Adriano Machado/CrusoéBolsonaro em evento da Aeronáutica: staff está com o discurso afinado para a campanha

Esqueçam o que fiz e falei

Como a campanha de Jair Bolsonaro tentará reescrever a história e fazer com que o eleitor apague da memória os descalabros do atual governo
07.04.22

A julgar pelo atual retrato das pesquisas, tudo indica que o antibolsonarismo pode ter nas eleições presidenciais de outubro o mesmo poder decisivo que o antipetismo teve em 2018. Graças aos cerca de 55% de rejeição de Jair Bolsonaro, qualquer candidato que enfrentá-lo no segundo turno é favorito para vencer a disputa, não exatamente por sua própria popularidade, mas pela altíssima reprovação à figura do presidente. Os números desfavoráveis construídos ao longo dos últimos quatro anos são fruto da atuação daquele que, para boa parte dos brasileiros, tem feito um dos piores governos da história do país. Contribuiu para essa percepção a trágica atuação do governo na gestão da pandemia do coronavírus, as travas impostas no combate à corrupção e a erosão da economia, com a volta da inflação.

Num esforço para reduzir os altos índices de rejeição, a campanha de Bolsonaro à reeleição entabulou uma estratégia que é velha conhecida. Apostando na memória curta do eleitor médio, Bolsonaro e seu entorno tentam reescrever a história. A ideia é não apenas passar uma borracha sobre as práticas condenadas pela população nos últimos anos, como, se for preciso, desdizer ou distorcer o que foi dito, com o objetivo, principalmente, de recuperar o eleitor de 2018 que se decepcionou com o presidente e passou a admitir votar em outro candidato.

A nova narrativa, ao menos por ora, está afinada entre Bolsonaro, seus ministros e aliados, seja em entrevistas, declarações ou em discursos proferidos em palanques pelo Brasil afora. Por exemplo, é mais do que sabido e está fartamente documentado que o presidente estimulou aglomerações, investiu contra o distanciamento social, desestimulou o uso de máscaras, virou garoto-propaganda de remédios ineficazes e atrasou a compra de vacinas porque apostava todas as fichas na propagação do vírus de maneira se chegar à chamada “imunidade de rebanho”.

Tentando dourar a pílula, porém, a campanha bolsonarista passou a disseminar a tese de que o atual governo foi o grande responsável por proteger a população do vírus, ao ter adquirido mais de 500 milhões de doses de vacinas. “Essa foi a principal aposta e mérito do governo federal. Temos assegurados até o final do ano mais de 500 milhões de doses de vacinas. E, com isso, nós vamos conter o caráter pandêmico da Covid-19”, afirmou o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, em recente evento no Palácio do Planalto. Na sequência, como num discurso ensaiado, o presidente completou. “E quem contratou a (vacina da farmacêutica) Astrazeneca foi o (Eduardo) Pazuello”, numa referência ao general que foi ministro da Saúde, entre maio de 2020 e março de 2021, e até esta quinta-feira era assessor do Planalto (Pazuello deverá se candidatar a deputado federal pelo Rio de Janeiro). Faltou mencionar, claro, que quando o Brasil ainda negociava com lentidão a compra do imunizante, em dezembro de 2020, o general questionou por que havia tanta angústia da população pela vacina.

A guinada retórica em relação à imunização foi dada depois que o entorno do presidente constatou que a rejeição a ele guardava relação direta com seus posicionamentos antivacina, cuja eficácia foi comprovada pela comunidade científica. A expectativa do governo, com o arrefecimento da circulação do vírus, a queda no número de óbitos e o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras, é que a postura omissa e irresponsável do presidente seja esquecida pelo eleitor na hora de votar.

