O racismo é crime. Relativizar que existem negros racistas, é covardia.

  24. Quando leio um texto como esse, sinto alegria por sua qualidade, coragem e iniciativa de quem fala; mas, por outro lado, sinto tristeza, por que sei que o referido texto não chegará às mãos da maioria do povo brasileiro. Uma pena!

  25. Sou chamada ora de bolsonarista, ora de fascista, ora de comunista, ora de isentona conforme o caso. O que eu faço? K-go e ando.

    1. O ranço ao politicamente correto é de uma ampla parcela e os esquerdista pra desqualificar a discussão reduz tudo ao xingamento preferido que é chamar de bolsonarista

  26. Sensacional, Mario. Sempre inteligente e útil para termos que pensar. Vc é leitura obrigatória. Não aqueles mentecaptos que pensam que "pensam".

  27. Ótimo texto, Mario! Precisamos seguir "confrontando". Faço isso da forma que está ao meu alcance. E uma das formas é compartilhar os textos de O Antagonista. E lembrando a "eles" que o Brasil NÃO é formado apenas de lulistas e bolsonaristas. Abraço!

  28. Valeu minha assinatura, que custa tão pouco para o muito que recebo aqui. Bravo! esse foi o melhor artigo que li em muito tempo. Disse tudo o que eu penso e não saberia expressar. Acompanho na FSP os comentários dos esquerdistas todos criticando o autor nunca o conteúdo. Valeu o apoio dado ao antropólogo baiano!

  29. Muito bom revê lo por aqui. Sua contribuição à sociedade é tão rica, pena tão poucos tenham acesso por falta de educação. Que venha MORO para começar a governar pelo povo sem populismo, e educação como prioridade.

  30. ... Atenção Tecnologia da Informacao: dou um click no "O marqueteiro de Moro", do Diogo Mainardi, e vai para um texto de 2019, "Petista joga duro com grevistas". Está assim, tem funcionado para mim, desda as 3 da manhã.

    1. Fantastico e lucido como sempre Mario Sabino.

  31. Ser chamada de "bolsonarista" por todo e qualquer motivo que a esquerda identitária ou não quer, faz com quem eu me abstenha de me expressar sim. Tenho medo dessa gente santa da esquerda. Nós, que não somos, ficamos acuados. Seja bem-vindo de volta, Mário!

  32. Aceitar cotas raciais nas universidades como resgate identitário e se calar frente à falencia do ensino fundamental / Médio e da escola pública é covarde! Avante, Riserio, avante « Bernardo Marx » , em escancarar absurdos erros!

  33. Mario Sabino genial como sempre. Os neorracistas negros são violentos e se pudessem matariam quem lhes contestasse. Vide Black Live Matters.

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