Reprodução/Twitter/Jean-Luc MelenchonMelénchon: um personagem de esquerda disruptivo a ponto de ser muito parecido com a direitista Marine Le Pen

O beco sem saída da esquerda francesa

Sem votos, os socialistas firmam um acordo que muitos consideram "suicida" com Jean-Luc Mélenchon, que quer ser primeiro-ministro da França, em coabitação com o adversário Emmanuel Macron. Se ele conseguir, a extrema-esquerda ganhará estímulo na Europa e na América Latina
05.05.22

Depois de derrotar pela segunda vez Marine Le Pen, de extrema-direita, e vencer a eleição presidencial na França, em abril, Emmanuel Macron tem pela frente um adversário cujos decibéis estão aumentando significativamente: Jean-Luc Mélenchon, de extrema-esquerda, que quer “refundar” tudo: da república francesa à União Europeia. Terceiro colocado na eleição para o Palácio do Eliseu, ele quer se tornar primeiro-ministro do país e, para isso, trabalha para que o seu partido, La France Insoumise (A França Insubmissa), vença as eleições legislativas de junho. Ele poderia ser indicado, assim, para ser o ocupante do Palácio de Matignon e governar o país, juntamente com Emmanuel Macron, em regime de coabitação. Para Jean-Luc Mélenchon, as eleições legislativas serão o “terceiro turno” da eleição presidencial. Marine Le Pen, do Rassemblement National, também quer conquistar o cargo, mas as chances do político de extrema-esquerda são maiores, inclusive porque ele está ampliando o seu arco de alianças.

O sistema francês é o semipresidencialista. Nele, tanto o presidente como o primeiro-ministro têm funções governativas e podem ser de partidos antagônicos. Como sintetizei em O Antagonista, “na Quinta República francesa, inaugurada por Charles de Gaulle em 1958, quando o general foi eleito sob uma nova Constituição que deu mais atribuições ao Executivo, houve três coabitações. A primeira ocorreu entre 1986 e 1988, com o presidente socialista François Mitterrand e o primeiro-ministro republicano Jacques Chirac. A segunda aconteceu entre 1993 e 1995, com o presidente François Mitterrand e o primeiro-ministro republicano Édouard Balladur. A terceira ocorreu entre 1997 e 2002, com o presidente Jacques Chirac e o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin. Em todas elas, houve trepidações, mas os partidos e os personagens em questão eram figuras do establishment, nenhum deles tinha um caráter disruptivo”. O problema, neste 2022, é que Jean-Luc Mélenchon é disruptivo a ponto de ser muito parecido com Marine Le Pen, como na aversão à União Europeia e na recusa a aumentar a idade mínima para a aposentadoria, numa ilustração perfeita da teoria da ferradura, segundo a qual os extremos se aproximam.

O cardápio de Jean-Luc Mélenchon, de 70 anos, é o basicão da velha esquerda revolucionária que se traveste de democrática: o  do “nós contra eles“. Ele odeia o capitalismo, acredita em socialismo à la União Soviética, quer reduzir o tempo de trabalho dos franceses, mas aumentar os salários, prega a “desobediência” às regras da União Europeia “neoliberal“, promete retirar a França da Otan (“uma organização inútil que provoca tensões“), é amigo de ditadores – e, obviamente, enxerga “fascismo” em qualquer pessoa, agremiação ou corporação a que a ele se oponha. Em 2018, o Ministério Público e a polícia cumpriram um mandado de busca e apreensão na sede do partido de Jean-Luc Mélenchon, em Paris, numa investigação sobre pagamentos ilegais na campanha de 2017. Juntamente com outros integrantes de La France Insoumise, ele decidiu entrar à força no local que estava sendo revistado pelos agentes públicos e empurrou um procurador e um policial. “Não somos criminosos, não somos bandidos! Vocês me impedem de entrar em nome do quê? Sou um parlamentar, vocês são policiais republicanos! A República sou eu!“, berrou o Luís XIV da extrema esquerda. Foi condenado a três meses de prisão, com sursis, por atos de intimidação, rebelião e provocação, e ao pagamento de uma multa de 8 mil euros. Os outros “resistentes” também foram condenados. Uma investigação foi aberta, em 2019, para verificar se as multas haviam sido pagas com dinheiro do partido, o que é proibido, mas a Justiça acabou arquivando o processo no ano seguinte.

Jean-Luc Mélenchon é oriundo da ala radical do Partido Socialista, quando havia realmente uma, de onde saiu em 2008, para fundar o Parti de Gauche (Partido de Esquerda), pelo qual foi eleito eurodeputado duas vezes. Ainda no Partido Socialista, foi ministro no gabinete de Lionel Jospin. O La France Insoumise foi fundado em 2016. Na eleição presidencial deste ano, Jean-Luc Mélenchon quase chegou ao segundo turno, com 22% dos votos, ficando apenas a um ponto de Marine Le Pen. Um terço do seu eleitorado tem menos de 30 anos. O crescimento de La France Insoumise contrasta com o encolhimento do Partido Socialista, que era o grande partido da esquerda francesa e hoje pena para sobreviver nacionalmente – a sua candidata na última eleição presidencial, Anne Hidalgo, a pior prefeita que Paris já teve, amealhou ridiculamente 1,75% dos votos.

