AlexandreSoares Silva

Joe Rogan, baixo demais

04.02.22

Nunca falo sobre a pandemia, muito menos sobre vacina, porque gosto de fingir que estou acima de tudo, inclusive da vida e da morte.

E talvez esteja mesmo. Ainda falta confirmar se algum dia eu vou morrer ou não, mas está parecendo que não. Mas eis uns pontos sobre o affair Joe Rogan, le podcasteur, acusado de desinformação e de ser bro demais para a sensibilidade das esquerdas:

– Um entrevistador não informa nem desinforma.
O trabalho do entrevistador é arrancar uma informação de outra pessoa, e essa informação que ele quer arrancar é o que o entrevistado pensa, ou o que ele diz que pensa.
A única maneira de um entrevistador falhar na sua função é se ele distorcer ou inventar o que o entrevistado pensa, ou o que ele diz que pensa.
– Essa seria a única maneira de um entrevistador desinformar o público.
Se o entrevistado diz uma mentira, e o entrevistador extrai dele essa mentira e a entrega para o público, o que o entrevistador entrega até o público é a verdade de que o entrevistado disse essa mentira.
– A entrevista mais controversa do Joe Rogan Experience é com o Dr. Robert Malone. Malone fala em mortes causadas por vacinas, e que Biden pediu para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que mantivesse segredo sobre o sucesso da ivermectina na região de Uttar Pradesh.
– Acredito que ele está errado no que ele fala sobre vacinas, mas o fato que ele fala o que ele fala sobre vacinas permanece correto, assim como o fato de que muita gente à nossa volta acha a mesma coisa. Você preferia não saber disso?
– Em outras palavras, se eu digo que tenho 3 metros de altura, e um entrevistador diz ao público que eu disse que tenho 3 metros de altura, eu menti, ou sou maluco; ele disse a verdade.
– Você a esta altura pode dizer: ah, mas é diferente quando o entrevistador reage ao entrevistado dizendo “Uau, que incrível”, como Rogan às vezes faz, emprestando assim a sua credibilidade a uma desinformação. Ok. Mas quem diabos tem credibilidade em 2022? Você tem que receber qualquer coisa que venha da imprensa em 2022 com suspeita e desconfiança, como se recebesse em casa um pacote do Ted Kaczynski.
– Segundo a revista Rolling Stone, Neil Young disse, em 1985, que preferia não pegar nas suas compras de supermercado se elas tivessem sido manuseadas por atendentes gays (“faggots”), porque tinha medo de pegar Aids desse jeito. Isso não é uma, para usar o termo do dia, desinformação sobre como se espalha uma pandemia? Devem outros músicos se recusar a ficar na Amazon Music, agora que Young saiu do Spotify, horrorizado com a presença de Joe Rogan, e foi para lá? Não soa um pouco bobo?
Podem me chamar de cínico, mas quando olho para os nossos contemporâneos, desde os que vemos nos jornais até aqueles com que interagimos no Twitter, não acredito que ninguém vá se manter fiel a princípio nenhum. Nossas crenças têm a firmeza de um papel puído e se desmancham na chuva, ou diante de uma brisa. São crenças de papel.
Se você foi educado desde o início da juventude para sentir prazer com a exposição a ideias contrárias às suas, aí talvez você tenha uma chance de defender a liberdade de expressão a vida inteira. Os únicos princípios que uma pessoa vai defender com constância ao longo da sua vida são aqueles que a divertem.
Para quem não sente esse prazer, para quem, pelo contrário, o contato com uma ideia oposta é repugnante, a defesa da liberdade de expressão se limita aos seus momentos históricos de fraqueza política. Se estamos fracos politicamente e estamos em uma posição em que não podemos censurar e só podemos ser censurados, somos a favor de liberdade de expressão; se estamos fortes politicamente e podemos censurar, somos contra a liberdade de expressão, sem dizer isso com todas as palavras porque não pega muito bem.
– Toda a geração de Neil Young, Joni Mitchell e David Crosby abandonou a defesa da liberdade de expressão como a Cláudia Ohana abandonando filhotes de cachorro.
– Seis minutos atrás, vi que o Bolsonaro postou um tuíte defendendo Joe Rogan, e considerei que talvez com isso todos os meus argumentos fossem inválidos. Por outro lado, o Príncipe Harry e Meghan Markle ficaram contra, de modo que ficam elas por elas e meus argumentos prevalecem.
– Agora é a Casa Branca, na figura da secretária de imprensa Jen Psaki, que está pressionando o Spotify para se livrar de Joe Rogan, de modo que meus argumentos prevalecem mais ainda.
– Joe Rogan é extremamente baixinho.
– Seu programa dura um pouco demais.

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  1. Excelente ponto de vista. Assisto a entrevistas do Rogan esporadicamente (realmente muito longas). E ele é muito educado, aberto à ideias, inteligente e bem articulado. Tentar calá-lo é uma covardia.

