ReproduçãoTeste com o míssil hipersônico russo

A carta atômica

Os mísseis hipersônicos e as armas estratégicas com as quais Vladimir Putin ameaça o Ocidente
24.02.22

Quando o mundo ainda acordava para viver o pesadelo da invasão da Ucrânia, na quinta, 24, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, já adotava a intimidação como tática. Seu principal alvo, os países ocidentais. Em comunicado no site do Kremlin, escreveu: “Quanto aos assuntos militares, mesmo após a dissolução da União Soviética, URSS, e a perda de uma parte considerável de suas capacidades, a Rússia de hoje continua sendo um dos estados nucleares mais poderosos. Além disso, tem certa vantagem em várias armas de ponta. Nesse contexto, não deve haver dúvidas para ninguém de que qualquer potencial agressor enfrentará a derrota e consequências nefastas“.

Não foi a primeira vez que o presidente russo ameaçou usar seu arsenal nuclear, o maior do mundo, com 5.977 ogivas. Após invadir a península da Crimeia, também na Ucrânia, o Putin já tinha lançado mão da mesma carta, na tentativa de amedrontar inimigos. Desta vez, porém, o medo de que armas nucleares sejam usadas é maior, uma vez que Putin parece ficar cada dia mais disposto a assumir riscos. Em seus depósitos, ele conta com cerca de 2 mil armas nucleares táticas, que poderiam ser usadas para destruir alvos menores, como pontes e aeroportos. Além disso, a Rússia também tem desenvolvido mísseis hipersônicos, que voam a alturas mais baixas que os mísseis balísticos e podem alcançar velocidades muito superiores.

A Rússia, aliás, tem feito questão de ostentar seu inventário. Quatro dias antes de iniciar os ataques à Ucrânia, Putin foi para Belarus acompanhar o último teste com os armamentos de seu país. Nunca foram lançados tantos modelos em uma única manobra. Os mais avançados são os mísseis hipersônicos, justamente, que podem ser lançados de veículos terrestres, fragatas, aviões ou submarinos e voar a até 11 mil quilômetros por hora, nove vezes a velocidade do som. Ao contrário dos mísseis balísticos, que perfazem uma trajetória parabólica previsível, como um arco, os hipersônicos voam numa reta e podem mudar de direção, o que os tornam mais difíceis de serem interceptados.

De todos os mísseis hipersônicos existentes, incluindo os da China e Estados Unidos, os da Rússia parecem ser os mais velozes”, afirma Alcides Peron, professor de Geopolítica e Relações Internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, a Fecap. “Esses mísseis não conseguem ser facilmente interceptados, nem pelos flares lançados por aviões que se guiam por temperatura, nem por baterias antiaéreas. São por isso mais letais, capazes de atingir um alvo de maneira mais rápida e precisa.”

Museum da Bomba Atômica em NagasakiMuseum da Bomba Atômica em NagasakiExplosão nuclear na cidade japonesa de Nagasaki, em 1945
Um dos produtos militares mais celebrados pelo governo russo é o míssil hipersônico 3M22 Tsirkon, ou Zircão, em português, que começou a ser projetado em 2012. Desde 2020 até o último sábado, foi testado ao menos nove vezes. Em outubro passado, pela primeira vez, foi lançado de um submarino no Ártico. Capaz de atingir uma altitude de 28 quilômetros, pode alcançar alvos próximos em cinco minutos. Desenhado para afundar navios inimigos, também pode carregar ogivas nucleares.

Em 2018, Putin já tinha anunciado um conjunto de armas que chamou de “invencíveis”. Além do Zircão, exibiu os lançadores 9K720 Iskander, de curto alcance, e os Kh-47M2 Kinzhal, que são lançados de caças e podem atingir alvos a 2000 quilômetros e ter sua rota alterada em tempo real. O presidente russo também exibiu o míssil intercontinental nuclear Iars e o temido sistema Avanguard, que pode lançar uma bomba atômica em qualquer ponto do planeta em meia hora.

Resta saber se Putin, absorto em seus devaneios, acha que poderia se sagrar vitorioso em um conflito atômico. Para especialistas, a possibilidade de uso desse arsenal é remota. “São armamentos de ordem estratégica, feitos para não serem usados, para manter uma política de controle e equilíbrio de poder entre as potências mundiais”, afirma Peron. Para Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing, seria mais injustificável ainda a utilização de mísseis hipersônicos nos ataques contra a Ucrânia. “Do ponto de vista do poder militar da Ucrânia, que em parte já não existe mais, a Rússia não precisaria usar esse tipo de míssil lá. Seria um dispêndio muito grande e desnecessário.”

Desde as explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki, que conseguiram obter a rendição japonesa na Segunda Guerra, em 1945, armas nucleares não têm sido usadas em guerras, mas apenas para efeito de dissuasão. Na Guerra Fria, surgiu o conceito da “destruição mútua assegurada”. Por esse conceito, se uma potência iniciasse um ataque nuclear contra outra, ambas seriam destruídas. A guerra, então, não teria nenhum ganhador.

