Clauber Cleber Caetano/PRRendido ao Centrão e, mesmo assim, sorridente: o governo de Bolsonaro está tomado por apadrinhos da ala fisiológica do Congresso

A vez do Centrão disfarçado

Em meio à profusão de burocratas de segundo escalão alçados nesta semana ao comando de ministérios, o genro de um general palaciano se destaca como ‘eminência parda’ da máquina oficial. Mudanças na Esplanada dão ainda mais força ao Progressistas e ao PL
01.04.22

Quando subiu a rampa do Palácio do Planalto, há pouco mais de três anos, Jair Bolsonaro estabeleceu como uma de suas grandes metas transformar o Ministério da Educação no front de uma “guerra cultural”. Para isso, o presidente da República apinhou uma das pastas mais relevantes da Esplanada de evangélicos e militares, dois nichos fiéis de seu eleitorado. Em 2020, para escapar do impeachment, ele teve que mudar de planos e abriu uma nova alameda na estrutura do MEC, que foi entregue ao Centrão. O grupo faturou o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, a área mais rica e, por isso, mais suscetível a desvios. Com o aparelhamento múltiplo do ministério, a gestão de políticas educacionais fracassou e os estragos no sistema público de ensino do país devem perdurar por décadas. Nada disso seria um problema para Jair Bolsonaro, não fosse a proximidade das eleições. A seis meses do pleito, o presidente teve que enfrentar agora um caso de corrupção no MEC com elementos escandalosos, como cobrança de propina em barras de ouro por pastores-lobistas que tinha trânsito livre no gabinete do ministro.

Para evitar respingos em sua candidatura, Bolsonaro forçou a demissão de Milton Ribeiro do comando da pasta. A saída de Ribeiro, que também é pastor, coincidiu com a grande reforma na Esplanada que Bolsonaro teve de promover para substituir os dez ministros que disputarão as eleições. O troca-troca motivou um novo capítulo na queda de braço que se arrasta há dois anos: a disputa por espaço entre os neoaliados do Centrão e os seguidores tradicionais do presidente. Nessa briga pelo controle do orçamento e por vitrine eleitoral, a ala fisiológica da política levou a melhor – mais uma vez. O presidente escolheu quadros diretamente associados aos partidos de sua base ou figuras com “verniz técnico” que só chegaram ao primeiro escalão graças às bençãos de caciques aliados. No novo jogo de forças, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, o presidente da Câmara, Arthur Lira, ambos do Progressistas, e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mantiveram suas prebendas em troca de apoio e estrutura para consolidar os planos reeleitorais de Bolsonaro.

Para os apoiadores mais fiéis, pouco importam os acordos com corruptos ou as indicações políticas para ministérios estratégicos. Essa fatia do eleitorado votará a favor da reeleição, aconteça o que acontecer. Mas, no segundo lugar das pesquisas de intenção de votos, Jair Bolsonaro precisa ampliar seu público. Nessa missão, reconquistar ex-eleitores arrependidos e garantir o voto de antipetistas são as prioridades. A demissão de Milton Ribeiro faz parte dessa estratégia. Bolsonaro trabalha para recuperar a imagem de intolerante com a corrupção, mesmo que o discurso não tenha nenhuma conexão com a realidade. Na escolha da composição do MEC, esse elemento foi fundamental. A decisão de manter, por ora, o secretário executivo, Victor Godoy Veiga, teve o aval do Centrão, a aprovação da bancada evangélica — e passou pelo compromisso de não interferência nas engrenagens já em funcionamento. O ministério ganha, assim, ares de gestão especializada, com a manutenção dos conchavos.

Agência BrasilAgência BrasilMilton Ribeiro caiu na esteira do escândalo de lobby no ministério, e o interino ganhou a chancela de parlamentares aliados
“O FNDE virou um balcão de negócios consolidado. Quem é mais amigo, quem promete mais barra de ouro ou apoio ao Bolsonaro na reeleição ganha mais. Os processos pouco republicanos já estão instalados, as microcorrupções estão entranhadas lá dentro”, diz Priscila Cruz, presidente da organização Todos pela Educação. “Só haveria chances de alterar esse quadro se o novo ministro assumisse o MEC de porteira fechada e mudasse toda a estrutura, o que não vai acontecer. Todos que tentaram fazer algum trabalho voltado para a educação foram demitidos. Pessoas técnicas e com espírito público não duram ali”, emenda Priscila.

Com a indicação do interino, Bolsonaro contempla os aliados políticos e faz um agrado à bancada evangélica no Congresso, depois da desgastante saída de Ribeiro. “Pelos últimos acontecimentos, a Frente Parlamentar Evangélica não se sentiu confortável na indicação de nenhum nome. Só fizemos questão de que fosse um conservador”, explica o deputado federal Sóstenes Cavalcante, do PL, coordenador da bancada. Victor Godoy é auditor da Controladoria-Geral da União, onde trabalhou por 16 anos, e, mais importante, visto como alguém fiel a Milton Ribeiro.