  2. Joe Rogan é ótimo! Os seus milhares- e bota milhares aí-, de telespectadores sabem que seu programa é um bate papo informal, sem compromisso e sem comprovação científica. E é exatamente isso que a gente gosta: a leveza da informação. Se tem ainda idi.otas no mundo que não sabem que se a humanidade chegou até aqui foi graças às vacinas(e antibióticos, e rede de esgoto), paciência. MS

  3. você ignora ou finge ignorar que o apresentador tem a pauta, se ele convida vários entrevistados com o mesmo ponto de vista, ele induz ao ouvinte a achar que aquilo é fato. Esse fato quebra a sua argumentação sobre o apresentador apenas extrair um conteúdo, na verdade, ele selecionou o que queria extrair.

    1. Eu ia dizer exatamente o quê você disse. Ipsis litteris. Não preciso mais. Obrigada.

  4. Acompanho Joe Rogan há vários anos, não concordo com a opinião pessoal dele sobre a vacina, da mesma forma discordo da pressão que estão fazendo sobre ele/spotify, mas convenhamos, receber apoio de Bolsonaro não ajuda ninguém

  5. Argumentos falaciosos. Não há mais fatos, apenas opiniões? Liberdade de se falar mentira tem o mesmo valor da liberdade de se falar verdades? E o pior: está sendo questionada a liberdade em se desligar de uma empresa com a qual você não concorda com a sua política? Todos temos o direito de ser ignorantes e dar opiniões mal informadas. Mas escolher entrevistados para ganhar dinheiro vendendo mentiras nocivas não é ignorância, é no mínimo falta de caráter. Devia ser crime.

  6. “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.” (Fernando Pessoa). De fato, o entrevistador nunca mente quando diz o que o entrevistado falou. É como o livre-arbítrio; ninguém o tem; mas todos fingem ter, fingindo ignorar Ortega e Gasset: “eu sou eu e minhas circunstâncias.”

  7. Politização da pandemia, demonização do tratamento precoce (que funciona, apesar dos idiotas que distorcem os fatos) e o politicamente correto são os males da atualidade

  8. Em que momento fazer jornalismo virou fake news? Em que momento a opinião de dois médicos super prestigiados ameaça a verdade. Tem gente muito burra, perdoem.

  9. Não conheço o Joe Rogan e na hr do rolo dei razão ao Neil Young (estava orgulhosa disso). Ia, inclusive, cancelar (com muita dor no coração) minha assinatura da Spotify. Vem esse texto e minha cabeça ficou toda bagunçada (como se já ñ fosse o suficiente). Muito obrigada! Fora q ainda fiquei com raiva dessa tal frase do Neil Young de 1985! (Ele disse mesmo?) Estou parecendo folha ao vento (e ñ me orgulho disso), mas enquanto eu voo e não chego num lugar, posso curtir meus álbuns no Spotify (😉)..

  10. Penso que os significados de sensacionalismo ou de "produzir espuma" se perdeu ao longo da decadência da formação dos jovens, falência da educação. Lamentável que figuras como Hogan tenham mais audiência que o BBB do B. (tststs...)

  11. 1- O negacionismo virou um negócio lucrativo. Mas devemos tomar cuidado com ele, pois ele tem o poder de derrubar os dois pilares da nossa civilização, a ciência e a democracia. Por que o socialismo e o conservadorismo atacam às ciências? Por que seja a ciência econômica ou a tecnológica, garantem a liberdade ao cidadão. Unabomber é um matemático brilhante e ludista. QI 167. Ele foi identificado e preso, pela análise da frase: "não se pode ter o bolo e continuar a comê-lo".

    1. 3- Ter as benesses da vida em sociedade, sem terem a responsabilidade de abrir mão de nada, em prol do bem-estar de todos 🤔 Com Ciência, Moro 🇧🇷

    2. 2- Ele atacou o progresso no seu Manifesto: "a continuidade do progresso científico resultará na perda da liberdade individual". A colocação do Ted no texto foi acertada. O negacionista quer impor a sua visão de mundo para os demais, supostamente em nome da liberdade. Mas em última análise, eles são portadores de bombas que causam a morte de pessoas. Eles querem comer e ter o bolo.

  12. Neil Young faz músicas agradáveis, devia continuar nessa toada...já entrevistadores vivem de explorar as fraquezas alheias, senão não sobrevivem. Quem tem ações da Spotify deve estar muito p. da vida com essas questões que levam do nada a lugar nenhum. As pessoas devem saber onde amarraram suas montarias (o que não quer dizer que as montarias devem respeitar essa decisão).

  13. À propósito das intervenções de Joe durante a entrevista, acho que os entrevistadores de hoje deixam esse furo o tempo todo! Eles se expõe demais, às vezes até mais do que o próprio entrevistado, como se fossem a estrela do show, quando deveria ser o contrário! A entrevista acaba passando uma impressão tendenciosa, sempre favorável ao entrevistado. Uma tremenda bola fora dos comunicadores de hoje em dia!

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