Anadolu AgencySoldado russo na Ucrânia: Otan só pode interferir caso um membro seja atacado

O botão antiguerra

O que os líderes do mundo ocidental estão fazendo para tentar dissuadir Vladimir Putin do plano de deflagrar uma guerra na Europa que periga sair do controle
28.01.22

Chefes de governo, conselheiros presidenciais, diplomatas e representantes de blocos internacionais correram de um lado para o outro nos últimos dias para evitar um conflito militar que pode ser o mais sangrento do Velho Continente desde a II Guerra (1939-1945). Em longas reuniões, eles têm analisado estratégias, com chances diferentes de sucesso, para convencer o presidente russo Vladimir Putin a não iniciar uma ofensiva militar na Ucrânia.

Uma delas é a de apaziguar Putin, dando a ele um tratamento respeitoso e aceitando algumas de suas demandas. O método já foi tentado antes, mas já se sabe que sua eficiência cai quando se trata de líderes de governos autoritários. Às vésperas da II Guerra, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain tentou segurar o nazista Adolf Hitler, que preparava uma invasão da então Tchecoslováquia. Chamberlain encontrou-se pessoalmente com Hitler, em Munique, e aceitou algumas de suas demandas, até ser surpreendido pelo avanço nazista, impulsionado por um líder com pensamentos insondáveis e ambições desmedidas (o filme Munique, no Limite da Guerra, em cartaz na Netflix, conta essa história).

Apesar de tudo, avalia-se que o momento agora é o de agradar a Putin. Na quarta, 26, o embaixador americano na Rússia, John Sullivan, levou uma carta ao Kremlin em que as exigências de Putin foram respondidas – o russo queria que os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, se comprometessem a não aceitar o ingresso da Ucrânia na aliança militar. Um oficial da Otan também entregou uma carta a um ministro de Moscou, em Bruxelas. Seus conteúdos não foram revelados, mas o secretário de estado americano, Antony Blinken, disse que a exigência de Putin não será aceita, ainda que os países possam trabalhar em outros temas. No dia seguinte, o porta-voz do Kremlin disse que há “pouco espaço para otimismo”. O ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, comentou que negociações de alto nível ainda podem acontecer, mas apenas para tratar de temas secundários, uma vez que a questão principal não foi resolvida.

Uma das dificuldades é que a Rússia depende inteiramente das decisões de Putin, que tem raciocínios imperscrutáveis e faz o que bem entende. Apesar de falar quase todos os dias na televisão, a última vez em que ele próprio deu uma declaração sobre a tensão na Ucrânia foi em 23 de dezembro. Não há como tentar influenciá-lo falando com assessores. “Tudo isso tem a ver com Putin. Eu acho que nem sequer os seus assessores sabem o que ele fará”, disse o presidente americano Joe Biden, enquanto saía para tomar um sorvete em Washington. “Serei honesto com vocês. É como ter de ler as folhas de chá.”

ReproduçãoReproduçãoPutin evita falar sobre a tensão e ninguém sabe o que passa na sua cabeça
Um esforço abrangente tem sido feito para manter canais abertos com Moscou. Os países que mais têm se acercado de Putin são os da Europa continental, que seriam mais afetados por uma possível guerra. Na quarta-feira, 26, conselheiros dos chefes de governo de Ucrânia, França, Alemanha e Rússia reuniram-se durante oito horas, em Paris. Em seguida, divulgaram um compromisso de manter o cessar-fogo nas regiões separaristas do leste da Ucrânia. Uma nova rodada de negociações poderá ocorrer daqui a duas semanas.

A Alemanha vem agindo por pragmatismo econômico, pois depende muito do gás russo como fonte de energia. A mudança de governo no final do ano passado também causou uma alteração na posição oficial de Berlim. Quando a Rússia invadiu a Península da Crimeia, na Ucrânia, a chanceler Angela Merkel foi quem liderou a reação dos europeus e impôs sanções contra a Rússia. O novo chanceler alemão é Olaf Scholz, um social-democrata mais preocupado com política doméstica e que lidera uma coalizão heterogênea. Sob seu comando, a Alemanha se recusou a enviar armas para a Ucrânia e bloqueou um carregamento que partiu da Estônia. O país apenas se prontificou a enviar 5 mil capacetes ao país. Uma autoridade local ucraniana brincou nas redes sociais: “O que eles enviarão a seguir? Travesseiros?”. Nesta semana, o ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, criticou a Alemanha por “encorajar” a agressão russa.

