Reprodução/Defesa UcrâniaUcranianos manobram caminhões russos abandonados por soldados descontentes ou que ficaram sem combustível

O atoleiro de Putin

Com dificuldades para tomar mais cidades da Ucrânia, o presidente russo diz que não pensa em derrubar o governo de Kiev. Ataques a civis prosseguem. União Europeia e Estados Unidos escalam a reação
11.03.22

Duas semanas depois do início da invasão da Ucrânia, as Forças Armadas russas só podem se vangloriar de ter conquistado uma grande cidade, Kherson, ao sul. Mesmo assim, a situação dos soldados de Vladimir Putin não é nada fácil. Moradores fazem protestos diários, empunhando as bandeiras azuis e amarelas de seu país e gritando palavras de ordem pela saída dos invasores.

Até esta quinta-feira, 10, Kiev, a capital ucraniana, continuava resistindo. A coluna de tanques e blindados que partiu da Belarus e chegou a ter 60 quilômetros de comprimento parou no meio do caminho. De início, imaginou-se que os russos estariam aguardando o momento certo de atacar, mas não. A resistência ucraniana não precisou pensar duas vezes para atingir os primeiros da fila, impedindo os que estavam atrás de passar.

Sem pneus apropriados para o lodaçal em que o território ucraniano se transforma após o derretimento da neve, os veículos não se aventuraram fora do asfalto. No enorme congestionamento, os militares ligaram os motores para não passarem frio e acabaram ficando sem combustível. Como veículos que ajudariam no reabastecimento também foram alvejados, seguir em frente com velocidade passou a ser uma missão quase impossível.

A 25 quilômetros dali, em Kiev, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, seguiu fazendo vídeos e mostrando as barricadas erguidas pelos civis. Para elevar o moral dos que aguardavam as tropas russas, uma orquestra tocava Ode à Alegria, de Beethoven, o hino da União Europeia.

Na quarta, 9, o porta-voz do Ministério da Defesa, Igor Konashenkov, admitiu, pela primeira vez, que recrutas russos foram capturados por forças ucranianas. São jovens entre 18 e 20 anos que foram alistados de forma obrigatória. Eles não têm preparo para encarar uma guerra e, até por isso, na Rússia suas famílias já pedem que o governo os leve de volta para casa. O emprego de recrutas na guerra é um indício de que Putin, apesar de ter oito vezes mais soldados que Zelensky, enfrentou dificuldades internas para enviar suas tropas ao front.

Em campo, os jovens militares russos depararam com uma realidade muito diferente daquela que o Kremlin dizia que eles teriam. Acreditavam que seriam calorosamente acolhidos pelos ucranianos. Mas não há registro de uma recepção de boas-vindas sequer. Muito pelo contrário. A vida no front tem sido difícil. Alguns jovens russos foram gravados roubando víveres porque não tinham o que comer. Enganados e famintos, eles ficaram ainda mais ressentidos com seus comandantes incompetentes. Em vários momentos, se viram abandonados em território inóspito.

Ministério de Defesa UcrâniaMinistério de Defesa UcrâniaZelensky comanda a resistência a partir de seu bunker
Os militares russos não demostraram capacidade de comandar tropas em diversos cenários ao mesmo tempo, enquanto os ucranianos foram hábeis em formar grupos pequenos e usar táticas de guerrilha, possivelmente com apoio dos americanos”, diz o cientista político Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing, a ESPM.

Na terça, 8, William Burns, diretor da CIA, a agência de inteligência americana, falou à Câmara dos Deputados, em Washington. Disse acreditar que Putin está “zangado e frustrado” e estimou que entre 2 mil e 4 mil soldados invasores já foram mortos. Oficiais russos, por sua vez, deram declarações tentando relativizar o embaraço – ou se eximir de culpa.

Na quarta, 9, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse que os objetivos da Rússia não incluíam a ocupação da Ucrânia, a destruição de seu estado ou uma troca de regime, o que contradiz as afirmações iniciais de Putin sobre a necessidade de “desnazificar” o país. No dia seguinte, o chanceler Sergey Lavrov afirmou que a Rússia não planeja atacar outras nações.Nós nem atacamos a Ucrânia”, disse ele. Para se referir à guerra, os russos falam apenas em “operação especial”.

Um líder de uma democracia, que é cobrado e precisa prestar contas aos seus cidadãos, jamais iniciaria uma guerra sem ter uma justificativa plausível ou um objetivo definido. Putin só fez isso porque não encontrou resistência dentro de seu governo, entre os políticos ou na sociedade civil, que vive sob intensa repressão. Agora, com as forças russas atoladas na Ucrânia e corpos de militares voltando para suas famílias em sacos plásticos, o risco político para o autocrata de Moscou aumenta exponencialmente. Sua insegurança, contudo, é um perigo para todos os outros. Quando se sentiu acuado, Putin reagiu atirando. Tanto é que agora se especula sobre um possível ataque químico, como ele fez na Síria. “Ele provavelmente dobrará a aposta nos próximos dias”, disse William Burns, o chefe da CIA, em Washington.

Na cidade de Mariupol, ao sul, aviões russos atacaram nesta quarta uma maternidade, um hospital pediátrico e um centro de oftalmologia. Três pessoas morreram, incluindo uma criança, e 17 ficaram feridas. Foi o 24º ataque russo a centros de saúde nas duas semanas de guerra, segundo a Organização Mundial de Saúde, a OMS. Shoppings, lojas e casas de civis também foram alvejados. O número de vítimas foi tão alto que as pessoas tiveram de ser enterradas em valas comuns. O governo ucraniano tentou organizar corredores humanitários para evacuar moradores das áreas atingidas, mas algumas dessas operações foram frustradas por bombas russas.

