Marcos Oliveira/Agência SenadoA sede da Embratur: para os próximos meses, 100 milhões de reais em conta para gastar

O cabidão da Esplanada

Menos transparente e com mais dinheiro para gastar, a Embratur virou um generoso cabide de empregos para ex-assessores da família Bolsonaro e parentes de autoridades
28.01.22

Há um Paulo Guedes no governo que você provavelmente não conhece. O atirador esportivo Paulo Guedes Landim de Carvalho não é ministro, mas é mais prestigiado pela família Bolsonaro do que seu xará que comanda a pasta da Economia. No caso dele, a amizade com Eduardo Bolsonaro, o filho 03 do presidente, foi fundamental para a sua carreira deslanchar em Brasília. PG, como é chamado pelo amigo, foi alçado da posição de secretário da gabinete na Câmara a assessor da presidência da Embratur, a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo. Há quase dois anos, tem salário de 21 mil reais.

Landim chegou a um dos postos mais bem pagos do órgão vinculado ao Ministério do Turismo, sem qualquer histórico de experiência na área. É apaixonado por pistolas e fuzis, frequenta estandes de tiros na capital e é sócio de uma empresa de saúde. Se lhe falta currículo no trade turístico, sobra afinidade com o 03. Nas redes sociais, ele atua como garoto propaganda da Sig Sauer – fabricante alemã de armas cujas causas costumam ser defendidas bravamente por Eduardo – e é cicerone do deputado em eventos mundo afora. O último deles foi a Shot Show 2022, em Las Vegas, nos Estados Unidos, entre 18 e 21 de janeiro.

PG não é o único favorecido na Embratur por ser próximo do clã Bolsonaro. Crusoé identificou outros seis nomes que mostram como a agência virou um grande cabide de empregos, para abrigar desde amigos e ex-assessores da família presidencial até familiares de integrantes do primeiro escalão do governo.

A professora Maria das Dores Leite Pereira, 59 anos, está acomodada na Embratur graças à relação de confiança de quase três décadas que seu marido mantém com o próprio Jair Bolsonaro. Maria é mulher do tenente Mosart Aragão Pereira, assessor especial e sombra do presidente em compromissos públicos e privados. No passado, foi cunhada de Renato Bolsonaro, irmão de Jair Bolsonaro. Na Embratur, ela é gerente de patrimônio histórico e recebe quase 26 mil reais por mês. O publicitário Floriano Barbosa de Amorim Neto, que trabalhou no gabinete de Eduardo de 2015 a 2019, também foi agraciado com uma função na agência. Ocupa a função de coordenador de promoção internacional, com salário de 18 mil reais.

Depois de 13 anos lotada no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro, Miqueline Sousa Matheus, 40 anos, não foi esquecida pelo chefe: hoje ela é auxiliar administrativa na Embratur, com salário de 3,5 mil reais. Amiga pessoal de Eduardo e de sua mulher, Heloisa Bolsonaro, a jornalista Júlia Zanatta, de Santa Catarina, é desde o ano passado coordenadora da Regional Sul da Embratur, com remuneração de 18,3 mil reais.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisPG, de azul, com o Eduardo Bolsonaro: zero experiência com turismo
Também entra no rol de contemplados com cargos na Embratur a mulher do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas. Há onze meses, Cristiane Ferreira da Silva Freitas coordena o setor de Integridade e Integração e recebe 18 mil reais. Ela se reporta a outra funcionária de sobrenome conhecido no governo: Catiane dos Santos Monteiro Seif, casada com o secretário da Pesca, Jorge Seif. Gerente do setor, Catiane tem salário de 25,7 mil reais. Assim como Tarcísio é benquisto por Bolsonaro, a ponto de ter virado a aposta dele como candidato ao governo de São Paulo, Seif tornou-se uma espécie de filho honorário do presidente. É chamado até de 06, o primeiro número vago na numeração crescente que Bolsonaro dá aos seus rebentos. O secretário se diz “apaixonado” pelo presidente e chegou a beijá-lo em uma live no início do ano passado.