O presidente francês Emmanuel Macron agendou um encontro pessoal com Vladimir Putin para esta sexta, 28. A reunião servirá para acalmar os nervos, mas também como palco para o francês, que enfrentará eleições presidenciais em abril. Macron tem defendido que a União Europeia, hoje presidida pela França, mantenha um canal próprio de diálogo com a Rússia, distante da Otan. O órgão executivo do bloco europeu está fazendo uma lista de possíveis sanções para assustar Putin, mas as medidas só poderiam ser aplicadas após a aprovação de seus 27 membros.

Diversas ações foram aventadas por outros países e blocos. Já foram cogitados a retirada da Rússia do sistema de transações globais, o Swift, e o bloqueio de exportações de equipamentos tecnológicos, como semicondutores, para o país. Nos dois casos, a China poderia ajudar a driblar as restrições — mas os chineses aconselharam os Estados Unidos a respeitar as vontades da Rússia. Na quarta, 26, Joe Biden falou em aplicar castigos pessoais contra Putin. O Kremlin respondeu que eles “não seriam dolorosos, mas seriam politicamente destrutivos”. Em outras palavras, os russos disseram que poderiam dar troco. O dissidente russo Alexei Navalny, que está preso, recomendou medidas contra 35 oligarcas amigos de Putin, mas boa parte deles já retirou suas fortunas do Ocidente. A situação é delicada, porque decisões antes da hora poderiam ser usadas por Putin como um pretexto para iniciar uma ofensiva.

ReproduçãoReproduçãoBiden toma sorvete em Washington: diplomacia, ameaça de sanções e envio de armas para os ucranianos se defenderem
Além das negociações e da ameaça de sanções, o Ocidente tem demonstrado força. Membros mais antigos da Otan, como Espanha, Dinamarca, Holanda e França, concentraram caças e fragatas em nações próximas da Rússia, como Bulgária e Lituânia. Os Estados Unidos colocaram 8,5 mil soldados de prontidão, prontos para serem enviados caso seja necessário. Mas a aliança só entraria em ação caso um de seus membros fosse atacado, como estabelece o artigo 5º de seu tratado. Se Putin, em um erro de cálculo, invadisse um membro da Otan, a organização seria obrigada a intervir. Seria uma situação semelhante à que desencadeou a I Guerra. Em 1914, as negociações não tiveram frutos porque os países tinham costurado diversas alianças, em que os seus membros se comprometiam a defender uns aos outros. O assassinato do arquiduque austríaco Francisco Fernando, em Sarajevo, capital da Bósnia, obrigou diversos governantes a acionarem suas alianças, até que a guerra se tornou inevitável.

Putin dificilmente cometeria o erro estratégico de avançar sobre um membro da Otan. Mas ele tem o caminho praticamente livre para entrar na Ucrânia, cuja defesa deverá ficar a cargo dos próprios ucranianos. Os países que mais têm se voluntariado a socorrê-los são o Reino Unido e os Estados Unidos. O primeiro-ministro britânico Boris Johnson tem enviado armas e munições em diversos voos para a Ucrânia. Cerca de 2 mil lançadores de mísseis antitanque foram transportados para Kiev, cada um dos quais pode ser acionado por um único soldado. Com eles, viajaram 30 militares de elite, encarregados de treinar colegas ucranianos no manuseio dos equipamentos. Já Biden aprovou um pacote de 200 milhões de dólares em armas para os ucranianos. “Ainda que essas armas não sejam suficientes para deter uma ofensiva russa, elas certamente poderiam retardar bastante um avanço inimigo em território ucraniano”, diz Alexandra Vacroux, diretora-executiva do Centro Davis para Estudo da Rússia e da Eurásia, da Universidade Harvard.

O Reino Unido e os Estados Unidos são também os países que têm empregado uma retórica mais agressiva contra Putin. Ambos pediram para que os familiares de seus diplomatas deixassem Kiev, uma mensagem de que estão realmente aguardando um conflito.Se a Rússia perseguir esse caminho, muitos filhos de mães russas não voltarão para casa”, ameaçou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, na terça-feira, 25. Johnson fala com mais desenvoltura porque, após o Brexit, não precisa se prender às convenções da União Europeia. Ele ainda acusou seus amigos europeus de serem condescendentes com a Rússia. “Um dos grandes problemas que todos enfrentamos ao lidar com a Ucrânia, ao lidar com a Rússia, é a forte dependência de nossos amigos europeus do gás russo”, disse.

