Divulgação"Apesar de toda a retórica empolada de que todo voto importa, as pessoas sabem que o voto delas não tem a menor chance de decidir qualquer coisa"

O cético do voto

Desiludido com a democracia, o polêmico economista americano Bryan Caplan avalia que eleição é uma desgraça, diz que os candidatos calibram o discurso com base na emoção do público e que para vencer basta ter a melhor narrativa, o que acaba favorecendo corruptos bons de lábia
24.02.22

O economista americano Bryan Caplan, de 50 anos, é um desencantado com a democracia. Em seu polêmico livro O Mito do Eleitor Racional, publicado em 2007, o professor da Universidade George Mason, no estado americano da Virgínia, sustenta que a realidade mostra que, muitas vezes, a democracia promove medidas maléficas para a maior parte da população. “Em teoria, a democracia é uma barreira contra políticas prejudiciais para a sociedade, mas, na prática, ela é um porto seguro para elas”, escreve ele.

A explicação que Caplan dá para esse paradoxo é que os eleitores se informam muito mal sobre política, porque, segundo ele, acreditam que o voto deles fará pouca diferença no resultado. “É comum que os candidatos disponibilizem muita informação na internet, mas poucos são os indivíduos que vão atrás para saber o que eles falam sobre os dez temais principais”, diz.

Nesta entrevista a Crusoé, em que cunha frases como “eleição é uma desgraça” e “o voto é simbólico”, o economista explica como o eleitor costuma decidir em quem votar e conta qual é o peso da ficha corrida dos candidatos nesse processo. Em relação ao Brasil, ele não acha que a honestidade seja uma característica valorizada pelos eleitores.Qualquer um que chegue ao poder em um país corrupto como o Brasil e seja bom em rebater acusações terá sucesso. Por outro lado, alguém totalmente limpo não chegará a lugar algum. As pessoas não deixarão um santo conquistar alguma coisa”, diz CaplanEis a entrevista:

 

Os pré-candidatos às eleições presidenciais brasileiras de outubro já começaram a divulgar suas propostas. O público presta atenção nos projetos para o país?
As pessoas gastam pouco tempo ouvindo o que os políticos falam, e isso pode ser percebido em vários países. O que os políticos estão tentando, na verdade, é dizer coisas que possam empurrar os eleitores um pouco mais para o seu lado. Mas ninguém acha que, se falar uma palavra mágica, 100% dos cidadãos votarão nele. O objetivo dos políticos é saber o que dizer para conseguir que 1% da população o veja com bons olhos.

O sr. não acredita em reviravoltas nas campanhas?
Os políticos, especialmente nos países ricos, têm times de especialistas que o tempo todo fazem pesquisas e análises qualitativas com grupos de pessoas. Eles monitoram o que os eleitores pensam e orientam os políticos quando é hora de mudar o discurso. Um exemplo é a forma como os americanos veem a obrigatoriedade da máscara, o que já levou muitos políticos a atualizarem suas opiniões sobre essas regras. Mas, normalmente, o perfil dos eleitores não muda muito de um ano para o outro. Reviravoltas são raras e normalmente acontecem quando há fatos importantes, como o atentado de 11 de setembro de 2001. Depois do ataque terrorista, americanos que nunca tinham ouvido falar do Afeganistão passaram a apoiar uma guerra na Ásia Central. Nesses casos esporádicos, os eleitores podem dar mais importância às eleições, mas essa não é a regra.

ReproduçãoReprodução“O objetivo dos políticos é saber o que dizer para conseguir que 1% da população o veja com bons olhos”
Por que o sr. acredita que as pessoas não se informam tanto sobre política?
Porque esse é o estado natural das coisas. Ninguém precisa saber muito de Física. Então, basta não estudar o assunto que não se fica sabendo dele. É claro que, em um país como o Brasil, é impossível não saber quando há uma eleição. Nos Estados Unidos também é assim. É impossível ignorar esse evento porque há sempre muita propaganda espalhada pela cidade. Alguém que queira manter-se alheio ao que acontece teria de ficar preso em casa. Mas, fora isso, não seria necessário fazer muito mais para não se inteirar da política.

