Saulo Cruz/Agência BrasilCoelho ao ser empossado, nesta quinta: defesa da manutenção do regime de preços e promessa de mais interação com a política

Petrobras exposta

Com as portas abertas para o Congresso e a intenção do governo de mostrar que age para conter os preços dos combustíveis, a companhia que estrelou o petrolão está de novo entregue ao jogo de Brasília
15.04.22

Avaliada em 70,6 bilhões de dólares, a Petrobras é a empresa mais importante entre as 158 sob o controle acionário do governo federal. Desde janeiro, quando superou a mexicana América Móvil, é também a companhia mais valiosa da América Latina. Os números são superlativos: a Petrobras produz 2,7 milhões de barris de óleo por dia, investe mais de 70 bilhões de reais por ano e paga, por hora, 23 milhões de reais em impostos e tributos à União. Apesar da relevância estratégica para o mercado interno e até para a geopolítica internacional, a petroleira se transformou perigosamente em mais uma peça do jogo de Jair Bolsonaro para viabilizar seus planos eleitorais.

Após quase três semanas de incertezas e de um vaivém constrangedor e arriscado do ponto de vista do negócio, o químico José Mauro Ferreira Coelho recebeu na tarde de quinta-feira, 14, o aval do conselho de administração para assumir o comando da empresa. Ex-funcionário de carreira e até então conselheiro, o engenheiro Márcio Andrade Weber foi aprovado como presidente do conselho. A dupla chega à cúpula da estatal após uma sequência de trapalhadas que levou à queda das ações, mesmo com o petróleo em alta, e arranhou a credibilidade da Petrobras.

As mudanças são produto direto da pressão do presidente, que quer passar para o eleitorado a impressão de que está fazendo algo para controlar os preços das bombas dos postos de combustíveis.  Antes de José Mauro Coelho e Márcio Weber terem seus nomes aprovados, o governo percorreu um caminho tortuoso. Primeiro, fritou o general Joaquim Silva e Luna, com uma importante mãozinha do Centrão. Formalmente indicados, o economista Adriano Pires – que tinha seu nome abençoado pelo notório Arthur Lira – e o presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, desistiram da empreitada. Com negócios relacionados à área de óleo e gás, havia evidentes conflitos de interesse que os deixariam expostos ou mesmo sob risco de terem os nomes rejeitados. O governo patinou até encontrar alternativas.

Foto: Marcello Casal Jr Agência BrasilFoto: Marcello Casal Jr Agência BrasilBento Albuquerque indicou o novo presidente da Petrobras, também avalizado por líderes do Centrão
A ingerência continuou patente. Nesta semana, José Mauro Coelho acompanhou o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, em um evento em comemoração ao primeiro ano da nova Lei do Gás, realizado em Aracaju. Circulou pelo seminário com tanta discrição que nem chegou a ser identificado por parlamentares presentes. Não significa, porém, que ele não tenha a bênção de aliados importantes do Planalto no Congresso.  Para além de ter boas relações com o próprio Albuquerque, Coelho só chegou ao posto graças ao aval de parlamentares aliados do governo.

Recém-empossado como líder do PL, o deputado Altineu Côrtes, do Rio de Janeiro, é um legítimo representante do baixo clero da Câmara que, sob Bolsonaro, se aventurou em voos mais altos. Tão altos que, nos bastidores, é apontado como um dos padrinhos do novo presidente da Petrobras. “Eu o conheço desde o tempo em que era presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética, vinculada ao Ministério das Minas e Energia). Sem dúvidas, é um nome técnico, que fará um grande trabalho”, afirma o líder do PL, que não assume a condição de padrinho de Coelho (ele jura não ter conversado com Bolsonaro sobre a indicação). Detalhe: Altineu integrou a tropa de choque de Eduardo Cunha antes da derrocada do ex-presidente da Câmara, foi subrelator da CPI da Petrobras, aberta em 2015 para apurar o escândalo do petrolão, e hoje é um dos principais soldados de Valdemar Costa Neto no Congresso.

Aliados do governo minimizam os impactos da mudança. Mas, ao mesmo tempo, admitem a existência do componente político. “É claro que as trocas constantes não são algo desejável, mas temos que analisar a necessidade dessas substituições. Se perguntarmos ao brasileiro comum se ele está satisfeito com os rumos da Petrobras, eu posso assegurar que a resposta será majoritariamente negativa. O que acontece na empresa tem reflexo no bolso de quase 100% da população. E quando temos uma política de aumento de petróleo quase semanal, aí o povo começa a se perguntar o que está errado”, explica o deputado Édio Lopes, também do PL, atual presidente da Comissão de Minas e Energia da Câmara, responsável pela fiscalização da política energética do país.

