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Twitter: a praça é nossa

A compra da rede social deixa o bilionário Elon Musk sozinho no comando do algoritmo que define o que se lê na rede social mais relevante da política, mas as suas propostas podem ajudar a construir um debate livre e civilizado na internet
28.04.22

A compra do Twitter pelo sul-africano Elon Musk, o homem mais rico do mundo, por 44 bilhões de dólares, representa o terceiro maior negócio no setor de tecnologia, depois da aquisição do WhatsApp e do Instagram. Para o mundo dos negócios, foi uma bomba. Para o mundo da política, ainda mais. É como se uma guerra tivesse sido declarada. Isso porque a decisão de Musk repercutirá nas trocas diárias de informações entre governantes, empresários, jornalistas, acadêmicos e gente comum, podendo alterar o debate de ideias em todo o mundo. Com a possibilidade de fazer ajustes no algoritmo do Twitter, Musk, sozinho, terá um poder incomparável, o que assustou muitos políticos e militantes de esquerda e entusiasmou os de direita. A histeria geral, contudo, ainda precisa passar pelo teste da realidade. O que dá para dizer é que algumas das propostas de Musk podem trazer consequências positivas e já estavam sendo cobradas por legisladores e organizações da sociedade civil. 

A  rede do “passarinho azul”, o seu símbolo, já foi considerada o patinho feio das plataformas. Em número de usuários, o Twitter está em 15º lugar. No ano passado, amargou um prejuízo de 221 milhões de dólares. Apesar dos números relativamente ruins , a rede caiu nas graças dos jornalistas, que viram nela uma maneira de divulgar suas reportagens, interagir com colegas e promover a si próprios. Alguns são tão fascinados com a ferramenta que se dedicam mais a ela do que aos veículos em que trabalham. Em seguida, chefes de governo, políticos, empresários, ativistas e acadêmicos em busca de contato com a imprensa também ingressaram no Twitter. Não demorou para que a rede social virasse também um campo de batalha ideológico. Foi esse espaço para divulgar ideias, a “praça pública” da internet, que cativou Musk. “Eu não me importo tanto com ó lado financeiro do negócio”, disse ele, em palestra feita recentemente. “É mais o meu forte senso intuitivo dizendo que ter uma plataforma pública confiável e inclusiva é extremamente importante para o futuro da civilização”. 

Ao se apoderar do Twitter, Musk pretende mudar algumas de suas regras centrais. Um dos seus objetivos declarados é o de ampliar a liberdade de expressão, pela publicação livre de mensagens, com intervenção mínima da plataforma. Embora não tenha detalhado seus planos, acredita-se que Musk abrandará as normas que dificultam a divulgação de ofensas, teorias da conspiração e “discursos de ódio“. Somente conteúdos flagrantemente contrários à lei seriam barrados. Musk também é contra o bloqueio de contas de pessoas por prazos indefinidos. Foi o que ocorreu com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em janeiro do ano passado, quando ele incitou uma turba a invadir o prédio do Congresso americano. Na ocasião, o Twitter foi a primeira empresa de tecnologia a cancelar Trump. Musk defende apenas suspensões temporárias. 

O impulso para acabar com a moderação nas plataformas assusta muita gente. Mas a possibilidade de que o Twitter se transforme em uma terra de ninguém é limitada por alguns fatores. As redes sociais passaram a moderar conteúdos porque viram seus espaços ficarem repletos de mensagens com pornografia ou com ações criminosas, como a venda de produtos piratas. A disseminação de fake news e discursos de ódio tornou a questão ainda mais complexa, porque o entendimento sobre o temas difere bastante ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a liberdade é quase irrestrita. Outros países já aprovaram leis ou jurisprudência que obrigam as companhias a serem ativas em seu trabalho de moderação. França e Alemanha, por exemplo, têm regras bastante rigorosas. No Brasil, é o Judiciário que tem estabelecido as principais barreiras.

Outro limitador é mercadológico. Uma anarquia geral tornaria o ambiente digital do Twitter tóxico para os seus usuários, que migrariam para outras plataformas. Anunciantes também abandonariam o barco. Vários deles, como Walmart, Coca-Cola e Starbucks já boicotaram o Youtube e o Facebook, insatisfeitos com a qualidade do conteúdo nessas redes. 