Edilson Rodrigues/Agência SenadoEdilson Rodrigues/Agência SenadoCiro Nogueira, o chefe da Casa Civil, é um dos conselheiros: tarefa é tentar recuperar os eleitores perdidos
Ao menos neste primeiro momento, o estratagema tem dado certo. Recente pesquisa Datafolha mostrou que a parcela da população que avalia a gestão de Bolsonaro durante a pandemia como “ruim” ou “péssima” caiu de 54% para 46%, ao passo que a que considera a atuação “ótima” ou “boa” subiu de 22% para 28%.  “No momento eleitoral, com a vantagem de Lula, Bolsonaro suaviza suas proposições mais radicais e busca um público fora do bolsonarismo, sobretudo em temas inequívocos, como a vacina. Esse é o padrão Bolsonaro: se ele fala algo que gera polêmica para agradar ao eleitor mais fiel e isso repercute mal, ele não tem o menor pudor em dizer que foi mal interpretado”, afirma o cientista político Manoel Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG.

As discussões para alinhavar as estratégias de campanha têm ocorrido do início do ano para cá no Palácio da Alvorada e na residência do almirante Flávio Rocha, secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência. Em geral, o caráter dos encontros é informal. As conversas ocorrem durante almoços e jantares dos quais participam normalmente Flávio Bolsonaro, o filho 01, os ministros políticos – como Ciro Nogueira, da Casa Civil, Tarcísio de Freitas, ex-titular da Infraestrutura, e Fábio Faria, das Comunicações –, além do próprio almirante Rocha e de Bolsonaro. “Até agora, não houve uma convocação no estilo ‘vamos discutir a campanha’. Esses debates vão ocorrendo de maneira mais natural”, diz um dos habitués.

O desafio da turma, agora, é manter Bolsonaro ajustado ao discurso repaginado. “O presidente percebeu que, quando modera suas declarações, consegue chegar com mais eficiência a uma parcela do eleitorado de centro”, diz a otimista Carla Zambelli, do PL, uma das deputadas mais fiéis a Bolsonaro na Câmara. Aliados já admitem, no entanto, que, dado o histórico de trapalhadas, nem sempre será possível segurar os instintos verborrágicos do presidente durante a campanha.

Em um desses encontros no Alvorada e na casa de Flávio Rocha foi traçada a estratégia de realçar os escândalos da era petista no poder, como o mensalão e a roubalheira na Petrobras. A ofensiva já tem sido colocada em prática. “O endividamento da Petrobras de 2003 a 2015, fruto de roubos e desvios, chegou na casa dos 900 bilhões de reais. Se juntar Petrobras, BNDES, Caixa, dá quase 2 trilhões de reais ao longo de 14 anos. Você está pagando a conta. Quer pagar de novo?”, questionou Bolsonaro, em uma live recente. Ao apontar o dedo para o adversário no quesito corrupção, no fundo a intenção do staff de campanha é fazer o eleitor esquecer que o atual governo ajudou a enterrar a Lava Jato, aparelhando os órgãos de controle, fiscalização e investigação, como a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal, que recentemente conquistou o “feito” de ter prendido o menor número de suspeitos de corrupção dos últimos 14 anos.

Com a tática de “os ladrões são os outros”, o presidente também tenta jogar uma cortina de fumaça sobre os escândalos de sua própria gestão, protagonizados em ministérios sensíveis, como os da Saúde e da Educação. O discurso para rebater as denúncias está bem alinhado. No caso da compra da vacina Covaxin, cujo contrato bilionário foi cancelado pelo Ministério da Saúde após suspeitas de corrupção, Bolsonaro e aliados repetirão que “nenhum centavo” foi gasto na aquisição do imunizante. E, como a roubalheira foi detectada pela CPI da Covid antes da compra da vacina, não teria havido corrupção.

Adriano Machado/CrusoéAdriano Machado/CrusoéFlávio Bolsonaro no jantar do PL na noite de quarta: a estratégia está sendo difundida entre os correligionários do presidente
Já sobre o escândalo mais recente, envolvendo a influência de pastores na liberação das verbas destinadas pelo Ministério da Educação para municípios, ficou acertado que a ideia é dizer que Bolsonaro confia na inocência do ex-ministro Milton Ribeiro, mas que, por garantia, afastou o aliado até a conclusão das investigações. “Hoje, circulam pelo governo malas de documentos que revelam indícios de corrupção. Providências, então, são tomadas. Antigamente, as malas que circulavam eram de dinheiro”, diz um líder do Centrão que já participou dos almoços e jantares no Alvorada nos quais são discutidas as linhas da campanha.