De seu bunker, Zelensky tem pedido para que a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, determine uma zona de exclusão aérea na Ucrânia. Seria uma maneira de impedir os ataques pelo ar contra alvos civis. Ao mesmo tempo, a Polônia, que historicamente nutre rancor e medo em relação à Rússia, anunciou que enviaria para o campo de batalha caças MiG-29, da era soviética. A  operação teria que contar com a ajuda da Alemanha e dos Estados Unidos. Até por isso, não deu certo.

OTANOTANO secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg: só defesa
As duas iniciativas foram descartadas por vários motivos. Para a Otan criar uma zona de exclusão seria preciso destruir as baterias antiaéreas russas na Ucrânia, o que faria com que a guerra mudasse de patamar – os países da aliança estariam, com isso, entrando de cabeça no conflito, o que poderia detonar a Terceira Guerra Mundial. O envio dos MiG-29 poloneses com auxílio de alemães e americanos teria o mesmo efeito. A ação seria considerada um ato de guerra.

Além da provocação perigosa, as medidas seriam pouco eficientes. Isso porque os ucranianos estão usando os mísseis terra-ar Stinger, que para serem lançados precisam do esforço de um soldado apenas e podem alcançar um avião ou um helicóptero a até 3,5 quilômetros de altura. Com medo desses armamentos, os russos têm usado pouco sua força aérea e recorrido principalmente a ataques de artilharia, lançados desde o solo.

Além dos Stinger, que foram de enorme valia para os talibãs derrubarem helicópteros soviéticos no Afeganistão, americanos e europeus têm fornecido mísseis antitanques Javelin aos ucranianos. Como são armas de defesa, essas remessas não podem ser usadas como pretexto por Moscou para escalar o conflito. Ao menos 23 países europeus já enviaram armas para os ucranianos. Polônia, Eslováquia e Romênia, que fazem fronteira com a Ucrânia, são os principais polos logísticos, de onde partem os comboios com os armamentos.

Também para não dar um argumento a Moscou, a Otan evita avançar nas discussões para incluir a Ucrânia como novo membro. Em outra frente, a União Europeia, um bloco político e econômico sem Forças Armadas próprias, tem buscado dar apoio aos ucranianos. Embaixadores europeus receberam na segunda, 7, pedidos da própria Ucrânia, da Geórgia e da Moldávia para ingressar no bloco.

Por questões burocráticas, a inclusão desses três países, todos da antiga órbita de influência da União Soviética, ainda deve demorar. Pouco antes do início de uma reunião da UE no Palácio de Versalhes, na quinta, 10, alguns dos 27 chefes de governo do bloco disseram que não há como acelerar a entrada de países no grupo. “Não existe um atalho (para entrar na União Europeia)”, disse o primeiro-ministro holandês Mark Rutte. “Eu quero focar no que podemos fazer por Volodymyr Zelensky esta noite e amanhã, e a adesão da Ucrânia é algo para o longo prazo.”

Entre os assuntos que serão discutidos pelos líderes europeus até esta sexta, 11, está a redução da dependência do petróleo e do gás natural da Rússia. A França também gostaria que o grupo tivesse um papel mais ativo na área da defesa, uma vez que a segurança coletiva é feita principalmente pela Otan, liderada pelos americanos. Há, portanto, um forte impulso para repensar a identidade do bloco e reposicioná-lo no mundo. Mais um efeito colateral da guerra de Putin.

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  1. Qualquer tipo de fanatismo leva a isso. Seja bolsonarista, seja lulista, ou morista, palmeirense etc. Incapaz de ver que o altamente beligerante, que deseja ardentemente uma guerra mundial é o Zelensky, provoca e instiga a todos, o tempo todo, até o próprio congresso norte-americano ! Compara com Pearl Harbor, torres gêmeas, Hitler, etc. Sequer cita que 0,5 milhões de pessoas morreram na Etiópia em 2020, sendo 200 mil de fome ! Esquece dos iraquianos, com a "bomba de destruição" em massa, etc.

  2. Parabéns Duda… excelente texto. Muito esclarecedor. Linguagem objetiva e precisa, com informações necessárias para uma boa compreensão da atual situação na Ucrânia.

  3. ex agente da KGB Putin sabia bem qual seria a reação da OTAN um órgão de defesa de elites brancas e só não contava com a fibra do abandonado povo ucraniano a resistir e lutar .. estrategicamente se o Brasil tivesse um líder e não estivesse tão dividido era a nossa chance mas poderemos ficar é bem pior .. aguardemos.

  4. MEU LIVRO “O INROTULÁVEL”. Link de acesso: https://www.amazon.com.br/dp/B09HP2F1QS/ref=cm_sw_r_wa_awdo_PQSA5Z6AXXH2SX16NH87 ..............................................……… BOLSONARO, LULA e PUTIN: os EXEMPLOS EXECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! São DEGENERADOS MORAIS que IMPEDEM o MUNDO de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  5. Já nem leio a matéria inteira. Passo os olhos no parágrafo e penso: quando teremos um livro de ficção do Duda? Ele é tão bom nisso. Sugiro que se inspire no Twitter, onde as fontes são quentes. É lá que leio tudinho, com calma.

  6. Como um bom presidente faz toda a diferença. Zelensky mudou o destino da Ucrânia e do mundo. Que lástima que desde Itamar Franco não temos isto por aqui,só aqueles que desde o primeiro dia de governo pensam na reeleição. Que desserviço sr FHC.

    1. Na verdade nosso governo é muito mais parecido com o da Rússia. Uma máfia pensando apenas nos seus próprios interesses.

    2. A melhor matéria desde muito tempo, sem o viés torto do diegomaismerda...jornalismo puro.

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