Hoje, o Twitter tem em seu site documentos longos para definir em qual situação uma pessoa ou uma conta deve ou não ser punida e de que forma. Nos últimos cinco anos, equipes de especialistas foram contratadas para melhor calibrar essa vigilância. “O maior medo é que ninguém tem ideia de como Musk colocará em prática sua visão de liberdade de expressão. Se ele aplicá-la de maneira absoluta, sem qualquer limite, isso afetaria os demais direitos das pessoas, como o da integridade física ou o da privacidade”, diz Christian Perrone, coordenador de direito e tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS), do Rio de Janeiro.

As propostas de Musk apontam, no entanto, para uma boa direção. Uma delas é a de autenticar todos os usuários. Na comparação com os concorrentes, o Twitter tem sido mais relaxado nesse quesito. É muito fácil alguém criar uma conta anônima ou com um pseudônimo. As contas verificadas, que requerem mais dados pessoais e trazem um selo azul do lado do nome, são dadas em raras ocasiões: para governos, empresas, organizações de notícias e jornalistas, celebridades dos setores de entretenimento e esportes, além de ativistas. Para todos os demais, esse privilégio não existe. No Facebook, as exigências são maiores, o que faz com que cada conta corresponda a uma pessoa real ou, no caso das empresariais, tenham um responsável por trás. “Se todas as contas forem autenticadas, ficará muito mais fácil para a Justiça identificar e responsabilizar alguém por algum crime cometido no ambiente virtual”, diz o advogado Marcelo Chiavassa, professor de direito digital na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Seria de esperar também que, sem a proteção do anonimato, as pessoas fossem mais conscientes ao se manifestar, criando um espaço mais saudável de discussão. 

Musk também fala em acabar com os bots, ou robôs. Essas contas publicam textos de forma automática, sem a intermediação de uma pessoa. Em geral, são usadas para promover algumas hashtags e, com isso, fazer com que um determinado assunto entre na lista dos mais populares da rede. Equipes que orbitam o presidente Jair Bolsonaro são mestres em usar esse recurso, ao divulgar expressões como #EuConfioNoPresidente e #TodosComBolsonaro. Lula também conta o seu exército de robôs, para “levantar” hashtags. Se Musk for eficiente na caçada aos robôs, ele impediria essas distorções indevidas.

Uma terceira medida, não menos importante, é a sua promessa de abrir o algoritmo que calcula quais posts devem ganhar maior visibilidade e quais devem cair no esquecimento. A revelação desses códigos é uma antiga reivindicação de várias organizações civis e permitirá saber como a máquina do Twitter trabalha. É uma operação que envolve riscos. Um deles, o de que companhias usem o algoritmo para criar redes rivais. O outro, de que pessoas descubram falhas e as usem em proveito próprio. O principal benefício dessa ação, que seria inédita entre as empresas de tecnologia, seria o de dar transparência ao mecanismo de distribuição de conteúdos e acabar com constantes acusações de favorecimento para um ou outro político. “Para o Twitter merecer a confiança do público, ele precisa ser politicamente neutro, o que significa incomodar igualmente a extrema-esquerda e a extrema-direita”, escreveu Musk na rede, nesta quarta (27). 

A desconfiança com a promessa de neutralidade de Musk é natural, porque seu comportamento digital não tem nada de comedido, bem de acordo com o seu espírito provocador. Ele foi o primeiro a compartilhar no Twitter um estudo com falhas metodológicas, dizendo que a cloroquina seria eficiente contra a Covid. Foi a partir daí que Trump e Bolsonaro passaram a promover esse remédio. Também é antivax. Dois dias antes do anúncio da compra do Twitter, Musk publicou uma foto de Bill Gates barrigudo e escreveu: “Para o caso de você precisar perder uma ereção rápido”. Na quinta, 28, falou que iria comprar a Coca-Cola para colocar cocaína de volta na bebida. 

