MarioSabino

Pergunte ao pó

12.05.22

Nos fins de semana, como acho que já escrevi, gosto de passear pelo Jardim Europa e pelo Jardim Paulistano, aqui do lado de casa, em São Paulo. Quando estou com o Napoléon, o meu York, eu o levo até uma pracinha, onde me sento num banco e ele fica me olhando, com cara de enfado. Se uma criança chega perto, ele rosna. Yorks não apreciam crianças. O Napoléon não gosta de sair do Itaim Bibi. Basta eu atravessar a avenida Nove de Julho e ele começa a empacar. As calçadas de um bairro agitado devem ser mais divertidas, do ponto de vista e olfativo de um cão.

Com ou sem Napoléon, eu faço o meu passeio. Sem ele, ando mais. A média de passeios é de um por mês. Gosto de olhar as casas antigas e compará-las com as novas. As casas antigas tinham muros baixos, que deixavam as construções à mostra; as novas são cercadas de paredões que não deixam ver nada. Segurança, eu sei, mas não é esse assunto que quero abordar. O que me impressiona mesmo é como os ricos de um passado pouco remoto não tinham tantas exigências de luxo como os de hoje. Não que não gostassem de luxo, mas parecia ser um luxo mais comedido, e eu já falei sobre isso, não vou me repetir. Talvez porque, ocorre-me agora, não houvesse tanta tecnologia para diferenciar o mecanismo de uma torneira de uma casa de classe média do de uma torneira de uma casa de rico, sei lá. Ou talvez as exigências sempre tenham sido a mesmas e, nos tempos que correm, se assuma mais a diferença entre ricos e não ricos, da forma descrita em A Cama de Procusto, livro de aforismos de Nassim Taleb: “A modernidade precisa entender que ser rico e ficar rico não são, em termos matemáticos, sociais e éticos, a mesma coisa. Corolário: se você socializa com alguém cuja conta bancária é menor que a sua, é obrigado a conversar como se tivesse exatamente os mesmos recursos, a comer nos lugares onde o outro come e a nunca mostrar as fotos das suas férias na Provença ou qualquer coisa que indique diferença de posses”.

Há alguns meses, eu estava conversando com a mãe de um amigo meu, a senhora mais elegante que conheço, que vendeu recentemente uma casa no Jardim América, grudado ao Jardim Europa. Ela provocou um incêndio no Hotel Ritz, de Paris, onde passou a lua-de-mel, nos anos 1950. A mãe lhe deu um frasco de álcool (você é capaz de imaginar alguém hoje pegando um avião com um frasco de álcool?) e recomendou que a filha desinfectasse o banheiro do quarto, assim que chegasse. O banheiro do Ritz, imagine. A jovem derramou o álcool na banheira, acendeu um cigarro e, na obviedade da reação química de combustão, causou o incêndio. O fogo queimou a tubulação do hotel, mas nada de pior ocorreu. A elegância da mãe do meu amigo está também no fato de ela relatar histórias como essa em voz baixa e impassível.

Na última vez em que estive em Paris, fui tomar um café no Ritz. Fiquei observando uma linda moça, de uns 40 anos, com um menino de pouco mais de um ano num carrinho, sentada a uma mesa. Um homem mais velho chegou, ambos se beijaram como amigos, ela parecia nervosa, o homem brincou com o menino, a quem parecia ver pela primeira vez, e entabulou um conversa sorridente com a moça. O encontro durou vinte minutos, se tanto. Antes de ir embora, a moça beijou o homem na boca, ambos atrás do carrinho com o menino. O homem ficou mais um pouco no Ritz, provavelmente para evitar ser visto juntamente com ela na Place Vendôme. Foi uma cena parisiense do corolário de Nassim Taleb, porque era evidente que ele era mais pobre, o verde do seu cartão de limite baixo, com o qual pagou a conta, longe de ser o verde das esmeraldas que a adornavam. Mas saí do Ritz certo de que aquela linda moça era tão elegante quanto a mãe do meu amigo — e que amava e era amada pelo homem mais velho e mais pobre, para além do que a modernidade poderia compreender.

Divago. A senhora mais elegante que conheço apareceu neste artigo por causa da venda da sua bela e antiga casa. Trocou-a por um apartamento mais compatível com a sua idade e com a sua solidão bem cercada de filhos amorosos. Ela me contou, num desconsolo bem composto, que o comprador derrubara a casa, com os mármores, a marchetaria, os azulejos artísticos. Tudo virara pó, nada fora aproveitado. Nos meus passeios, vejo que várias casas têm virado pó. Nesses bairros, não se compra mais a casa, mas o terreno, e por muitos milhões de reais, onde são erguidos verdadeiros bunkers. Há casos em que terrenos vizinhos se tornam propriedade contígua e, onde havia uma casa, é plantado um imenso gramado.