As propagandas não incentivam as pessoas a buscar mais conhecimento?
As mensagens são muito superficiais, não dão muitos detalhes. Os comerciais da televisão são simplórios. Apenas um número pequeno de cidadãos de fato lê editoriais, artigos ou os programas dos partidos. É comum que os candidatos disponibilizem muita informação na internet, mas poucos são os indivíduos que vão atrás para saber o que eles falam sobre os dez temais principais. Os otimistas ouvem isso e argumentam que é bom que os eleitores não se importem e que os candidatos digam coisas padronizadas. Porém, para mim, isso é um sinal de que todo o sistema está profundamente quebrado, porque os candidatos só repetem as mesmas coisas. Eles não têm argumentos próprios e tampouco tentam persuadir as pessoas que pensam ou discordam deles. Eleição é uma desgraça.

O sr. escreve em seu livro O Mito do Eleitor Racional que as pessoas desistem de votar porque acreditam que um voto não muda o resultado.
Isso é o cerne de tudo. Apesar de toda a retórica empolada de que todo voto importa, as pessoas sabem que o voto delas não tem a menor chance de decidir qualquer coisa. A chance de isso ocorrer é zero. Agora, imagine uma situação em que as pessoas teriam de pagar para votar. Todo mundo se escandalizaria com essa cobrança, dizendo que seria algo terrível. Mas é claro que todo mundo sabe que o voto não importa muito. Compare a diferença de reação quando alguém se esquece de votar ou quando fecha a porta do carro com a chave dentro. Quem esquece a chave fica desesperado, porque perderá várias horas do dia resolvendo isso e terá de ligar para a esposa ou o marido. Quando alguém se esquece de votar, pode comentar que é uma vergonha, mas vai seguir a vida normalmente. Votar é algo totalmente simbólico, e as pessoas sabem disso.

Em geral, como os eleitores escolhem seus candidatos?
Normalmente, nas democracias evoluídas, há um alto nível de identificação partidária. Os indivíduos geralmente preferem uma ou outra sigla. Nos Estados Unidos, as pessoas tendem a gostar do Partido Republicano ou do Partido Democrata. Um terço diz que é independente, mas, quando olhamos como eles votam, percebemos que os independentes de verdade são muito raros, cerca de 10%. Muitos dizem que não se registraram em um partido, mas votam sempre no mesmo. Às vezes, as pessoas, por razões estranhas, não querem dizer que se identificam com um grupo, apesar de fazerem parte dele. É como alguém dizer que não é católico, mas ir à missa.

DivulgaçãoDivulgação“Poucos são os indivíduos que vão atrás para saber o que os candidatos falam sobre os dez temais principais”
O sr. diz também em seu livro que muitas pessoas votam contra os seus próprios interesses. Não é contraditório?
Elas decidem com base no que acham ser o melhor para o país. Mas é muito difícil saber o que beneficiaria o maior número de gente, porque para isso seria necessário processar uma quantidade gigantesca de informação. Além disso, um deputado nunca vai dizer que sua posição só favorece 20% da população, mas que mesmo assim seria bom que todos votassem nele. Um político sempre vai declarar que sua ideia é boa para todos. De certa forma, isso é fingimento, porque eles apenas estão aparentando que se importam com todo mundo, mas ao final vão tirar dinheiro de uns para dar a outros. Tudo é muito confuso. Nos Estados Unidos, a ideia de que as pessoas buscam o melhor para si ao votar faz muitos pensarem que os ricos votam no Partido Republicano, que defende menos impostos, e que os pobres se inclinam pelo Partido Democrata, que fala em distribuição de renda. Mas parece que ocorre exatamente o oposto. Pobres votam nos republicanos e ricos, nos democratas. Eu não ficaria surpreso se esse fosse também o quadro no Brasil.

