Reprodução EuronewsEmmanuel Macron e Marine Le Pen: maioria dos eleitores franceses deu vitória a ele no debate

A eleição francesa e o futuro da Europa

Emmanuel Macron está à frente de Marine Le Pen nas pesquisas eleitorais. A Europa torce por ele; Vladimir Putin torce (e retorce) por ela
22.04.22

Nesta quarta-feira, o frango brasileiro foi assunto — breve, mas assunto — do debate televisivo entre Emmanuel Macron, atual presidente da França que busca a reeleição pelo seu partido de centro, La République en Marche, e Marine Le Pen, a candidata de extrema-direita que concorre ao Palácio do Eliseu pelo Rassemblement National. O frango foi servido no segmento dedicado ao que cada um pensa a respeito do papel da França na União Europeia. Marine Le Pen disse que Emmanuel Macron, europeísta convicto, abriu as portas do mercado consumidor francês indiscriminadamente, por meio de uma série de acordos bilaterais firmados pelo bloco que feriram o interesses dos produtores franceses de vários setores — e citou o caso do frango brasileiro. Emmanuel Macron respondeu que não era verdade e que, para não prejudicar os agricultores da França e não contribuir para o desflorestamento da Amazônia, foi contra o acordo da União Europeia com o Mercosul. Rapidamente depenado, o frango brasileiro foi para a geladeira, substituído por assuntos mais urgentes, como a guerra na Ucrânia, a reforma do sistema de aposentadorias e, tema principal, a queda do poder aquisitivo dos cidadãos.

O segundo turno das eleições francesas ocorrerá neste domingo, 24 de abril, e os adversários são os mesmos de 2017, só que agora em contexto bem mais complicado do que o usual na vida das nações. Depois do Brexit, de uma pandemia que oficialmente ainda não acabou e da crise econômica dela decorrente, que estreitou a interdependência dos países da União Europeia, com a emissão inédita de títulos de dívida pública unificada, para financiar a retomada da economia com quantias tão monumentais quanto a Torre Eiffel, a Rússia invadiu a Ucrânia, completando o servicinho sujo iniciado com a anexação da Crimeia, em 2014 — o que forçou o continente a encarar a verdadeira face de Vladimir Putin, de cujo gás quase todos dependem. Como a França, juntamente com a Alemanha, é um dos pilares do bloco que é um dos pulmões econômicos do mundo e também forma o coração da Otan, a escolha do presidente francês ganha uma relevância internacional ainda maior. O atual inquilino do Palácio do Eliseu é a garantia de que a França continuará firme na União Europeia e na aliança militar ocidental. Já com Marine Le Pen como presidente, trepidações poderão causar rachaduras profundas tanto no bloco quanto na Otan, da qual ela quer que a França saia, em movimento similar ao que ocorreu durante a presidência de Charles de Gaulle.

Há cinco anos, Emmanuel Macron bateu Marine Le Pen, no segundo turno, com o dobro de votos. Neste ano, ele é o favorito outra vez, mas essa vantagem não deve se repetir, de acordo com as sondagens. No primeiro turno, que aconteceu em 10 de abril, a vitória foi por uma diferença de cinco pontos (arredondados para cima) — e, logo depois de divulgados os resultados que levaram ambos ao segundo round, as pesquisas mostravam que a preferência por Emmanuel Macron, na batalha final, era de apenas quatro pontos percentuais sobre a adversária. As sondagens de hoje mostram que essa diferença subiu para de 10 a 14 pontos. A atuação do atual presidente francês no tête-à-tête televisivo pode ter consolidado o seu bom desempenho nas pesquisas, uma vez que a maior parte dos espectadores achou que ele foi muito melhor do que Marine Le Pen.

