RuyGoiaba

Quando o Brasil começou a ir para o brejo?

11.02.22

“Em que momento o Peru tinha se ferrado?” A frase está logo no primeiro parágrafo de Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa — que obviamente não usou “ferrado”, e sim uma palavra que não posso publicar nesta revista da família brasileira que é a Crusoé. Volto a ela sempre que as redes sociais, lugar insalubre no qual insisto em perder meu tempo, amplificam o habitual vazamento de chorume do Bananão até torná-lo uma torrente, um tsunami, um dilúvio bíblico de gente sendo extraordinariamente idiota todo dia.

(Abro um parêntese: assim como os argentinos costumam dizer que Carlos Gardel “canta cada vez melhor”, Umberto Eco, morto em 2016, escreve cada vez melhor à medida que os anos passam. Lembro do tanto de gente que reclamou quando, um ano antes de morrer, Eco afirmou que a internet dava o direito à palavra a uma “legião de imbecis” e “promovia o idiota da aldeia a portador da verdade”. O caso de Monark, podcaster e cavalgadura, é apenas o último exemplo de quanto o escritor está cada vez mais certo. Fecha parêntese.)

Enfim: quando o Brasil começou a ir para o brejo? Não existe resposta simples, e eu tendo a pensar que na verdade nunca saiu dele — como escreveu Claude Lévi-Strauss em Tristes Trópicos (atribuindo a frase a um “espírito malicioso”), fomos da barbárie à decadência sem nunca ter passado pela civilização. O Bananão, afinal, foi construído por cima de um cemitério indígena, e todo mundo que já assistiu a algum western sabe que isso dá um azar danado. Somos habitantes de uma piada de português hipertrofiada, que virou país com bandeira e tudo.

Mas há outras hipóteses interessantes. Por exemplo: o Brasil se lascou em 2012, no exato instante em que Diego Souza, então no Vasco, perdeu aquele gol cara a cara com o goleiro Cássio — o que, ao fim e ao cabo, permitiu que o Corinthians ganhasse uma Libertadores e tivesse um estádio para chamar de seu, alterando para sempre a ordem natural das coisas e gerando as consequências trágicas que conhecemos. Mais uma, levantada por meu ex-editor Edson Aran, jornalista e cartunista: o Bananão se ferrou antes, a partir de 2009, quando Geisy Arruda foi expulsa da Uniban por causa de suas “roupas ousadas”. “Começa com surto puritano e acaba elegendo fascista. Não falha nunca”, escreveu o Aran no Twitter. E eu acrescento que, hoje, existem tanto puritanismo histérico como fascismo nas duas pontas da ferradura ideológica: ninguém resumiu nossa época melhor do que Philip Roth quando cunhou a expressão “êxtase da santimônia”.

Perguntar em que momento o Brasil se afundou na lama é mais ou menos como tentar localizar a porta do labirinto — se houve entrada, tem que haver saída, e é só seguir o fio de Ariadne que a gente chega lá. Meu palpite é que o país continuará, como sempre, se enrolando no fio e/ou tropeçando nele e sendo regularmente comido pelo Minotauro (o animal mitológico, não o lutador do UFC). A única coisa que me consola é que um lugar que produz um juiz de futebol chamado ALESTER CLAULI da Costa Tambelli — existe de verdade, podem googlar — não pode ser de todo ruim. Torço para que o Aleister Crowley brazuca apite uma partida dizendo aos jogadores “faze o que tu queres, pois é tudo da lei”: o Brasilzão foi feito mesmo para acabar em alguma música do Raul Seixas.

***

A GOIABICE DA SEMANA

Toda vez que você, brasileiro, se sentir deprimido ao olhar para o nosso Congresso e se irritar com aquele monte de gente que não passaria ilesa pelo mata-burro, pense que os EUA passaram por quase 250 anos de democracia para chegar a Marjorie Taylor Greene, deputada notória por promover a teoria conspiratória QAnon. Muito brava com Nancy Pelosi, a presidente da Câmara, Greene tentou dizer que a democrata tinha uma “Gestapo police” às suas ordens — e saiu “gazpacho police”. Sim, a republicana teve as manhas de confundir a polícia secreta do nazismo com a sopa de tomate servida fria na Espanha. Como já disseram por aí, vivemos a época do triunfo dos Burros sem Fronteiras.