Como explicar então que todo mundo tenha opinião sobre política?
As pessoas dão opinião, mesmo sabendo muito pouco sobre o mundo. Elas imaginam e fazem de conta que questões complicadas são fáceis de entender, e usam suas emoções e qualquer dogma que elas ouviram para responder a perguntas e dar declarações. Mas é claro que fazer um diagnóstico preciso da situação não é tão fácil assim. As revoluções geralmente surgem quando ideias simplórias se tornam populares. As pessoas pensam que os ricos prosperam às custas delas, e que se eles forem eliminados o país vai prosperar. Mas a história mostra que, quando isso acontece, o país vai ladeira abaixo. É sempre um desastre.

Quando inflação e desemprego estão em alta, os eleitores se tornam mais racionais e analisam melhor o perfil e as ideias dos candidatos?
O que eles fazem em momentos de crise econômica é querer tirar o governante do seu posto. Mas isso não quer dizer que eles estejam discutindo ideias. Se fosse sempre assim, com as pessoas votando puramente por resultados, acho que a democracia teria um enorme progresso. Seria muito melhor do que isso que temos hoje, em que as pessoas ficam ouvindo políticos falarem coisas estúpidas, calculando sempre a emoção do público. Mas eu não acho que as pessoas em momentos de crise se tornem mais racionais. Muitas vezes, os eleitores entram em pânico e escolhem um louco para comandá-los. O fato de que é melhor trocar um governante em tempos de crise não significa que se deva escolher políticos incompetentes. Veja o que aconteceu no Peru no ano passado. Os cidadãos estavam insatisfeitos com a Covid e elegeram um marxista-leninista (Pedro Castillo). O primeiro passo numa democracia sensata seria excluir imediatamente qualquer candidato que uma vez tenha feito um elogio ao cubano Fidel Castro.

A corrupção é levada em conta na hora de votar?
Os candidatos amam apontar para os seus rivais e dizer que eles são corruptos. O problema é que a percepção das pessoas tem mais a ver com a melhor história que aparece nas notícias, em vez de qualquer medição estatística da corrupção. O caso de alguém que pegou dinheiro de um orfanato para comprar um maço de cigarros para o presidente chamaria muito mais atenção do que o de um corrupto que roubou 50 bilhões de dólares. Então, um país pode ter altos níveis de corrupção, mas não produzir nenhuma história escabrosa. Ou pode ocorrer o contrário, de um governo muito honesto ser prejudicado por uma história terrível.

ReproduçãoReprodução“As revoluções geralmente surgem quando ideias simplórias se tornam populares”
O fascínio das pessoas com certas narrativas é um problema.
Por causa disso, a principal questão em uma eleição não é decidir sobre o melhor candidato, mas quais histórias devem ser levadas em conta. Nesse ponto, as pessoas têm mais chances de acreditar nas histórias ruins do candidato do outro partido, e dificilmente aceitam que o seu próprio candidato tenha cometido um erro. Seria muito melhor se os cidadãos levassem em conta os rankings internacionais de corrupção, feitos por instituições independentes, em vez do que um candidato fala sobre o outro.

Essa mecânica favorece corruptos hábeis em contar histórias para escapar das acusações contra eles?
Claro. Qualquer um que chegue ao poder em um país corrupto como o Brasil e seja bom em rebater acusações terá sucesso. Por outro lado, alguém totalmente limpo não chegará a lugar algum. As pessoas não deixarão um santo conquistar alguma coisa.

Como um país pode reduzir a corrupção?
Normalmente, a melhor maneira de fazer isso é quando a decisão vem do topo, quando o chefe do governo diz que não vai tolerar mais e decide enfrentar o problema. Outra coisa importante é que ele use a lei para punir aliados que cometeram erros, não apenas os seus inimigos. É isso o que gera mais credibilidade. Aí, todos vão entender que não se trata de perseguição partidária, mas de algo baseado em princípios. Numa situação assim, alguém que gasta dez vezes mais o que ganha imediatamente ficaria aflito. 

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  1. Sim, e o remédio para isso chama-se educação: cidadãos mais conscientes e informados estão menos propensos a cair na conversa. Porque será que nossos políticos não melhoram a educação?