Para a relação de Bolsonaro com os partidos do Centrão, cujos líderes foram protagonistas dos casos de corrupção do PT, como o ínclito Valdemar Costa Neto, já há uma desculpa na ponta da língua: sem a aliança, não haveria governabilidade. “Rememorar casos de corrupção na gestão passada muitas vezes surte efeito. Em relação à própria gestão, Bolsonaro busca dizer que até tem corrupção, mas não é com ele”, afirma Manoel Santos, da UFMG.

Como a alta da inflação foi identificada por sua equipe como um dos pontos mais vulneráveis do presidente, uma das reuniões informais da pré-campanha tratou exclusivamente sobre como fazer para que o eleitor não atribua a responsabilidade do descalabro econômico ao governo atual. Pressionado pelos preços de educação e alimentos, o índice oficial de inflação teve alta de 0,95% em março, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Assim, a taxa chegou a 10,79% no acumulado de doze meses. Como no caso da corrupção, a campanha bolsonarista já começou a propagar que foi Dilma Rousseff, pupila de Lula, e não Bolsonaro, a culpada pela maior recessão econômica da história recente do país, cujos efeitos são sentidos até hoje.

Em declarações recentes, ministros de Bolsonaro também têm adotado a estratégia de comparar o Brasil com países em que os índices de inflação estão ainda mais altos, como os Estados Unidos, e associar a alta da gasolina, outra fonte de desgaste do presidente, ao crescimento do valor do barril de petróleo no mercado internacional. “Bolsonaro não precisa pregar para os radicais, pois esses eleitores já estão com ele, aconteça o que acontecer. O presidente tem buscado suavizar o discurso para chegar aos antipetistas moderados. Esse discurso, até o momento, está colando”, avalia o cientista político Paulo Baía, da UFRJ.

A retrospectiva histórica mostra que a estratégia de tentar apagar o passado recente, adulterando fatos muitas vezes notórios, pode não ser eficaz. Em 2002, Fernando Henrique Cardoso, com o seu “esqueçam o que eu escrevi”, não conseguiu eleger como sucessor o seu ex-ministro José Serra, que foi derrotado por Lula depois de ser cristianizado por setores do próprio PSDB. Dilma também pagou caro pelas imposturas de sua campanha à reeleição. O então marqueteiro do PT, João Santana, hoje no PDT de Ciro Gomes, vendeu um cenário econômico róseo durante a eleição e ajudou a reelegê-la, mas deu no que deu: a sucessora de Lula acabou sofrendo impeachment, dois anos depois de subir a rampa do Planalto. Nas últimas semanas, graças em parte aos ajustes de discurso feitos por sua equipe, Bolsonaro até conseguiu ganhar alguns pontos nas sondagens eleitorais. Falta saber, porém, se a tática funcionará quando o jogo começar para valer.

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  1. Esquecer jamais! Neném Bozoca sem moral e caráter! Miliciano corrupto família quadrilheira,sem respeito! Prefiro votar em mulher digna e sabia como Senadora Simone Tebet! Que ela se candidate para limpar esse esgoto Lula X Bozoca

  2. Nunca mais vc e sua família Corrupta,sem moral mentirosos milicianos ganharão eleições neste Aos,vc é um ditador sem moral caráter vergonha desclassificado e imoral! Eleições zero! Nunca Mais!

  3. Chega a ser engraçado ver a esperança no nosso esquecimento e sublimação dos horrores praticados por esse governo. Pode funcionar pra alguns, mas eu não apostaria em tanta subestimação.

  4. “Não tem virgem na zona”, sábia afirmação sobre a maioria dos políticos profissionais de nosso País. O PTista também irá apagar a leva-jato, a condenação, a Dilma, os bens ganhos por corrupção, a farra dos estádios e dos seus investimentos inacabados para a copa,etc. Do ele é impoluto, alma mais honesta deste mundo, o único Robin Hood verdadeiro do Brasil.Bolsonaro não é santo; errou muito,mas nunca fingiu ser proletário.Já Lula continua enganando o povo pobre pelo poder.

