RuyGoiaba

Um passado glorioso pela frente

15.04.22

Vocês, habitantes do Bananão — leitores hipócritas, meus semelhantes, meus irmãos —, já perceberam que ultimamente a nossa melhor perspectiva de futuro é o passado? Até Stefan Zweig, se vivesse hoje, não se arriscaria a batizar um livro com o nome generoso de Brasil, País do Futuro: talvez ele mesmo preferisse adotar a versão revista por Millôr Fernandes (“país do faturo”). Simplesmente porque não temos um, e o “no future, no future, no future for you” dos Sex Pistols, que já é velho de 45 anos, segue atualíssimo por estas bandas.

Pois vejam só: um dos dois candidatos viáveis à Presidência neste momento é um velho de 76 anos com ideias basicamente estacionadas na década de 80, que está prometendo levar o Brasil de volta a 2002 — aquela época em que jorravam leite e mel das pedras do sertão nordestino e o filho do pobre ia de avião para a faculdade, ou qualquer coisa do tipo. O outro é um velho de 67 anos com ideias medievais, que odeia o cargo com tanta intensidade que está fazendo de tudo para permanecer mais quatro anos nele (deve ser chato mesmo ter que trabalhar de vez em quando, em vez de passar todos os dias apenas colhendo o aplauso da claque e se sentindo importante em formatura de soldadinho).

Exemplo fácil: toda vez que ouço as conversas de Lula sobre ”regulação da mídia”, tradicional eufemismo petista para censura, elas são iguaizinhas à lenga-lenga que eu escutava de alguns professores na minha faculdade de jornalismo, no fim dos anos 80 — iguais, sem tirar nem pôr. Sim, anos 80, aquela época em que gigantescos répteis caminhavam sobre a Terra e não havia celular, internet, rede social, WhatsApp, Telegram. Qualquer um que não tenha passado os últimos 30 anos congelado — ou não seja as múmias que me davam aquelas aulas, algumas ainda hoje assombrando os estudantes — sabe que o mundo mudou muito e a MÍDIA MÁ foi “regulada”, ainda que não do jeito que os lulaminions (e, hoje, os bolsominions) queriam. O discurso do candidato parece ignorar tudo isso: é uma fala de tiranossauro para uma plateia de convertidos, seus iguais, que aplaudem entusiasticamente com aqueles bracinhos curtos.

E Bolsonaro, como se sabe, está aí para defender os “valores da família” (a dele), meter sigilo de 100 anos em tudo e ser menos articulado que Fred Flintstone gritando “iaba-daba-duuu!”. Aliás, todos os velhos da minha geração esperavam, uma vez ultrapassado o marco dos anos 2000, um mundo mais para Jetsons que para Flintstones. Hoje, nós temos a parte chata da vida de George Jetson (videoconferência com o sr. Spacely, em vez de carros voadores), mas o resto é de um primitivismo que deixaria até Barney Rubble chocado — com hambúrguer e cerveja artesanais e sem o legítimo pernil de brontossauro. Só desvantagens.

Essa resoluta marcha em direção ao passado não é exclusividade do Brasil, claro: agora mesmo, há um sujeito lá fora massacrando civis depois de invadir um país soberano, para tentar reviver a gloriosa União Soviética. Mas aqui toda tendência mundial, assim que aterrissa, ganha de brinde aqueles altos teores de esculhambação que nos caracterizam, além de ficar-nos curta nas mangas, como a civilização para o João da Ega de Os Maias. Faz pouco tempo, um dos grupos de que participo no Facebook estava discutindo em quanto tempo os carros elétricos poderiam se popularizar por aqui e um amigo, sábio, ponderou: “Do jeito que as coisas andam, é mais fácil acontecer um revival das carruagens”.

De minha parte, já estou aqui me preparando para o retorno triunfal das carruagens, devidamente repaginadas como veículos vintage. Enquanto o revival não trouxer consigo a volta do escorbuto e da varíola, acho que dá para encarar.