A estratégia de emplacar nomes técnicos para passar a impressão de mudanças também foi adotada na Petrobras. Na terça-feira, 29, o Ministério das Minas e Energia confirmou a indicação do economista Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, para a presidência da estatal. Pires deve ser aprovado pelo Conselho de Administração da empresa em reunião marcada para 13 de abril. Técnico conhecido no setor de energia, ele tem doutorado em economia industrial e mais de quatro décadas de atuação no segmento. A escolha foi sacramentada a partir da convergência de interesses do economista com lideranças do Centrão. No ano passado, durante a tramitação da privatização da Eletrobras no Congresso, Pires e expoentes da ala fisiológica, como Arthur Lira e o deputado baiano Elmar Nascimento, líder da União Brasil, caminharam juntos.

Alberto Ruy/MInfraAlberto Ruy/MInfraMarcelo Sampaio, genro do general Ramos: tentáculos por todo o governo
Tanto o futuro presidente da Petrobras quanto as lideranças do Centrão se engajaram na aprovação de emendas jabutis que beneficiaram empresários do setor de gás natural. As mudanças na medida provisória, consideradas nocivas aos interesses dos consumidores, acabaram aprovadas pelo Congresso em junho de 2021. Ato contínuo, Lira passou a atacar diuturnamente o general Joaquim Luna e Silva, finalmente derrubado nesta semana. Além de ser alguém que conta com a simpatia do Centrão e de ter também um “verniz técnico”, Adriano Pires preenche outro quesito presente na estratégia eleitoral de Jair Bolsonaro: vender ao eleitor a narrativa de que trava uma guerra contra a alta do preço dos combustíveis.

De volta à Esplanada, afora o MEC, outros dez ministérios estarão sob nova gestão a partir desta sexta-feira, 1º. Com a saída de Tarcísio de Freitas do Ministério da Infraestrutura para disputar o governo de São Paulo, houve uma ofensiva do PL para assumir o comando da pasta. O partido controlou o ministério responsável pelas obras públicas nas gestões Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. A filiação do líder do governo no Senado, Eduardo Gomes, à sigla alimentou a especulação de que a agremiação do mensaleiro Valdemar Costa Neto (e agora também de Jair Bolsonaro) iria faturar o cargo. Aconselhado por Tarcísio, o presidente nomeou o número dois da pasta, o engenheiro Marcelo Sampaio. Discreto e pouco conhecido fora do mundo político, Sampaio é genro do general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, e hoje exerce grande influência na máquina federal, com tentáculos nas pastas mais estratégicas do governo.

O engenheiro representa bem a transmutação do Palácio do Planalto em um reino do Centrão: de nome eminentemente técnico, ele passou ter digitais até mesmo nas negociações do orçamento secreto. O secretário-executivo da Casa Civil, Jonathas Assunção Castro, que comanda a distribuição de recursos das chamadas emendas de relator, é próximo do novo ministro da Infraestrutura, de quem foi contemporâneo no curso de engenharia na Universidade de Brasília. Já o número dois do Ministério da Saúde, Rodrigo Cruz, cresceu na hierarquia da Esplanada graças à proximidade com Sampaio, de quem foi adjunto no Ministério da Infraestrutura. A influência do genro de Ramos também alcança o Ministério das Minas e Energia: Bruno Eustáquio Ferreira Castro de Carvalho, secretário-executivo adjunto, passou no concurso de analista de transporte do Ministério da Economia na mesma turma de Sampaio, de quem ficou bem próximo.

Luis Macedo / Câmara dos DeputadosLuis Macedo / Câmara dos DeputadosAdriano Pires, indicado para a Petrobras, se aproximou de Arthur Lira
Em alguns ministérios, as investidas do Centrão foram rumorosas. O Ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, esteve na mira direta de partidos como o Progressistas de Ciro Nogueira e Arthur Lira. Coube ao ministro-astronauta Marcos Pontes, de saída, bater o pé pela indicação de um nome técnico. Pontes fez circular a informação de que a senadora Daniella Ribeiro, da Paraíba, irmã de outro cacique do Progressistas, o deputado Aguinaldo Ribeiro, estava de olho na vaga. Pontes chegou a dizer que, se tivesse que passar o cargo a um nome sem relação com a área, preferia não se desincompatibilizar. O que despertou o interesse do Centrão na pasta do astronauta foram as cifras bilionárias que envolvem o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT.

O fundo para financiamento de projetos de pesquisa, que conta com um orçamento de mais de 8 bilhões de reais, despertou a cobiça de aliados do presidente Jair Bolsonaro. Para espantar os interessados mais gulosos, Pontes explicou que o fundo tem dinheiro, sim, mas é engessado por regras rígidas de governança e, por isso, não serve a projetos eleitorais. A estratégia deu certo: o posto é um dos poucos que ficaram fora da zona de influência do Centrão. No lugar do astronauta ficou Paulo Alvim, até então um dos secretários do ministério.

No Ministério da Defesa, a troca coincidiu com o aniversário do golpe militar de 1964 e o general Walter Braga Netto, na despedida, aproveitou para marcar seu alinhamento com Jair Bolsonaro, de quem deve ser companheiro de chapa na campanha presidencial. Ele foi substituído pelo general Paulo Sérgio Nogueira, até então comandante do Exército. Para ser vice de Bolsonaro, Braga Netto se filiou ao PL, em mais um sinal eloquente de que, até entre os militares, o Centrão está na moda.

