Reprodução/Ezra MagazineTraverso: "Todas as pessoas comprometidas com a democracia precisam reafirmar o direito dos ucranianos de se defender"

“A candidatura de Lula não renova a esquerda”

O filósofo italiano Enzo Traverso afirma que a melancolia é um dos traços que definem a esquerda e diz que o líder petista é exemplo da "rotinização do carisma"
05.05.22

O filósofo italiano Enzo Traverso, de 64 anos, notabilizou-se por sintetizar, em duas palavras, o estado de espírito de quem acreditou nas promessas do socialismo no século XX e então assistiu à sua falência: “melancolia de esquerda“. Esse é também o nome de seu livro mais conhecido, disponível no Brasil pela editora Ayinê. Ele mesmo um melancólico de esquerda, Traverso acredita que a superação do luto, entre os mais velhos, e a conexão com o passado, entre os mais jovens, são indispensáveis para que a esquerda encontre um novo discurso e volte a ter o poder de inspirar (o que, obviamente, só pode ser esperança de quem compartilha da mesma visão de mundo).

Atualmente professor da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, Traverso é autor de diversas outras obras — “As Novas Faces do Fascismo” e “Onde Foram Parar os Intelectuais” também foram lançadas no Brasil, sempre pela Ayinê. Nesta entrevista, ele defende a busca por novas utopias no espectro ideológico ao qual pertence e diz que a candidatura de Lula não aponta um caminho para o futuro da esquerda.

A esquerda de hoje é melancólica?
A melancolia pertence à natureza humana, está ligada a experiências de perda e luto. A melancolia de esquerda, portanto, nasce da constatação de que o ciclo de revoluções inspiradas pelos ideais de esquerda no século XX se exauriu e em quase toda parte acabou em derrota. Esse sentimento profundo de perda marca pessoas da minha geração, que participaram da história da esquerda no fim do século XX, mas não define os jovens que começaram a se engajar na política na última década. Meu livro é um ensaio histórico e não uma tentativa de capturar o presente. Mas creio demonstrar, também, que o luto serve para “elaborar” o passado, como dizem os psicólogos, e liberar as pessoas para continuar vivendo e criar o futuro. Ele não é incompatível com a ação, com a participação no que está acontecendo agora e com a busca por novas utopias.

Se não é a melancolia, o que define a esquerda contemporânea?
Movimentos como Indignados, na Espanha, Coletes Amarelos, na França, Vidas Negras Importam e Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, têm em comum a busca por uma alternativa à ordem capitalista, centrada na preocupação com o meio ambiente e com as condições de sobrevivência em nosso planeta. Os participantes desses movimentos, que enxergo como uma constelação, têm uma noção muito clara de que o futuro pode ser catastrófico. Eles não carregam as ilusões que encontramos em momentos anteriores de radicalização política, quando as pessoas acreditavam que o futuro pertencia a elas e ao socialismo. Mas a falta de conexão desses jovens com a história da esquerda no século XX também representa um problema. Politicamente, isso os deixa órfãos, o que pode minar as suas energias. Quando escrevo sobre a melancolia de esquerda, de certa forma procuro ajudá-los a criar uma ligação emocional e intelectual produtiva com o passado.

No último domingo, Lula discursou para uma plateia de sindicalistas e militantes de esquerda e mencionou os principais itens de sua plataforma eleitoral: pôr comida na mesa de todos, criar empregos, melhorar a renda dos trabalhadores, revisar uma reforma recente da legislação trabalhista, garantir a existência dos sindicatos, barrar privatizações. Essa é a plataforma de esquerda contemporânea?
Plataformas eleitorais respondem a necessidades de um certo momento e lugar. Se problemas do século XIX ligados à pobreza e às condições de trabalho retornaram, ou nunca chegaram a ser resolvidos, é natural que uma candidatura de esquerda os combata. A questão de Lula, a meu ver, é que ao ser uma figura cuja influência se projeta para muito além do Brasil, ele também é uma figura histórica. Vemos nele aquilo que o sociólogo alemão Max Weber chamou de “rotinização do carisma“. As pessoas são cativadas por Lula, é bem provável que ele ganhe a eleição, mas ele não representa qualquer tipo de renovação política. Em vez de apontar caminhos para o futuro, sua candidatura é sintoma da crise da esquerda brasileira e latino-americana.

Numa entrevista que concedeu à revista Time nesta semana, Lula diz que a responsabilidade pela invasão da Ucrânia não pode ser atribuída apenas a Putin e a Rússia, mas deve ser compartilhada pela Otan e até mesmo por Volodymyr Zelensky. O senhor concorda com essa tese? 
Eu não tenho uma posição neutra em relação a essa guerra. Temos uma situação muito clara, em que existem um país ocupante, a Rússia, e um país ocupado, a Ucrânia. Putin violou as fronteiras de uma nação soberana e todas as pessoas comprometidas com a democracia precisam reafirmar o direito dos ucranianos de se defender, inclusive com armamentos fornecidos pelo Ocidente. Ao mesmo tempo, eu acredito que existe uma confusão entre a luta legítima dos ucranianos e a luta que a Otan está fazendo contra Putin por meio da Ucrânia. Mas isso não é incompatível com o fato de que os armamentos fornecidos pela Otan, neste momento, ajudam a Ucrânia numa causa justa. Reconhecer esse fato não é a mesma coisa que levar uma bandeira da Otan para uma manifestação.