Fórum Econômico MundialFórum Econômico MundialMacron: costura de apoios na centro-direita para deter Mélenchon
Sem votos, o Partido Socialista, para sobreviver, não encontrou outro caminho do que se aliar ao extremista Jean-Luc Mélenchon, com o qual firmaram um acordo validado nesta quinta-feira, por 62% dos integrantes do seu conselho nacional. Verdes e comunistas também aderiram à coalizão comandada pelo líder de La France Insoumise, a Nova União Popular Ecológica e Social. Muitos socialistas julgam o acordo “suicida” e uma “humilhação“.  Para eles, o caminho da aliança com Jean-Luc Mélenchon levará a um beco sem saída, no qual a renúncia a valores social-democratas e europeístas implicará a negação da sua história e o desaparecimento da sigla. O ex-primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault afirmou que o casamento de conveniência com La France Insoumise é um “remendo de custo exorbitante“. Outro ex-primeiro-ministro, Bernard Cazeneuve, deixou o Partido Socialista, por considerar a agremiação de Jean-Luc Mélenchon “uma formação política da qual tive de sofrer a violência, o abuso das posições e os insultos” e porque “continua fiel ao socialismo republicano“. Em entrevista ao jornal Le Monde, Cazeneuve afirmou que “a independência da nação jamais significou a ruptura de suas alianças militares nem a acomodação com regimes autoritários ou ditaduras no nosso continente ou em outros“. O líder de La France Insoumise é simpático a regimes como o da Venezuela e, como não poderia deixar de ser, relativiza a agressão de Vladimir Putin contra a Ucrânia.

Para fazer frente à esquerda unida de Jean-Luc Mélenchon, o presidente Emmanuel Macron costura apoios na centro-direita e também entre os socialistas descontentes com a aliança do partido com o La France Insoumise — o atual presidente, apesar de identificar-se com o liberalismo econômico, foi ministro das finanças de François Hollande, o último socialista a ser eleito para presidir a França. A coalizão que sustenta Emmanuel Macron se chama Ensemble (Juntos) e o La République en Marche, partido do atual inquilino do Palácio do Eliseu, trocou o nome para Renaissance (Renascença). Rebatizar agremiações parece ser passo obrigatório quando se fala em “refundação“, não importa o lado ideológico. Emmanuel Macron sabe que foi reeleito por causa do voto útil contra Marine Le Pen e que, nas eleições legislativas de junho, terá de se virar muito para evitar que a coalizão esquerdista não as transformem num “terceiro turno“, com o voto útil agora se virando contra ele, um presidente que uma legião de eleitores considera arrogante e culpado pela perda de poder aquisitivo.

Se Jean-Luc Mélenchon conseguir se tornar primeiro-ministro, as consequências ultrapassarão as fronteiras da França, tida como um dos faróis da esquerda mundial. A extrema-esquerda europeia e a latino-americana ganharão estímulo. A ala mais radical do PT poderá se sentir fortalecida para exigir mais espaço dentro do partido, com consequências funestas para o país, no caso de Lula ser eleito. É bom ficar de olho no que ocorrerá na França.

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  1. Tomara que MONSIEUR MÉLECHON não se torne primeiro ministro da velha França! Fico imaginando no caso de Lula ganhar, a ala mais radical do PT. ganhará maior visibilidade internacional, infelizmente, e a esquerda francesa com seus desatinos enfraquecerá mais ainda o PIB. desse PAÍS tão importante da Comunidade Européia.

  2. Jean-luc melechom e Lula tudo a ver e o Curiosamente essa revista deixa de compara-los!!! Ambos são de extrema esquerda e avessos a lei verdadeiros ditadores. ... perigosos ao ponto de escravizar seu próprio povo!!!

  3. A União Europeia é o maior projeto de paz que o mundo já viu e que vem dando certo apesar de seus altos e baixos. Baseado em livre comércio e prosperidade econômica, não possui ideologia, mas se alinha muito mais a um pensamento de centro do que a qualquer extremo. Extremos são disruptivos e não combinam com o projeto da UE, daí o Brexit (já amplamente fracassado), os casos da Hungria e em menor dimensão a Polônia. É obvio que nada é certo, mas a UE ajuda com sua inércia centrista.

  4. Época de extremos em muitas democracias. Sinal preocupante de que o centro democrático ( de esquerda ou direita) não está conseguindo se conectar com boa parte do povo. Hora de se fazer uma reflexão mais profunda e sair dos modelos tradicionais e ampliar a pauta. Capitalismo com responsabilidade social e ambiental é minha receita. E denunciar esse radicalismo woke que traz o divisionismo esquerdista para temas que deveriam ser tratados buscando inclusão sem raiva e sim de forma positiva . Por ai

  5. Como Moro, a última esperança de uma boa camada de brasileiros desenganados, caiu na armadilha de seus inimigos políticos, com sua proverbial boa-fé, e encontra-se emparedado num partido de “ocasião”, quase sem chances para disputar uma eleição majoritária, a “vaca está indo pro brejo”. Se Lula for eleito, como sinalizam as pesquisas de sempre, organizadas pela esquerda, estamos, nós, brasileiros e Brasil, a poucos milímetros do precipício. Essa tal terceira-via foi pras cucuias.

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