Abrir o algoritmo do Twitter pode acalmar os críticos que se preocupam com o uso partidário da ferramenta. Porém, ao fechar o capital da empresa e tirá-la da Bolsa, Musk terá liberdade para fazer o que bem entender. Por um lado, ao eliminar a necessidade de pagar dividendos aos acionistas, Musk poderá fazer ajustes no algoritmo sem pensar no lucro. Em vez de promover mensagens que apelam às emoções e que polarizam o debate, que ganham mais engajamento, ele poderia tentar um equilíbrio saudável em sua rede. Se o foco for tirado da audiência, isso reduziria a dependência dos anunciantes. “O funcionamento do Twitter como empresa sempre foi meu único problema e meu maior arrependimento. Ele foi dominado por Wall Street e pelo modelo de anúncios. Retomá-lo de Wall Street é o primeiro passo”, escreveu o cofundador do Twitter Jack Dorsey, em uma série de mensagens que mostravam seu otimismo com a aquisição da plataforma por Musk.  

Ao ser o único dono de uma rede social, Musk concentrará um poder maior que o dos magnatas da mídia. Empresários como William Randolph Hearst e Rupert Murdoch sempre foram acusados de manipular a opinião das pessoas. A ação deles, porém, era editorial: decidiam que matérias seriam ou não publicadas e com qual importância. A situação atual é de outra dimensão. Mesmo sem produzir conteúdo, ele poderia definir quais assuntos terão uma audiência ampla ou não. Se cumprir a sua promessa de mais transparência e certificação, contudo, esse perigo estará afastado e o Twitter será menos terra de ninguém tanto para a direita quanto para a esquerda. Uma revolução pode estar a caminho.

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  1. Eu não compro Tesla, nem faço viagem espacial pela Space X e agora cancelei a minha conta no Twitter. Sem a liberação geral, as Fake news já são propagadas, imagine com tudo liberado. O que me irrita nas Fake news é que mesmo as mais absurdas, tem gente que acredita. Não me interessa se é de esquerda ou direita, nem sei se isto ainda existe, pois nem sei mais que lado defende o assistencialismo, ditaduras, corruptos, "a família" ou é contra a privatização e a educação. É tudo igual.

  2. Espero que seja a reação de bilionários que pelo menos produzem bens reais e não o vendedores de fumaça, fantasia , ilusão de estar conectado (ZUCKERBERG, BIL GATERS , ESPECULADOR JORGE SOROS, etc) que querem controlar o pensamento e costumes mundiais. Parece que os BI escolheram o Futebol como esporte que devemos praticar .. Gostei , pior seria RUGBI ou CRICKET .. A nova onda é comprar clubes tradicionais que tem torcedores mas faliram .

  3. AGORA EU QUERO VER O STF > ALEXANDRE DE MORAES PROCESSAR O ELON MUSK POR ABUSO DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO QUE TANTO O STF COMO PT QUER CONTROLAR.

  4. É paradoxal, senão cômico, esperar que esse tal trilionário do dólar- deu 200 milhoes pelo “negócio” e não se importa com ganhar com ele, seja tido pela mídia o libertário de censura que se alastra, tal covid, pelas tais redes sociais. Já me preparo para assistir essa tragicomedia. Uma opinião: nunca vi uma midia tão sem leitura e completamente tonta. Sao os robôs ?

  5. Pra ser mais sincera do q deveria, td q sei sobre Elon Musk está nessa reportagem (obrigada, Duda🙂). De primeira, penso q um cara antivax, q faz um comentário como o q ele fez sobre Bill Gates (ñ dá nem pra chamar de comentário...) e sobre a coca-cola, é só um bocó sem ter o q fazer, mas o bocó em questão é o cara mais rico do mundo (bocó sou eu!😒). Em td caso, não acho q dá pra acreditar! É muito poder nas mãos de um homem... bocó! Parabéns, Duda! A reportagem ficou bem legal!

  6. Liberdade dentro das leis e responsabilização dos participantes. Essa é uma boa iniciativa para o bem da civilização. Amém.

  7. Não é saudável que uma pessoa só detenha tanto poder. Embora o discurso de incomodar tanto a direita quanto a esquerda seja animador, o seu comportamento arrogante e imoderado preocupa quanto ao direcionamento que ele pode imprimir à plataforma

  8. Pode até ser que o Elon Musk queira passar para a história como o paladino da liberdade de expressão, mas duvido que isso seja compartilhado por outros investidores que colocaram $$ tanto no Tweeter, como mas outras empresas. A Tesla perdeu em valor de mercado pelo menos 5 vezes o preço pago pelo Tweeter, que já era uma empresa deficitária. Será que o seu idealismo (liberdade de expressão) supera tudo isso?

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