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  1. Esse é o modus operandi do governo desde que estourou o caso Flávio Bolsonaro. Não surpreende nada. É apenas mais um governo que sucatea as estruturas mantidas com dinheiro do nosso bolso pra se sustentar politicamente. É o presente repetindo o passado nesse círculo vicioso impossível de romper.

  2. Os mar ginais aliados saqueadores do 💰público ,sempre atracados no NOSSO 💰.ENQTO MILHARES SEM TETO E SEM COMIDA PERECEM NO PAÍS .DINHEIRO DESVIADO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE PARA AS CUECAS DOS MARGINAIS

    1. Só vejo uma solução: redescobrir o Brasil Ruptura já Estado mínimo Parlamentarismo Privatização total Voto aos 21 anos Fim das bolsas-voto Lei da ficha limpa plena Foro privilegiado restrito Fim dos cargos vitalícios Prisão em segunda instância Fim da estabilidade do funcionalismo Fim das indicações monocráticas de servidores Candidato a qq cargo político acima de 50 anos Perda dos direitos politicos por 2 legislaturas se renunciar Quarentena de 1 ano após fim da legislatura p nova candidatura

    2. Há outra meu caro ... devokcsm este puteiro a Portugal com um bom pedido de desculpas pelos estragos feitos em duzentos anos.

  3. Um tal Willian, é um bom exemplo de ignorante alfabetizado.Ele,ao que parece,até leu a matéria da Helena;mas pergunta se entendeu alguma coisa,cego que está pela idolatria a seu mito Bolsonaro. Que situação!Estamos fritos!

  4. Como vcs dizem, "para além" da sordidez dos fatos e da imagem de vários urubus em volta da carcaça que automaticamente vem à cabeça, fico pensando o qto será difícil convencer o eleitor q se informa por uma rede social... Creio q se lessem essa matéria, pelo menos metade do eleitorado do Bolsonaro o abandonaria, mas é um texto cheio de nomes estranhos, com ligações complicadas e longa (muito bem escrita, por sinal). Espero q seja muito lida, muito compartilhada e q abra os olhos do povo!

    1. Por isso o sucesso da mídia bozo em chamar o Antagonista/Cruzoé de comunista/petista, impedindo que os fiéis os leiam...

    2. Perfeito Juliana! Tb fico pensando... se um bolsonarista lesse "O Antagonista" e Crusoé, a fidelidade ao imbe cilnauro seria outra!

  5. Votar no Bozo ou no lula, é pura ignorância,porque não é só ignorante aqueles que tem pouca escolaridade. São muito mais muito poucos que se beneficiam com a vitória de um dos dois. E são aqueles mais próximos. O resto que eu considero resto de Scheisse, não ganham nada o desprezo e migalhas. Vão continuar sem educação sem saúde e sem emprego como estão atualmente mais ainda assim vão eleger um dos dois. Todo político sabe como atingir a classe pobre e ignorante com a maior cara de pau.

  6. Crusoé cheio de narrativas, são tão bons em investigações porque não acusam governo federal em alguma coisa plausível. O leilão do MORNO já acabou? HIPÓCRITAS

    1. William, 🐂 igui norante continue a lamber o teu minto.

    2. Se qé q os jornalistas digam q Lula e Bolsonaro tem pau pequeno?

  7. MEU LIVRO “O INROTULÁVEL”. Link de acesso: https://www.amazon.com.br/dp/B09HP2F1QS/ref=cm_sw_r_wa_awdo_PQSA5Z6AXXH2SX16NH87 ..............................................… CENTRÃO, RACHADINHAS, CORRUPÇÃO nas VACINAS e MANSÕES para o 01 e 04! BOLSONARO é um DEGENERADO MORAL que IMPEDE o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

    1. Veja Seo Cleto. O moro trocou uma sentença por um carguinho. Isso é feio, muito feito e como fazem as p&utas

  8. A educação é de alta relevância ao Estado e entregá-la a picaretas foi golpe fatal e Bolsonaro paga caro por isto .. pior ganha mais um inimigo que já está sendo usado na suja guerra revolucionária contra o Estado em pandarecos e o povo a claras vistas e que ninguém quer ver esperando o milagre nas urnas que podem nos legar o pior e o definitivo lixo da humanidade com uma nova Venezuela se desenhando a um povo humilde ignorante e de si algoz nas urnas de 2x2 anos .. é o Braziu rimando ao lixo.

    1. A saída é o aeroporto meu caro ... tem mais jeito não o pais morreu esqueceram de crenar e fede como o diabo.

    2. Calma Seo Amauri Vamos ajudar. Qual é a porta da saída?

  9. Fico horrorizada com a falsidade desses evangélicos, que tentam passar a imagem de santo ,mas a prática traduz Corrupção em nome de Deus.E os fiéis concordam com os seus Pastores , sem culpas

    1. Rapaz quem elegemos para combater a Corrupção perdeu a vergonha e descaradamente está fazendo um desmonte na estrutura política nacional

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