O histórico profissional dos nomes mostra que a qualificação para a função não é o principal critério para as nomeações. PG, o amigão de Eduardo, tem uma trajetória profissional que em nada lembra a missão da Embratur. Além de atirador esportivo, ele é um dos sócios da Prime Medical Serviços Médicos, empresa com sede em em São Paulo que, segundo o registro na Receita, é especializada em “atendimentos ambulatoriais com recursos para realização de procedimentos cirúrgicos”. Até entrar na Embratur, PG era lotado no gabinete do líder do PSL na Câmara, Major Vitor Hugo, um bolsonarista de quatro costados. Foi na condição de assessor no Congresso que ele intermediou um encontro entre o 03 e um representante da fábrica da Sig Sauer no Brasil, em abril de 2019. O plano era facilitar a instalação de uma unidade da empresa no Brasil – atualmente a Sig Sauer tem um escritório em Brasília. Paulo Guedes também foi assessor da liderança do MDB e dos deputados Coronel Armando, do PSL, e Mauro Mariani, do MDB, ambos de Santa Catarina.

Em março de 2021, quando já ocupava o cargo de assessor da presidência da Embratur, ele acompanhou Eduardo em uma visita à sede da Sig Sauer para conhecer modelos de armas. Dizer que PG é garoto-propaganda da marca alemã não é exagero: nas redes sociais da empresa, ele aparece em fotos publicitárias, publicadas também no seu perfil pessoal, onde incentiva os seguidores a comprarem armas da marca. No ano passado, PG também foi com Eduardo a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, onde visitou a Caracal, uma fábrica de armas com sede na cidade. Por lá, gravou vídeos do 03 em um estande de tiro.

Foi também por integrar a rede de amigos do 03 que a jornalista e advogada Júlia Zanatta, que pretende se candidatar a deputada nas próximas eleições, conseguiu um cargo de chefia na Embratur. Seu currículo não menciona qualquer experiência na área de turismo. Bolsonarista de carteirinha, Júlia conheceu o filho do presidente na época em que namorava o dono de uma escola de tiro de Santa Catarina. O relacionamento terminou, mas o laço com o deputado se fortaleceu. Ela chegou a ser convidada para o casamento de Eduardo com Heloísa, em maio de 2019. No ano seguinte, passou o carnaval com o casal e, no ano seguinte, quando Jair Bolsonaro visitou São Francisco do Sul, no litoral catarinense, confraternizou com a família presidencial. A nomeação saiu logo depois. Depois de ser levada por Eduardo para um café da manhã com o presidente em Brasília, Júlia anunciou que passaria a chefiar a Embratur nos três estados do sul do país. A Crusoé, ela admitiu que a proximidade com Eduardo facilitou.

“Não vejo nada de errado nisso. Tenho doze anos de experiência de comunicação em órgãos públicos e sou formada em Direito, não tenho formação na área do turismo especificamente. Mas meu cargo é muito mais uma articulação com os órgãos municipais e estaduais. A Embratur não implementa políticas públicas de turismo, e a minha formação na área de comunicação tem tudo a ver com a atividade-fim da Embratur, que é promoção e marketing do turismo no Brasil e no exterior”, disse ela. “Não entendo qual questionamento de eu ser próxima do filho do presidente para uma indicação. É a primeira vez que eu vejo um governo ser proibido de ser próximo da família do presidente e ter um cargo. Em todos os governos, isso acontece”, emendou.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisCatiane Seif é mulher do secretário da Pesca
Entre os outros apadrinhados dos Bolsonaro na Embratur, três já ocuparam cargos nos gabinetes de Eduardo ou do próprio Jair Bolsonaro. O publicitário Floriano Barbosa de Amorim Neto foi assessor de Eduardo por quatro anos. Nas semanas iniciais do governo, em 2019, foi o primeiro nome a ocupar o posto de Secretário Especial de Comunicação Social, antecedendo Fabio Wajngarten. Trabalhou na criação da logomarca “Pátria Amada Brasil”, slogan da gestão Bolsonaro, mas não passou muito tempo na função. Após ser alvo de críticas internas, acabou exonerado. Mas logo passou a ocupar o cargo de coordenação na Embratur.