Édio Lopes prossegue: “Se houve alguma pitada de participação de parlamentares, como o deputado Altineu, isso é natural. É de bom alvitre que o presidente ouça seus aliados, ainda que a palavra final seja dele. O PL já era uma força política muito presente no governo, e hoje o PL é o governo. Nosso partido não pode mais dizer que é coadjuvante no Palácio do Planalto. O PL é o Palácio do Planalto”. Não se trata de algo trivial: com a memória do petrolão ainda viva, os políticos já falam abertamente da retomada da influência do Congresso sobre os rumos da estatal. Um escárnio que se soma à desconstrução da Lava Jato e à anulação das punições aplicadas aos responsáveis pelo esquema.

Marcelo Camargo/Agência BrasilMarcelo Camargo/Agência BrasilO general Silva e Luna foi demitido por resistir às ingerências políticas
Enquanto aliados do presidente defendem a gestão populista da Petrobras e cobram uma redução artificial dos preços dos combustíveis às vésperas do início da campanha, especialistas do setor alertam para os riscos do uso político (e eleitoreiro) da companhia. De saída, o próprio Joaquim Silva e Luna explicou que os mecanismos de governança da estatal não permitem uma guinada na política de preços, baseada nos valores praticados no mercado internacional. “É muito mais fácil encontrar um culpado do que uma solução”, disse. “Esse vaivém de comando é apenas uma troca de seis por meia dúzia, porque ele não vai alterar a forma como a empresa é gerenciada, nem a política de preços”, diz Célio Bermann, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP e especialista em política energética. “O que está ocorrendo agora na empresa se soma ao desgaste da Petrobras durante os governos petistas, algo que não pode ser esquecido. Os superfaturamentos, os desvios, a compra de ativos a preços fora de medida, isso tudo trouxe um passivo grande para credibilidade da empresa, problema que se agrava agora, graças ao desgoverno atual”, emenda o professor.

Bolsonaro, porém, demonstra desconhecer as normas mais básicas do mercado e, muitas vezes, baseia suas ações em postagens de redes sociais e fake news. Demitido no ano passado nas mesmas circunstâncias de Silva e Luna,  Roberto Castello Branco, o primeiro chefe da Petrobras no atual governo, revelou ter sofrido pressão do presidente da República para reduzir os preços. A pressão se dava, disse, por meio de ligações e mensagens. “Eu simplesmente não atendia”, afirmou, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

“Causa profunda perplexidade essa enorme capacidade do governo de criar confusão, de tratar assuntos sérios de maneira improvisada, sem planejamento, sem levar em conta as normas, as leis e o interesse da sociedade em geral. Ele é rápido em criar confusão e não tem a necessária capacidade de resposta nem aos problemas existentes, nem aos que ele cria sem necessidade”, diz Ildo Sauer, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras. “Se Bolsonaro tem problemas na percepção pública com relação ao preço dos combustíveis, ele demite o presidente da Petrobras. Isso cria tumulto e o presidente da República espera que as coisas se acomodem durante essas marolas. É absolutamente inacreditável que o governo use esse estratagema. Estamos às raias do abismo”, acrescenta Sauer.

André Motta de Souza/Agência PetrobrasAndré Motta de Souza/Agência PetrobrasA Petrobras é hoje a empresa mais valiosa da América Latina
O já estabelecido cenário de pressão política sobre a Petrobras pode se agravar ainda mais. Depois dos embaraços que acabaram por impedir a ascensão de Adriano Pires, seu candidato preferido para a presidência da companhia, Arthur Lira anunciou que pretende mudar a Lei das Estatais, o que tende a ampliar a exposição aos interesses do establishment de Brasília. Aprovado em 2016, na esteira das medidas adotadas em resposta às descobertas do petrolão, o texto foi formulado para reduzir a influência política em empresas públicas. A prática de indicar dirigentes partidários e apadrinhados sem qualificação para conselhos de estatais, com pagamento de jetons altos e a intenção nunca assumida de que eles ajudassem na coleta de recursos, diminuiu sensivelmente. Lira, sincero, disse dias atrás que “a regra foi criada para travar a Petrobras e criar esse inconveniente que ela é para todo o Brasil”. Também nesse front, os avanços estão em risco.

A despeito do plano de Bolsonaro de espalhar para o eleitor desavisado a leitura de que o governo trabalha para conter o preço dos combustíveis, ao tomar posse no cargo nesta quinta-feira, 14, o novo presidente da Petrobras defendeu a manutenção da política de preços da estatal. Para entregar a sensação de mudança desejada pelo presidente, porém, José Mauro Coelho disse que pretende ampliar a interação com a sociedade, com o Congresso Nacional e com o governo. É mais uma evidência, entre tantas, de que os tempos de ingerência e politicagem na empresa estão de volta.