No debate de 2017, ela foi um fiasco, perdida entre anotações sobre economia. Desta vez, Marine Le Pen decorou os dados e não deu o vexame esperado. Se há cinco anos ela falava em Frexit, seguindo os passos do Reino Unido rumo à porta de saída da Europa, hoje Marine Le Pen fala em renegociação dos acordos internos. Também vem tentando se descolar da imagem de racista e xenófoba, concentrando-se no problema específico dos cidadãos de outros países da União Europeia que fazem trabalhos esporádicos na França, mas pagam os impostos sobre os seus rendimentos nos países de origem. A estratégia de Marine Le Pen é tentar transformar a eleição presidencial em um referendo anti-Macron, enfatizando a perda de poder aquisitivo dos franceses, a maior preocupação dos eleitores, e explorando o ressentimento das classes populares em relação a um presidente que elas julgam ser dos ricos e que não conhece a vida real da maioria das pessoas (a expressão “vida real” foi bastante acentuada pela candidata no debate). O empobrecimento geral, agora agravado pela inflação em alta, foi o combustível do movimento dos coletes-amarelos, que durou quase três anos e meio, desde 2018, e contaminou o mandato quase inteiro de Emmanuel Macron.

Adriano Machado/CrusoéAdriano Machado/CrusoéVladimir Putin: apoio do russo à sua candidatura é o calcanhar de aquiles de Marine Le Pen
A candidata de extrema-direita foi beneficiada, no primeiro turno, por Éric Zemmour, do partido Reconquête, da super extrema-direita. Perto dele, como eu disse em O Antagonista, “Marine Le Pen parece um oásis de equilíbrio. Éric Zemmour levou à enésima potência a xenofobia, o racismo e o nacionalismo que sempre foram marcas do Rassemblement National, antigo Front National. O sujeito tem cara de louco, fala como louco e, portanto, pode ser considerado louco. Marine Le Pen não pensa muito diferente de Éric Zemmour, mas, para fazer ainda mais contraste, baixou o tom extremista e está mais afável, mais “gente como a gente”. Edulcorou-se a ponto de parecer uma escolha razoável (o esquecimento não é um defeito apenas brasileiro)”.

Agora, no segundo turno, o seu perfil ficou mais difícil de ser escamoteado, inclusive porque Éric Zemmour a apoia. A frente anti-Marine Le Pen é grande e conta com Jean-Luc Mélenchon, do partido France Insoumise, de extrema-esquerda, cujo eleitorado com menos de 30 anos é enorme. Ambos têm pontos de vista bastante comuns, numa ilustração da teoria da ferradura, utilizada para mostrar a proximidade ideológica dos extremos políticos, mas seria impensável que um candidato de extrema-esquerda pudesse apoiar a candidata de extrema-direita. Seja como for, Jean-Luc Mélenchon, em que pese toda a sua idiotice ideológica, sai muito forte desta eleição. Ele ficou a apenas um ponto de Marine Le Pen no primeiro turno e, apesar de declarar que não queria que nenhum eleitor seu votasse na adversária, também se mantém distante de Emmanuel Macron — que, para obter apoio da extrema-esquerda, teve de fazer concessões, ao menos no discurso, em relação à reforma das aposentadorias (quer elevar a idade mínima para 65 anos), igualmente criticada pela extrema-direita. Jean-Luc Mélenchon afirmou que é “bastante secundário” quem será o presidente de um governo do qual ele pretende ser o primeiro-ministro, se tudo der certo para o seu partido nas próximas eleições legislativas. Já que não conseguiu colocar Jean-Luc Mélenchon no seu palanque, o presidente francês apelou para o genérico brasileiro, amigão do chefe do France Insoumise: Lula. O ex-condenado pagou a dívida com Emmanuel Macron, que o recebeu há poucos meses no Palácio do Eliseu, com manifestações no Twitter a favor da reeleição do presidente francês.