Maria das Dores Pereira, a mulher do tenente Mosart, prestou duas décadas de serviços à família presidencial. Primeiro, trabalhou no gabinete de Bolsonaro, entre 2000 e 2015, e depois assessorou Eduardo, entre 2015 e 2019. Antes de ser secretária parlamentar dos Bolsonaro, foi professora da rede estadual de São Paulo. Formada em Letras e com especialização em Geografia, é gerente do centro de documentação e patrimônio histórico da Embratur. Miqueline Matheus cumpriu roteiro parecido. Da Câmara, onde era lotada como assessora de Jair Bolsonaro, foi direto para a Embratur. Miqueline é casada com outro auxiliar direto do presidente, Wolmar Villar Junior, que também tem passagens pelos gabinetes parlamentares da família.

O caso da mulher do ministro Tarcísio não é muito diferente no quesito trajetória profissional. Antes de ser contratada na Embratur, ela era sócia de cursos preparatórios para concursos. A chefe dela tampouco tinha relação com o setor. Catiane dos Santos Monteiro Seif havia trabalhado por mais de duas décadas em uma empresa de pescados em Santa Catarina, na área de recursos humanos e administração.

A Embratur nega que autoridades do governo federal tenham influência nas contratações. Em nota, a agência afirmou que todos os contratados mencionados nesta reportagem “atendem aos requisitos necessários para serem contratados para seus devidos cargos”. Floriano Amorim não respondeu ao contato de Crusoé. Paulo Guedes disse que não tem nada a declarar. Os demais funcionários mencionados não foram localizados.

A nova condição da Embratur na estrutura do governo favorece o cabide de empregos para os amigos do poder. Há dois anos, ela deixou de ser uma autarquia e ganhou status de agência, com um expressivo aumento em seu orçamento. Passou a receber dinheiro de contribuições compulsórias que são feitas por empresas para organizações do Sistema S, como o Sesi e o Senai. Ainda que siga vinculada ao governo, sob o comando do Ministério do Turismo – o atual ministro da pasta, o “sanfoneiro” Gilson Machado, era  presidente da agência antes de assumir o cargo –, ela agora tem autonomia para firmar convênios e acordos também com empresas privadas, e não está submetida necessariamente aos mesmos deveres de transparência dos demais órgãos públicos. Para gastar nos próximos meses, há em caixa cerca de 100 milhões de reais. Uma parte dessa cifra, como está cristalino, serve para bancar as boquinhas da corte bolsonarista.

Já é assinante?

Continue sua leitura!

E aproveite o melhor do jornalismo investigativo.

O maior e mais influente site de política do Brasil. Venha para o Jornalismo independente!

Assine a Crusoé

CONFIRA O QUE VOCÊ GANHA ASSINANDO O COMBO

  • 1 ano de acesso à CRUSOÉ com a Edição da Semana: reportagens investigativas aprofundadas, publicadas às sextas-feiras, e Diário, com atualizações de segunda a domingo
  • 1 ano de acesso a O ANTAGONISTA+: a eletrizante cobertura política 24 horas por dia do site MAIS conteúdos exclusivos e SEM PUBLICIDADE
  • Artigos Exclusivos de Diogo Mainardi, Mario Sabino, Ruy Goiaba, Carlos Fernando Lima e equipe
  • Newsletters Exclusivas

Os comentários não representam a opinião do site. A responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos.

500
  1. Este pessoal não brinca em serviço. Estariam praticando a velha e impune rachadinha? Estariam estas barbaridades restritas ao simples desperdício do dinheiro público?

  2. Indago-me quantos desses encostados devolvem parte dos salários ao padrinho. Tendo em conta o histórico de alguns como funcionários do clã e o histórico do mesmo clã em rachadinhas não seria de surpreender

  3. Apaniguamento em Brasília é mato, erva daninha. Bolsonaro não inventou isso, mas certamente aprendeu usar a canetada como os tantos que ele criticava num passado recente.