  5. É ruim bem,,! Falouuoys Merda fez muita merda agrediu muita gente e foi o pior Presidente corrupto coma quadrilha da família ,Não podemos ESQUECER,jamais,!!!!?

  6. Caprichem na escolha de seu deputado e senador. Escolha alguém honesto, que tenha trabalho real e de interesse coletivo. Que vc conheça a história e o admire. Jamais vote em alguém que seja réu até que a justiça efetivamente o julgue e o inocente (prescrição não vale !). Pode ser de direita, esquerda, centro, mas escolha alguém honesto. Existem. Hoje, são minoria no Congresso, mas existem na sociedade. Melhorar o Congresso é nosso maior desafio. #NemLulaNemBolsonaro

  7. relax pessoal, o brasileiro vai votar mal, vão escolher o pior e daqui 4 anos estaremos aqui, se ainda tivermos liberdade alguma de falar algo.

  8. A amnésia do eleitor é uma arma poderosa. Os dois favoritos contam com ela, pois a conta de crimes do PT também é longa. Além disso, a amnésia do povo quanto ao trabalho do Moro na lava jato e no ministério da justiça levou a que sua campanha não alavancasse. Com um eleitorado assim Bolsonaro e Lula podem dormir tranquilos.

    1. Comentariozinho safahdo de wuem tem a amnésia do maucaratismo!

  9. Bolsonaro e Lula são criaturas asquerosas e, se Deus existe, serão banidas do cenário político brasileiro, juntamente com seus comparsas de ambos os lados! #moropresidentedobrasil2022

  10. Cancelei essa porcaria de revista há mais de dois anos! Já liguei já mandei e-mail e continuam me cobrando e ainda querem falar mal do governo! Vão se catar!

    1. Realmente os seguidores imbecis ainda acreditam neste cretino Bosalnaro

  11. Como uma revista acaba? Saiu da Veja que está falida para montar uma nova, que está indo para o mesmo caminho. Fazendo campanha para o MORNO e agora incentivando voto nulo que é igual a votar no Lula. HIPÓCRITAS

    1. Votar em Bolsonaro é o mesmo que votar nulo: ambos os votos irão eleger Lula... Se você não quer corruptos no governo, vote em Sérgio Moro! se não, é melhor votar nulo do que nessas duas desgraças que estão nos primeiros lugares...

  12. MEU LIVRO “O INROTULÁVEL”. Link de acesso: https://www.amazon.com.br/dp/B09HP2F1QS/ref=cm_sw_r_wa_awdo_PQSA5Z6AXXH2SX16NH87 ..............................................……. #ÉMOROouNULO: o ACORDÃO dos DEGENERADOS MORAIS para EVITAR o IMPEACHMENT do BOLSONARO e TIRAR LULA da CADEIA! os EXEMPLOS EXECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  13. Agora TALVEZ Bolsonaro perceba que a "estratégia" de tratar ex eleitores insatisfeitos, apelidando-os pejorativamente como ISENTÕES foi ESTÚPIDA. Esses votos - que garantiram sua vitória em 2018 - estão definitivamente perdidos.

    1. Pode ter certeza! Eu votei nele e não votarei novamente jamais! Prefiro votar nulo do que levar a culpa de eleger um corrupto!

  14. Uma utopia: Ruptura já Voto distrital Fim senado/stf Estado mínimo Voto aos 21 anos Parlamentarismo Privatização total Fim das bolsas-voto Fim cargos vitalícios Prisão em 2ª instância Lei da ficha limpa plena Foro privilegiado restrito Fim estabilidade funcionalismo Candidato qq cargo político acima de 50 anos Fim das indicações monocráticas de servidores Quarentena 1 ano após fim da legislatura p nova candidatura Perda direitos politicos 2 legislaturas se renúncia ou n cumprir promessa campanha

    1. Nem Lula nem Bolsonaro essa é a palavra de ordem essa é a palavra de ordem que deve se espalhar por todo o Brasil

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