Não estou sugerindo tombamento, não, pelo amor de Deus. Tombamento pode ser uma forma de apropriação indébita, e já há gente demais querendo se apropriar indevidamente de propriedade alheia. Que façam o que quiserem com as casas, inclusive porque nem todas têm valor arquitetônico, visto que o nosso mau gosto vem de longe. Eu só fico com pena de ver tantas demolições, porque montei a minha paisagem interior emprestando essa paisagem exterior de bairros ao lado dos quais sempre morei — e cuja tranquilidade e prosperidade sempre invejei, com as suas casas visíveis por entre árvores, com os seus barulhos familiares que vazavam das janelas recuadas, com os seus cães que ficavam nas grades dos portões, esperando para latir para quem passava pela rua, como eu, nos meus passeios solitários desde que era menino e não tinha um Napoléon.

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  1. Bom dia, Sabino! Aqui falamos de gostos e desgostos, da necessidade de sermos felizes nesse País de incertezas. Vale salientar que hj vc despertou muitas saudades em mim. Dessa cidade como um todo, com todas as contradições, mas, de tudo que vc. falou, principalmente, Jardim América. Sem dúvida, Jardim Europa e Jardim Paulistano, além de lindos, passam muita paz. Em relação à casa vendida, posso imaginar o que a ex- proprietária sentiu. Senti algo parecido, quando a casa dos Matarazzo, na av

    1. Continuando: na av. Paulista, virou pó. Embora nunca tenha tido uma casa como essas, não tenho nenhuma frustração por isso. Por isso amo tudo que é belo, amo arte, e lamento a destruição de tudo que é belo e nos traz lembranças de um tempo, de bom gosto , educação e um mínimo de refinamento que fcilitava os relacionamentos. Obrigada pelo texto.

  2. Já gostei dos artigos, não mais, divergências insanáveis de ideias, mas vez ou outra ainda leio. Nesta semana talvez tenha faltado assunto ao articulista. Leio também os comentários sempre cheios de confete e purpurina porque a claque não tem estofo intelectual para discordar. Mário Sabino e seu rebanho próprio que só diz amém. Um leitor anotou algo interessante: cuidado com os criminosos travestidos de entregadores de comida, um deles ceifou a vida de um rapaz de 20 anos por um maldito celular.

    1. Muito obrigado pelo extenso comentário à minha falta de assunto, Alessandro. Até que rendeu.

    2. Aproveitando a menção ao escabroso caso do latrocínio - teco na fuça de um jovem de 20 anos, mister recordar as falas do ex-presidiário de estimação do pop que acha “um absurdo a polícia esculachar um jovem SÓ porque ele roubou um celular” (ou relincho parecido). Está na rede para quem duvidar… este é o futuro presidente desta m*, “o cara” que odeia leitura, odeia a classe média, odeia a Polícia, que rapinou o bolso dos contribuintes e que, óbvio, não se furta a defender os seus iguais. .

  3. Impressionante você ainda sair de casa em São Paulo. Quase ninguém mais anda pelas ruas desta cidade, salvo por obrigação. Cuide-se melhor.

  4. É que Narciso acha feio o que não é espelho. Morei na França por dois anos durante meu doutorado. A casa que eu alugava tinha mais de 280 anos e seus proprietários se orgulham disso. O terreno para o jardin potageur era de um farmacêutico, que lá chamam de burgueses. A casa da sua noiva, outra farmacêutica, era tão antiga ou mais que a minha. Eles se orgulham de morar em casas antigas. Uma longa história pra descrever casa detalhe. Enfim, é que Narciso acha feio o que não é espelho.

  5. Eu gosto de sentir nostalgias. Mas, como uma leitora atenta, recomendo-lhe o romance I Vecchi e i Giovani, de Luigi Pirandello (a nostalgia siciliana entre a paisagem e nossa memória). Como escritor não precisa mais procurar um autor. Abs e afagos no Pétit Capaoral (Napoleon).

  6. Seu texto, impecavelmente escrito, como sempre, toca na ferida que mais me atordoa: a desqualificação e ignorância cultivadas de nossa elite de dinheiro. Triste demais. Um país espelha em medida fundamental sua elite. Estamos mal demais.

  7. Seus textos me tocam profundamente. É tanta delicadeza, cuidado com a escolha das palavras, que você expressa perfeitamente a perplexidade e estranheza que tomam conta de nós que passamos para o segundo tempo

  8. Mario, para mim, você é elegante - elegantíssimo e enigmático. Mas descubro que tbm é um romântico: o valor da moça apaixonada pelo dono da conta bancária mais modesta, a comedida nostalgia das casas antigas... O que não conheço de você, intuo e confirmo pelo Diogo o chamar de irmão.