  4. Acabou a mamata…dos inimigos. Amigos acima de tudo. Bolsonaroa acima de todos. Roubo do nosso dinheiro sem cerimônia.

  5. Triste é ter um tipo de notícia dessa reservada apenas para assinantes da Crusoé. É preciso fazer mais barulho para mostrarmos a todos a falta de vergonha na cara do Bolsonaro e sua prole.

  6. Mais uma prova de que a maioria das empresas estatais ou instituições do mesmo tipo só servem pra cabide de empregos e boquinhas...se acabar com essa fonte não fará a menor falta para os que suam pra pagar a conta dessas sinecuras.

    1. O problema Júlio é nos livramos dessa corja, e cair nas mãos de outra, portanto vamos eleger Moro. Sergio Moro 2022 Prá nós livramos das corjas.

  7. Esse governo inapto está tentando aparelhar toda a máquina pública e privada a seu favor, e eu não fazia idéia de que existiam nessa país nazista acéfalos favoráveis a um clã genocida e corrupto.

  8. Foi eleito para fazer diferente. Para escantear o centrão, para combater a corrução, para fazer o país melhor, liberar a economia. O que fez foi trazer o lula de volta!

    1. Verdade! Além de inapto ainda conseguiu trazer o Lula de volta... surreal.

  9. Uma grande vergonha, especialmente para o eleitorado paulista, que elegeu o 03 Eduardo Bolsonaro deputado federal… além de não ter jamais morado em SP, ainda protagoniza esses abusos de poder! Acorda, São Paulo!

  10. É o cúmulo dos cúmulos, a farra extraordinária com o dinheiro do povo brasileiro.Desrespeito total com o contribuinte. E eles tem a cara de pau,de dizer que não tem onde cortar despesas.

  11. Eis o jeito de sempre governar dos bolsonaros, nada inspirado na velha politica onde sempre existiu centrao, corrupcao, nepotismo e o diabo pra encaixar em empregos indicados pelo executivo com salarios de ministros e toda sorte de roubalheiras. Parabens Bolsonaros. Sera que ainda vao achar idiotas pra os reeleger! Esta sim, novissima politica dos MINTOS. NEM PASSADO, NEM PRESENTE, MORO PRESIDENTE.

  12. Depois de 3/4 de governo Bolsonaro, o que temos é mais do mesmo. Às boquinhas que eram de petistas, agora são dos bolsonaristas, não mudando em nada para o contribuinte, que continua pagando os altos salários de indivíduos sem capacidade técnica, para desempenhar a função. Parte dos eleitores são Lula, outra parte, Bolsonaro. Acho que sofrem da Síndrome de Estocolmo. MORO 🇧🇷 X MECANISMO

    1. Pelo menos ele vai tentar fazer a coisa certa. Espero que, eleito, não se ajoelhe perante o Centrão

    2. MORNO, juíz que não conseguiu nem sustentar a prisão do maior corruPTo do Brasil e vc acha que vai mudar alguma coisa.😂😆🤣🐁

  13. Assim como Propaganda Enganosa é considerada CRIME, ESTELIONATO ELEITORAL deveria representar a possibilidade de ANULAÇÃO DE UMA ELEIÇÃO, sobretudo quando o político, depois de eleito, faz o OPOSTO DO QUE SE COMPROMETEU A FAZER.

  14. Quanto maracutaia existe no governo Bolsonaro que nem podemos imaginar, cada governo coloca seus apoiadores não importando a competência.

  15. APARELHAMENTO das INSTITUIÇÕES, RACHADINHAS, CORRUPÇÃO nas VACINAS e MANSÕES para o 01 e 04! BOLSONARO é um DEGENERADO MORAL que IMPEDE o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  16. NOSSO DINHEIRO SENDO TORRADO PARA ENCHER OS BOLSOS DOS AMIGOS DE DUDU BANANINHA .QUADRILHA BOZO ,NÃO DORME EM SERVIÇO

  17. Aquele argumento de que a acabaria a mamata já não cola mais, né? Quê presidente medíocre! Quê país medíocre! Quê povo medíocre!

  18. Quando os funcionários sem concurso tomam conta da empresa Brasil ao bel prazer, os patrões contribuintes são esfolados para pagar as benesses .

Mais notícias
Assine agora
TOPO