***

A GOIABICE DA SEMANA

Tem uma piada — deve ser do Ary Toledo; se não for, certamente combina com o estilo dele — do cara que vai à farmácia em Itu com uma lista de compras. Pede cotonete e o balconista aparece com uma haste do tamanho de um poste, pede papel higiênico e vem uma bobina gigante etc. “Mais alguma coisa?” “Não, pode deixar que o supositório eu compro em São Paulo mesmo.” Pensei nessa obra-prima do humor burro brasileiro (em geral, mais inteligente que o humor inteligente brasileiro) quando li as sucessivas notícias sobre as compras meio esquisitonas que as Forças Armadas (ou nem tão armadas assim) andaram fazendo: primeiro Viagra, depois próteses penianas infláveis, depois botox. Temo que apareça um empenho para comprar supositórios do tamanho de ogivas nucleares — ou outros acessórios só disponíveis nas melhores sex shops de Itu.

(Sugiro mudar aquele lema para “braço forte, mão amiga e meia-bomba”.)

A prótese inflável: o Exército bomba, mas não do jeito que se imaginava

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  1. Sen sa cio nal! Como diria o faustão nos idos de 1900 e antigamente! Era o faustão ou o sei lá quem...ando esclerosado por tanta notícia ruim nesse nosso bananão!

  2. Pelo andar das carruagens , o que vai sobrar ao cidadão civilizado contribuinte , vai faltar papel higiênico de Itú para limpar os futuros dejetos que serão depositados nas urnas.

  3. Imaginar o “ retorno “ me deprime… que país de Bananão mesmo, esse país não é sério.. triste, que vontade de ir embora desse manicômio.

  4. Perfeito, Mr. Goiaba. Estamos presos no corredor estreito entre dois completos iliberais e retrógrados. Precisamos achar um caminho que nos conecte à economia global e à democracia liberal.

    1. Não dá. Não vou participar, com meu voto, dessa esculhambação.

    2. Eu me nego terminantemente a fazer tal escolha. Votarei nulo pela primeira vez na minha vida.

  5. 🎶Este é um Brasil que vai pra trás o o o o o De uma gente triste e aflita assaz o o o o o Este é um país que vai pra trás, de políticos podres, de pouco valor! Um povo que cansa, trabalha e nada alcança! O Brasil está um horror!🎶

  6. Goiaba, vc é generoso ao pensar que Lula e Bolsonaro estão na década de 80 do século passado. Acho que ambos ancoraram na década de 60 e lá permanecem até hoje, para a nossa infelicidade.

  7. É para rir bastante, mas quando fala dos professores das universidades federais eu tenho vontade de chorar. Eles continuam acreditando em Lula, no Comunismo, no Chico Buarque etc. Com todo esse repertório medieval eles entram nas salas de aula e levam os universitários comunas Nutellas ao êxtase. Sou profê aposentada de universidade particular e conheço bem as falsidades daqueles espaços.

  8. O corolário da goiabice são os minions dizendo que as revelações das compras para levantar o moral da tropa são parte de um complô voltado para a minar a credibilidade das instituições tradicionais.

  9. Ruy Goiaba, muito obrigada 🥰🙏 É a minha sessão comédia da semana; choro de tanto rir e alivia minha alma cansada de tanta cretinice, depravação e indecoro deste Desgoverno “cristão batizado no Rio Jordão”.

  10. Arrancou-me boas gargalhadas, seu humor refinado e inteligente. Parabéns. A revista é boa, mas sua coluna é o fecho que torna o semanário saboroso, especialmente como contraponto aos comentários que dão vontade de encomendar o justiçamento dos sanguessugas encastelados em Brasília.

  11. A cabeça do futuro do sapiens fixado no passado selvagem involucionista é essa que está ai democraticamente e efusivamente difundida pelas traquibandas inventadas pelos gênios trilionarios da TI. Infelizmente. Seremos ro.bos de rob. os. Infelizmente. Ou não é?

  12. Não esquecer que os repteis e os flintstonones continuam, em cambada, habitando as universidades do mundo. No brasil o fhcismo+luloptismo tratou de dar continuidade a essa monstrusidade educacional. A internet e as suas tranqueiras só consolidou esse passado/presente. O genial Kubrick já havia profetizado a rede social deste horroroso futuro/passado com a mais brilhante abertura da História do Cinema em 2001 Uma Odisseia. Hall 20000 que o diga.

  13. Discordo da visualização que tive de manchete do NP: "Exército meia-bomba defende país que é uma bomba completa": há exceções. Peraí que já cito uma....cri,cri...cri,cri...

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