Marjorie Taylor Greene e sua mente brilhante alertam para o perigo da sopa fria

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  1. Deixei de ler esta coluna pseudo-humorística faz tempo porque sinto ojeriza por pessoas pedantes. Mas um conhecido convidou-me a ler a coluna desta semana, particularmente carregada de grosserias. De fato o autor não se furtou a fazer o que faz de melhor: disparar coices‼️ Logo, concluo que o autor volta às redes sociais porque talvez lá ele se sinta em casa, bem confortável em meio ao que o próprio definiu como “lugar insalubre”, ideal para “gente extraordinariamente idiota”. Vade retro…

    1. Puxa vida, deve ser frustrante vir a esta revista semanal e ninguém dar a menor pelota para as bizarrices que escreveu. Aliás ninguém não, teve o asno aqui. Volte pro Twitter.

  2. Goiaba, tenho uma edição antiga do livro, onde Vargas Lhosa reclama que não é "da Catedral" e sim DO Catedral, um local onde costumava se reunir. Que Mario Sabino esclareça, ou então, Diogo Mainardi, os mestres em literatura.

  3. Na introdução do Manual do Perfeito Idiota Latino, Vargas Llosa nos adverte de que o manual tem textos engraçados, mas ao final nos deixa tristes. Assim costumam ser os textos do Ruy. Neste o costume permaneceu incólume. Que país triste é este nosso. Risível, mas triste. Que não se entenda mal, a crítica é feita a nós. Não ao Ruy.

  4. "Alester Clauli"? Qual mãe, em sã consciência, renderia homenagens a Aleister Crowley, ainda mais cunhando essa versão parvo-brasileira do nome para seu filho? É impressionante com dois "ss", viu, ex-ministro da Educação?

  5. O Brasil nunca se ferrou mesmo, e essa é nossa maior desgraça. O meio certo embuti automaticamente o meio errado. O jeitinho brasileiro acaba sempre achando uma saída, para não corrigir definitivamente nada. Nossa sina parece ser o país do futuro, com um presente sempre duvidoso, onde nem o passado é conhecido. Inventamos o descondenamento de crimes realmente cometidos. Somos imperdoáveis.

  6. De tanto os deputados e senadores viajarem para os Estados Unidos por conta dos contribuintes, o Brasil transferiu a expertise dos políticos brasileiros

    1. Talvez, fique mais palatável, "são uma turma de imbecis".

    2. Comentário desse nível demonstra que o autor não deve gostar de si mesmo e tenta descontar nos outros - pobre coitado.... .

    3. Soa estranho, mas ele acertou ao menos no português, Vera. 😉

    4. "são uma turma de imbecil". Entendi

  7. É..... Triste realidade!!! Gerações perdidas com essa falta de estudo e de crítica da população que produz "Mitos" e "Padim Pa'de Cícero" que levam até a nossa roupa de baixo sem cerimônia, condenando gerações a miséria!!!

  8. Pra arriscar um palpite: talvez tenha sido no momento em que os portugueses inflaram a frota do Pedro Álvares com 13 navios pra "descobrir" o Bananão, 10 barcos a mais que a frota do Colombo que foi "descobrir" a América...

    1. E com a TORRE DE PIZZA que encantou nosso ilustre presidente, na Italia…

  9. será que o estádio realmente é do Corinthians. Me parece, como do atlético Paranaense a maioria do dinheiro saiu dos cofres públicos. portanto ambos os estádios são da sociedade.

    1. Beto Richa foi um dos políticos que "ajudou" a construir a Arena da Baixada (Estádio do Athético). Os paranaenses sabem bem quanto custou aquele belo estádio.

    2. "Sociedade brasileira" é uma expressão que não tem sentido. Nós somos uma aglomeração de pessoas que nasceram no bananão.

    3. Então, enquanto sua casa, financiada pela Caixa, não for totalmente paga, ela também é "da sociedade"?

  10. No inicio dos anos 70, fazia o Ginasio em escola publica de cidadezinha do interior de SP. Tinhamos Ingles, Frances e Musica no curriculo. O brejo foi depois disso…

    1. Francisco, não tive Latim ou Etica. Artes Industriais e Educação Moral e Civica. Bem lembrado…

    2. ah Manoel amb9s esquecemos do Latim com suas sagradas declinaçōes.

    3. bom tempo Manoel eu estudei no ginásio Artes, Ética e creia Civilidade .. mas sou zangado que só.

  11. Como foi bom ler esta coluna e ter um pouco de ar. A burrice é mundial, e como os gafanhotos, uma hora estão mais concentrados em lugar do que em outro, mas estão sempre em algum lugar.

  12. simples ... quando Figueiredo de saco cheio de forma atabalhoada e ilegal deixou Ulysses Guimarães passar a faixa presidencial a Sarney que não poderia assumir tendo em vista que o eleito era Tancredo e não assumiram antes da morte ASSIM quem deveria assumir era Ulysses que teria de promover eleições diretas em 90 dias que amarelou ... infelizmente somos o país dos omissos e da covardia política .. este um erro fatal imperdoável e é a raiz que fez do Brasil o lixo que é hoje.

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