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  1. O grande exercito russo de Putin quase nem consegue vencer na Ucrânia. Daqui a pouco ele se não se cuidar vai se cobrir de ridículo. O pior e´que isto vai torna lo mais perigoso. Em dialeto mantovano (Mantova Italia) putin e´criança Infelizmente Putin e´uma criança perigosa.

  2. Por pior que sejam as atitudes agressivas do Putin, o Ocidente calculou mal sua ameaça e sua frieza. Tentaram encurralar o cara com adesão da Ucrânia na OTAN. Se deram mal. Agora os "líderes" do Ocidente precisam é de adotar o "pragmatismo responsável" e parar de tratar internacionalmente o Putin como um chefe mafioso - que ele é mesmo. Mas as economias globais são interdependentes e não toleram mais guerras, pior ainda se for nuclear. Então, todos têm que ceder e rever posições em prol da paz

  3. Resta saber se Putin está no seu juízo perfeito, se não ficou louco durante sua gestão de 22 anos no poder. As suas atitudes agora são incoerentes com suas entrevistas no início do mandato, quando após um atentado chechênio, ele comentou que os jovens deveriam se aproximar da cultura, assistir balet, ir ao teatro. Comparando com outro ditador histórico, que enlouqueceu durante a sua gestão, Adolf Hitler estava visivelmente perturbado ao final da Segunda Guerra, Putin se mantém estável.

  4. Não creio que os americanos estejam muito preocupados com os mísseis hipersônicos de Putin. Para cada arma estratégica de um o outro tem uma defesa estratégica, como as armas de laser testadas para defesa dos porta aviões, ou, o novíssimo escudo eletromagnético do tipo tesla, originalmente projetado para impedir choque de meteoro com a terra, que deve estar equipando os porta aviões nucleares da classe Gerald Ford, capaz de impedir mísseis hipersônicos de acertar o alvo, destruindo-os antes.

    1. Meus Deus, só de explodirem aonde quer que seja, já é o suficiente para contaminar todo o planeta. Isso seria o The END para a humanidade.

  5. É uma questão bem delicada, mas tem solução, se não tivesse, Putin, em sua busca insana e ridícula por mais poder, já teria destruído e invadido todos os países q o interessam! Falta união, estratégia e coragem dos " líderes " mundiais, na minha insignificante e totalmente desnecessária opinião...

  6. Como fazer para parar Putin ? Acredito que o próprio povo russo irá derrubado, ninguém vive ma9s sem cartão de crédito, internet e viagem.

  7. Bolsonaro não conseguiu a paz. Em compensação a Dilma estava certa. Numa guerra nuclear nem quem ganhar vai ganhar , nem quem perder vai perder. Todo mundo vai perder.

  8. O planeta não tem problemas com a fome de milhões, enfermos sem assistência e desabrigados refugiados então aparecem esses soldadinhos de chumbo para provocarem guerras. A estupidez é ilimitada.

  9. A hipocrisia ocidental. sabe quem até hoje atacou uma nação com armas nucleares... Não foram os orientais.

    1. Por acaso você sabe porque foram usadas duas vezes as bombas atômicas no Japão de 1945?

    2. Por acaso você sabe porque foram usadas duas vezes, as bombas atómicas no Japão de 1945?

    3. Antonio Miguel da Silva, vc já ouviu falar e Pearl Arbur?

  10. Analisando de uma forma fria, a Ucrânia errou quando entregou suas armas atômicas em troca da sua independência da URSS, mais recentemente errou quando uma revolução destituiu o presidente Viktor Yanukovych, que era pró-Rússia e atualmente está exilado na Rússia. Desta forma, o melhor para Ucrânia teria sido se manter neutro em relação à Rússia e a OTAN, mas é muito fácil fazer essa análise agora, não é mesmo? Os países da OTAN se entrarem na guerra será o início da 3ª Guerra Mundial.

    1. O ELVIO deve estar cansado de viver. Se a OTAN intervir nessa guerra, significa a 3ª e última Guerra Mundial, o extermínio da humanidade.

    2. A OTAN tem obrigação de se posicionar a favor da UCRÂNIA e não permitir que seja massacrada. Se não fizer isso, pode cancelar seus estatutos e finalizar suas atividade. E o poderoso TIO SAM, arregou

  11. O nosso planeta não conseguiria suportar explosões atômicas.Seria um verdadeiro Apocalipse. Putin é um ditador comunista imperialista.Os argumentos da OTAN...ONU não vão tirar Putin do caminho já traçado por ele.

  12. Há indícios de que Moscou tenha arma de onda escalar, conceito proposto por Tesla como alternativa à bomba atômica durante a segunda guerra.

  13. Imprecisões do artigo: As armas nucleares de pequeno poder destrutivo são chamadas de táticas, não estratégicas. Se um míssil Avanguard fosse capaz de chegar ao ponto mais distante de sua base em meia hora teria que percorrer aproximadamente 20.000 km , ou seja desenvolver 40.000 km/h.

    1. Também notei tal imprecisão: o general Douglas MacArthur pediu ao presidente Harry Truman para usar 60 Bombas Nucleares Táticas contra a China na Guerra da Coreia. ... Truman o destituiu do comando dizendo: ' para terminar uma guerra não iniciaremos a III Guerra Mundial.'

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