  2. Que bela entrevista, porém angustiante. É perceptível que Moro não conseguirá se eleger. Uma pessoa honesta não chega ao Poder, e, se chegar, vão achar um jeito de aniquila-la: por narrativas ou de algum outro modo. No caso de Moro, não querem deixar nem que a candidatura prospere.

    1. Infelizmente isso é vdd: um presidente honesto não serve num pais onde a corrupção está desde sempre encrustrada na política. Está difícil para o Moro.

  3. A pura verdade .. o que sinto em palavras claras e objetivas … Parabéns pela entrevista … já me interessa esse livro !! Preciso saber como devemos fazer para quebrar essa roda viva de mentiras e atraso político

  4. tudo que foi dito é a cara dos políticos brasileiros, prometem mundos e fundos, depois de eleitos dão uma 🍌 pro eleitor otário

  5. só temos uma maneira de acabar com essa falsidade. os partidos terem programas que obrigue os candidatos segui-los a risca, ou então se registra em cartório, se em um certo período de governo não realizar o que foi prometido em campanha não ter sido realizado ele perde o mandato e passa para o vice, que terá as mesmas obrigações.

  6. No caso do Brasil, estamos indo para uma situação muito complicada. Se Lula eleito como o servidor público será punido por corrupção se o chefe maior não foi?

  7. Sim, mas não existe outro regime que permita alternância de poder e que o mandatário seja criticado… E democracia parece ser uma coisa relativamente recente e incomum, se contar toda a história e amplitude da humanidade - talvez daí ter tantos defeitos, pois está ainda em desenvolvimento.

  8. Esse texto e a entrevista com o Prof Bryan Caplan cai como uma luva em nosso país. Veja o sucesso de Lula, um notório corrupto, ladrão, nas pesquisas para para a eleições de 2022.

  9. Lamentavelmente, tenho que concordar com quase tudo que foi dito. O pensamento do economista cai como uma luva na Política e nas eleições brasileiras.

  10. Entrevista interessante. Só não sei o que ele propões no lugar de eleições. Um comitê de notáveis, um sistema de "politburo"?

    1. Perfeito, como fazer alternância quando tudo é inconfiável? fazer investigações e leituras sobre os candidatos mas no poder como governar se não tem maioria no congresso?

  11. Supondo que o entrevistado tenha razão, faltou indicar a alternativa. Quem quizer valorizar seu voto, basta pesquisar o histórico do candidato antes de votar nele ...

  12. Excelente entrevista, estou quase me convencendo em votar no Moro, só fico com uma dúvida: como ele vai fazer para governar com o Centrão?

    1. Não sei. Mas é preciso tentar. O país não pode tolerar Bolsonaro e Lula. É ofensivo e degradante DEMAIS. Eu quero votar em Moro, mas meu voto será naquele que tiver mais condições de vencer em 2T Lula E Bolsonaro. Pode ser Ciro, Doria, Simone, Leite, Vieira, .... Se ao final do 1T passarem as 2 tragédias, voto nulo no 2T.

    1. Basta tirar a obrigatoriedade do voto que os analfabetos estarão cortados automaticamente. Não precisa de carteirinha nem nada, eles mesmos se excluirão pela preguiça de sair de casa para votar: "dá um trabalho!!!!"

  13. Entrevista dispensável. Há uma série de tentativas nos EUA de limitar o direito ao voto. Este é mais um parágrafo nessa narrativa.

    1. KKKKKKKK O MAIS ENGRAÇADO É QUE QUE ESSE SEU COMENTÁRIO SIMPLÓRIO É UM "QUOD ERAT DEMONSTRANDUM" PARA A RESPOSTA DO ENTREVISTADO À OITAVA PERGUNTA.

    1. Ridícula essa limitaçao de tempo que impede pensar. Gera um sistema de reflexao osteotendínea! Imcompatível com Crusoe!

    2. Falou e disse tudo. Ignorância e falta de judiciário invisbiliza qualquer regime político. Os sistemas ppolíticos dos indios do Xingu sao sem dúvida mais funcionais do que o nosso!

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