A esquerda teve algum papel na ascensão de personagens como Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Donald Trump e Marine Le Pen?
É impossível pensar no surgimento dos radicais de direita sem levar em conta a derrota histórica da esquerda. Personagens como esses que você citou ocuparam uma função que costumava ser dos políticos de esquerda, qual seja, a de representar aqueles que foram duramente atingidos pela globalização e pelo capitalismo. O caso de Bolsonaro talvez seja um pouco diferente, pois sua ascensão está ligada a uma crise profunda no sistema político brasileiro. Mas minha observação é correta para a Europa e os Estados Unidos. A eleição de Trump em 2016 é um caso exemplar. Enquanto a democrata Hillary Clinton parecia associada aos interesses de Wall Street naquela eleição, Trump falava para pessoas que perderam seus empregos quando inúmeras indústrias faliram, acarretando a formação do Cinturão da Ferrugem. Le Pen, na França, também recebe apoio de uma classe média empobrecida, que perdeu status. A esquerda deixou de falar para essas pessoas e a direita ocupou esse espaço.

O modelo chinês é uma alternativa para a esquerda?
A China, a meu ver, é somente a prova de que o capitalismo pode funcionar associado a qualquer tipo de regime político. Ele pode funcionar com Emmanuel Macron ou com Viktor Orbán, com Bolsonaro ou com Xi Jinping. Temos na China um capitalismo autoritário levado ao extremo, ao paroxismo. A China não é uma alternativa que a esquerda possa aceitar.

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  1. Acho estúpido pensar que a solução, apesar das derrotas históricas da esquerda no planeta, os saudosistas, por causa do título de intelectual, estará no socialismo. Permanecem melancólicos?

  2. O entrevistado mostrou muita lucidez e uma visão correta do que se passa no mundo. Apenas acho que chegou a hora de parar de falar em esquerda e direita e falar em como fazer chegar comida à mesa de todas as pessoas! Tanto direita quanto esquerda não resolveram o problema da fome, da moradia e do trabalho, os três pilares de sustentação do ser humano. Falharam em todos os aspectos. Já deveriam ter se convencido de que ideologia sem resultado prático não serve pra absolutamente nada!

    1. Concordo totalmente. Saco cheio dessa conversa fiada de direita, esquerda, centro, centrão, etc. Os países precisam de políticos administradores que enfrentem os problemas de seus povos eliminando desemprego, corrupção e fornecendo educação de qualidade.

  3. A sociedade próspera baseia-se na liberdade, na propriedade, na preservação da vida e seus meios no planeta, no caráter do indivíduo, de sua família e do grupo, é produtivo para si e para os seus próximos, é instruído e usa seus saberes individuais e coletivos para a construção de seu bem estar e seu desenvolvimento.Ao Estado cabe a igualdade das condições de partida ao indivíduo. Não sendo senhor,mas servo da Nação.Certamente Lula não age ou pensa assim,. Está provado.

  4. Todos querem viver bem.Este estado de bem estar é alcançado pela ativação das capacidades do indivíduo e do grupo a que pertence..O marxismo russo e chinês originais buscaram tomar dos que tinham e dar aos que não tinham,trazendo todos â pobreza, exceção da classe dirigente, que se tornou rica e poderosa pois tinha que gerir o governo em nome dos camaradas trabalhadores que tinham que trabalhar para produzir a riqueza.Mas os diretores exploravam. Este é o fato.Espero que não o nosso futuro.

  5. Acho q esses termos: direita e esquerda , não nos ajudam, nem nos servem. Abraçam e acatam incoerências por causa de uma ideologia e apontam o dedo para o inverso para justificar e minorizar as próprias trapalhadas e desastres. Mas gostei muito da entrevista! O cara sabe o que diz! Parabéns!

  6. Talvez, só talvez, o capetalismo não seja o mal.. talvez, só talvez, sem riquezas ñ seja possível pensar no bem, mas tão somente no estômago.. talvez o maniqueísmo seja bem mais prejudicial do q qq forma de capetalismo... enfim.. a esquerda, a direita, ou qq diagonal ñ tem a menor capacidade de distribuir renda num país q ñ prospera pelo trabalho e pelo desenvolvimento tecnológico.. boa sorte aos q ñ desenvolveram o juízo.

    1. Tu tá certa.. por aqui é “capetalismo” mesmo.. tudo obra do “capeta”..

  7. Ao menos a esquerda conseguiu deixar alguns países com um bem estar social decente. Não foi o caso dos países latino americanos. Mas a direita daqui se mostrou bem pior.

  8. Estranho mencionar o Black Lives Matter depois que flagaram os chefões tomando champagne na mansão multimilionária que compraram em Los Angeles com o dinheiro das doações. Se eu soubesse que dava pra encher os bolsos desse jeito, teria eu mesmo entrado pro movimento.

  9. Bom é esquerdista quando alguém paga o seu salário. A esquerda quer o fim da livre iniciativa para depois perceber que não há viabilidade no seu modelo. Duzentos anos repetindo o erro.

  10. Admirável o entendimento do prof. Traverao sobre a situação de "profunda crise política" no Brasil. Também clara é sua visão se que Lulalau é um surfista anacrônico em uma nação anacrônica. Paramos no tempo na nossa evolução política por extrema carência de líderes verdadeiros. Sem solução do imbróglio político, então sem progresso.

  11. Mais que melancolica nossa E é ressentida,e o ressentimento é destrutivo e na sua esteira cria o cinismo que é o negacionismo lulopetista. Lula é inocente: cinismo Lava jato criminalizou a politica: cinismo Lava jato tentou punir a bandidagem: venceu o cinismo

    1. Excelente entrevista com o professor Enzo Traverso, concordo com ele quando ele fala de uma esquerda melancólica. As esquerdas latinas americanas simbolizam isso, quando não conseguiram resolver seus problemas do capital e trabalho. Uma verdadeira aula.

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