O maior calcanhar de aquiles de Marine Le Pen é a sua ligação perigosa com Vladimir Putin, hoje mais vilão do que nunca por causa da invasão da Ucrânia. Assim como todos os expoentes da extrema-direita ocidental, ela tem o apoio do tirano russo, que também interferiu com a sua máquina de fake news na eleição de 2017, contra Emmanuel Macron. No debate, o presidente francês a acusou de manter uma relação nada republicana com Vladimir Putin, inclusive com o recebimento de dinheiro suspeito, na forma de empréstimos que não teriam sido pagos. Explica-se: em 2014, o Cotelec, um micropartido criado por Jean-Marie Le Pen, pai de Marine Le Pen, para financiar a extrema-direita, foi aquinhoado com um empréstimo de uma offshore cipriota, a Vernonsia Holdings Ltd. De acordo com o site Mediapart, a offshore opera com dinheiro de fundos russos ligados a Yuri Kudimov, ex-agente da KGB soviética que dirigiu o banco russo VTB, que está na esfera de influência do oligarca Konstantin Malofeev. O Cotelec, por sua vez, usou esse dinheiro para fazer um empréstimo ao Rassemblement National, na campanha de 2017, antes de ser dissolvido por Jean-Marie Le Pen, em 2020.  Além disso, também em 2014, o Rassemblement National fez um empréstimo com o banco russo First Czech Russian Bank, para financiar as campanhas regionais de 2015.  Valor da transação: 9,3 milhões de euros. Oficialmente, o dinheiro deve ser pago até 2028 aos credores do banco, que teve a falência decretada nesse meio-tempo, mas a desconfiança é que a operação não foi empréstimo coisa nenhuma. Foi injeção de Vladimir Putin na veia do Rassemblement National. No debate, Marine Le Pen justificou os empréstimos, dizendo que o seu partido era pobre e acusando Emmanuel Macron de ter impedido a criação de um programa de financiamento bancário a partidos.

Para sublinhar a relação perigosa entre Marine Le Pen e o tirano russo, o presidente francês contou com a ajuda de Alexei Navalny, o opositor que Vladimir Putin enfiou na cadeia, depois de tentar envenená-lo. Horas antes do debate, Alexei Navalny lembrou, no Twitter, os empréstimos recebidos pela candidata de extrema-direita. A União Europeia aguarda com ansiedade o resultado do segundo turno das eleições francesas, torcendo por Emmanuel Macron, enquanto Vladimir Putin torce (e retorce) por Marine Le Pen. O frango brasileiro continuará na geladeira até lá.

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  1. Estou emigrado em Portugal. A integração portuguesa na UE foi muito positiva para o país (ainda que tenha tido seus custos, claro), por isso me incomoda a ideia de ter Le Pen comandando uma das cabeças da união. Seria um verdadeiro cavalo de Tróia e não sei se o projeto europeu aguentaria um baque tão violento após o Brexit. De minha parte, sem poder (nem ousar tentar) influenciar qualquer voto francês, espero que Macron vença.

  2. Marine Le Pen? Deus nos livre de Putin meter suas patas no coração da Europa! Cruz credo, desconjuro, pé de pato mangalô três vezes!

  3. Le pen faz parte de um grupo de líderes extremistas junto com Putin, Trump e outros como Steave Banon, milionário, estrategista da campanha de Trump. Foi condenado e preso, mas Trump o liberou de todas as penas, tal como fez o JB com seu Daniel Silveira. Nenhum deles faria falta a política dos seus países. O mundo seria melhor sem eles.

  4. Excelente artigo, Mario (como sempre). Para a Europa da Ucrânia invadida e para o mundo atual, Macron é o mais indicado. Torço por ele.

  5. Economicamente pequena militarmente a França é apenas covardia e cinismo ... invadida e conquistada pelos nazistas em 1940 teve de ser salva por ingleses e americanos .. o destino de povos covardes é o lixo.

    1. Como assim, “Pequena” militar e economicamente? A França é o único país da União Europeia que possui arsenal nuclear. No bloco europeu, a França é o 2º país economicamente mais forte, logo atrás da Alemanha. O que se passou no seu cérebro, vc está com encefalopatia? Comeu capim estragado, é isso? Tome uma dose maciça de laxantes que passa.

  6. Olhando de longe a Le Pen tem os mesmos traços que caracterizaram o Trump, o Boris Johnson e companhia limitada (por exemplo Bolsonaro). Em comum eles tem diversos parafusos soltos na cabeça e total falta de planos sérios e viáveis para seus países. Apostam na divisão para a conquista, endereçando segmentos insatisfeitos da sociedade, muito dados ao autoritarismo e pouco dados à democracia e ao raciocínio. Torço pela França, pois uma Europa desunida com Le Pen é tudo que o Putin deseja.

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