Já é assinante?

Continue sua leitura!

E aproveite o melhor do jornalismo investigativo.

O maior e mais influente site de política do Brasil. Venha para o Jornalismo independente!

Assine a Crusoé

CONFIRA O QUE VOCÊ GANHA ASSINANDO O COMBO

  • 1 ano de acesso à CRUSOÉ com a Edição da Semana: reportagens investigativas aprofundadas, publicadas às sextas-feiras, e Diário, com atualizações de segunda a domingo
  • 1 ano de acesso a O ANTAGONISTA+: a eletrizante cobertura política 24 horas por dia do site MAIS conteúdos exclusivos e SEM PUBLICIDADE
  • Artigos Exclusivos de Diogo Mainardi, Mario Sabino, Ruy Goiaba, Carlos Fernando Lima e equipe
  • Newsletters Exclusivas

Os comentários não representam a opinião do site. A responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos.

500
  1. Quer manter o preço do combustível sem afetar a empresa? Zere os tributos... ou utilize o lucro retornado para o tesouro da União pra "baixar" os preços... fora isso é quebrar a empresa

  2. Para quem quer votar no Lula ; não se preocupe se ele perder p Bolsonaro .. Hoje o pegada do Governo é praticamente a mesma

  3. Devido à indigência intelectual que possui, o Pangaré Sociopata vai emporcalhando instituições com suas interferências irracionais e circenses como meio de aparentar que faz alguma coisa de útil.

  4. Tem que intervir mesmo na Petrobras. Petróleo brasileiro e pagamos uma fortuna, por ele. Nunca deveríamos ter privatizado parte dela. Se ela fosse privada, pode ter certeza que a gasolina já estaria mais de R$ 10,00...

  5. Uma utopia: Ruptura já Voto distrital Fim senado/stf Estado mínimo Voto aos 25 anos Parlamentarismo Privatização total Fim das bolsas-voto Fim cargos vitalícios Prisão em 2ª instância Lei da ficha limpa plena Foro privilegiado restrito Fim estabilidade funcionalismo Candidato qq cargo político acima de 50 anos Fim das indicações monocráticas de servidores Quarentena 1 ano após fim da legislatura p nova candidatura Perda direitos politicos 2 legislaturas se renúncia ou n cumprir promessa campanha

  6. O José Mauro, sendo um técnico com conhecimento do setor, sabe seus limites pra tentar atender aos delírios populistas do Bolsonaro e do Congresso, e baixar artificialmenteos preços dos combustíveis. Se não tender ao populismo deverá fazer um bom trabalho

  7. Indignação individual não gera resultado e assim vamos continuar assistindo o Circo dos Horrores de forma passiva. Necessário unirmos as vozes num grito: Fora, ladrões

  8. A visao miope e superficial dos politicos sobre o tema e' assustadora, alias nem tanto porque conhecemos suas mediocridades. Querer vender por menor valor uma mercadoria que vc nao produz e nao controla o preco do produtor e' uma piada. O problema nao esta na Petrobras e sim na estrutura do pais que e' pessimamente administrado com gestores voltados ao beneficio proprio.Enfim somos um fracasso como povo pois permitimos ano apos ano estas mesmas mazelas.

  9. A Parte mais importante de toda a matéria é o último parágrafo onde afirma-se que a Empresa precisa ampliar Interação com todos os setores da sociedade. Entender como funciona o processo. Mostrar a diferença entre matéria-prima 2,7 milhões de barris de óleo por dia mas a capacidade das refinarias , grosso modo, é de 1,8 milhão por dia. A Pais para ser autossuficiente precisa ampliar o refino( separação, conversão e tratamento) em quase um milhão de barris por dia. Como viabilizar isso.

    1. Infelizmente não se fala em aumentar o refino para termos capacidade de reduzir o preço do combustivel. E o povo permanece acreditando que o preço da gasolina está atrelado à vontade da Petrobrás, e não ao aumento do refino do petróleo in natura.

  10. MEU LIVRO “O INROTULÁVEL”. Link de acesso: https://www.amazon.com.br/dp/B09HP2F1QS/ref=cm_sw_r_wa_awdo_PQSA5Z6AXXH2SX16NH87 ..............................................……. #ÉMOROouNULO: o ACORDÃO dos DEGENERADOS MORAIS para EVITAR o IMPEACHMENT do BOLSONARO e TIRAR LULA da CADEIA! os EXEMPLOS EXECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

Mais notícias
Assine agora
TOPO