Da Casa Branca, Biden tem adotado medidas para estimular seus aliados europeus a serem mais rígidos com Putin. Ele fez um acordo com produtores de petróleo e gás natural de outras regiões para reduzir a dependência dos europeus do gás russo. No dia 31 de janeiro, o americano tem um encontro marcado com o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani. Apesar dos esforços, Biden é diariamente alvejado na televisão americana, especialmente pelo canal Fox News — é acusado de ser fraco com a Rússia. No Congresso, o presidente está sob pressão tanto de senadores democratas como republicanos. Ainda que menos da metade dos americanos esteja prestando atenção ao que acontece na Ucrânia, Biden não pode se dar ao luxo de não fazer nada. Está com aprovação em baixa, na casa de 42%, e com eleições legislativas marcadas para novembro.  Putin já o está enfraquecendo, mesmo sem invadir o país vizinho.

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  1. A RUSSIA ESTÁ IMITANDO A ALEMANHA DE HITLER E OS ALEMÃES ATUAIS ESTÃO AJUDANDO-O NESSA EMPREITADA. OCORRE QUE HITLER (LEIA-SE PUTIN) VAI CHAGAR PARA A ALEMANHA E VAI TOMAR TODOS OS EX-INTEGRANTES DA EXTINTA URSS.

  2. Duda, será que vc seria capaz de aceitar um inimigo seu se mudar para a casa do lado da sua? Alguém que pode disparar uma arma da janela da sua casa em direção à seus familiares? A meu ver a situação da Ucrânia é simples assim. EUA e Inglaterra dando uma de inocentes. Evidente que não sou a favor de QQ ditadura, de direita ou de esquerda,mas a Russia tem razão de se proteger, neste caso. Gostaria de ver os EUA e a Inglaterra peitando o Jinping em relação à Coreia do Norte. Seriam "machos" !!!

    1. Engraçado que a Rússia ser perto da Ucrânia e a Ucrânia não querer viver ali sem um escudo, um seguro de vida da OTAN, não é tido como uma questão de soberania por vc. Parece que a preocupação com essa proximidade só do lado de Moscou é legítima... Detalhe que faço questão de repetir: a Ucrânia é que já sofreu nas mãos dos russos, não o contrário. Logo, faz *todo o sentido* e é absolutamente legítimo os ucranianos quererem um seguro de vida.

  3. Se dependesse do Biden o Bin Laden ainda estaria vivo. A nação com a maior força militar do mundo com um líder fraco e sem noção do que está fazendo. Só resta a ele tomar um sorvete mesmo.

  4. Os EUA teem uma verdadeira obsessão com a Rússia. Antes era com a antiga URSS, que de certa forma provocava uma reação defensiva legítima por parte do ocidente. Com a Rússia atual não é a mesma coisa. O objetivo estratégico dos EUA é o completo cerco, isolamento e a implementação de infinitas dificuldades `a Rússia. Para conseguir isso, a OTAN é o instrumento perfeito. Tudo isso porque a quase falida Rússia inda é a potência bélica nr dois do mundo com suas milhares de ogivas nucleares

    1. O início do fim do mundo está se desenhando nessa (quase) possível 3ª Guerra Mundial. A Rússia não está para brincadeira: veja-se a anexação da península da Crimeia, até então pertencente à Ucrânia! Não vai ser diferente com a Ucrânia.

  5. Enquanto isso não existe dinheiro pra ajudar a população de países miseráveis que estão morrendo de fome. Deus nos perdoe.

  6. Como é praxe a troca de souvenirs em encontros de líderes, nosso especialista em diplomacia paquidérmica em loja de cristais vai levar o quê para Putin, um isqueiro?

  7. BOZO vai se unir com Russia e disponibilizar i Arsenal de “ GUERRA” usado no 7 de setembro . Tanques Movidos à Energia Nuclear. “ Queimando oleo “ Bozo vai declara Guerra contra USA .. NEM LULARAPIO NEM BOZO PSICOPATA

  8. Tive uma idéia: digam ao mini-russo que ele é inteligente, lindo, forte, alto, atlético, desportista, "simpático" e potente, que, ao contrário do que possa parecer, todos os homens do mundo o invejam e q o planeta inteiro sabe disso e... que se ele continuar a tirar a cueca e a pisar nela só de birra com a OTAN, ficará pequeno, burro, feio, fraco, baixo em todos os sentidos, complexado, invejoso, cheio de batatinhas pelo corpo e pela mente, atrasado e "louquinho"... assim exatamente como ele é!

    1. "Aumentar a "área de influência"" e expansionismo são a mesmíssima coisa, não é mesmo???

    2. Ah, sim claro.... digam também que, em breve, ele receberá a ""doce"" visita do 🐥 ameba empalhada broncossauro e que ambos, admirando-se tanto mutuamente, passarão juntos momentos muiiiito felizes!!! Isso deve acalmar um pouco a dupla histeria. Por hora.

    1. Deve ir tratar de contratação de robôs russos para este ano eleitoral.

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