    1. Comentário derradeiro, perfeito.

  9. Qdo se derruba uma casa, há a demolição da história, muitas vezes, de um único clã. Sem contar q, para um idoso, é doloroso sair de uma casa para se enjaular num apartamento por mais luxuoso que este seja.

  10. Que belo texto. Sinto o mesmo , nostalgia das casas que são substituídas por prédios com apartamentos minúsculos e lucrativos . Mas, como você , acho que tombamento pode ser uma forma de apropriação indébita. Então, ficamos com seu belo texto pra refletir, lamentar.

  11. Rabino,você tem o dom de expressar o cotidiano de muitos de nós com uma peculiar sensibilidade. Sinto o mesmo quando revejo os lugares da infância e juventude. Menos que você, o Aznavour em La Bohème, mais pra Marguerite Yourcenar em Hiroshima mon amour. Parabéns por mais um conto que o levará à imortalidade.

  12. No bairro de classe média alta onde moro em SP, a quantidade de prédios que sobe é absurda. Casas e pequenos comércios, que resistiram durante muito tempo, parece que se renderam durante a pandemia. Demolições e mais demolições. A paisagem vai mudar para sempre.

  13. Mário sendo Mário. Sim , nossas casas interiores vem sendo demolidas e os prédios que surgem no seu lugar não tem nada de arquitetônico , nada .

    1. Nas escolas, Nas ruas, Campos, Construções Caminhando e cantando e seguindo a canção..

  14. Outro dia passando em frente a um prédio em construção no Carmo-Sion, bairro da zona sul de Belo Horizonte que ainda tem muitas casas (não mansões) percebi que ao lado dele, na mesma rua, havia outras casas. Eu pensei logo numa fila de bois indo para o matadouro...

  15. Mário tenho um nó no coração ao acompanhar essas demolições pq fico pensando em qtos sonhos, qta luta e qto trabalho p se erguer uma casa de sonho! Acho q sinto isso, tb, por sonhar c a minha e... ela ainda ser um sonho😒. Td vira pó, s dó! Acho q só alguém q teve dinheiro muito fácil pode demolir tanta história s + ou porquê! Aki muitas viram estacionamento🙄. Mas e a história do casal? Ñ entendi! P q ela estava nervosa? Pq ñ saíram juntos? P q o cartão era importante? E o Napo? Ñ é normal!💁‍♀

  16. Linda coluna. Divagando com você, eu poderia jurar que a moça do Ritz se sentia mais pobre que o homem que amava. E que longe dele seu coração se entristecia como o de Napoléon fora limites do Itaim Bibi.

  17. Cheio de estilo, de memória privilegiada e detalhista, numa linguagem acessível e sem preciosismos, irretocável na forma e no conteúdo… obrigada, Mário Sabino por seus textos!

  18. gosto de ler na medida do possivel,esse rememorador fabuloso, memoria especial so uma coisa tenho que saber muitas palavras que aprendo com ele e demais escritores palavras classicas que desconheco,assuntos interessantes que nao nos obrigam a ter que continuar o a assunto porque ele tem bom vocabulario pra terminar seu assunto ,Mario parabens pela narrativa,,. ,

  19. Privilegiado, simplesmente. Ganhamos, com isso: escreve, descreve, narra e convence. Parabéns.És pedra rara.

  20. Parabéns Mario pelo seu texto. Senti como se também estivesse passeando pelas ruas daqui de minha cidade. Curitiba. Apesar de não poder comparar com o tamanho de São Paulo, também guarda similaridades, especialmente de perceber as mudanças que ocorreram na arquitetura urbana.

  21. Eu simplesmente amo tudo que o Mário escreve ! É como escutar um amigo querido contar uma estória!

  22. Pelos romances mais leves que, na velhice ando a preferir aos tragicos clássicos, a Inglaterra ainda preserva e restaura com inteligência as mansões valiosas. Me imagino a passear por aquelas ruas arborizadas admirando os belos jardins, com algum de meus muitos "Napoleons". Ler Mario traz uma bela e feliz nostalgia.

  23. Realmente , sempre aguardo ansioso as suas crônicas. Comungo com vc , esse comentário, pois morando numa cidade histórica , Petrópolise que esteve na mídia recente pela catástrofe aqui ocorrida , aqui temos um controle rígido em relação às demolições. Infelizmente o que vemos aqui, são casas centenárias caindo aos pedaços ,pois os proprietários estão sem condições. Uma pena . Amigo

  24. Adorei , realmente é pra admirar esses casarões , dos Jardins !!! Lindíssimos e tornando-se inviáveis para os herdeiros !!!

    1. Mário Sabino é de rara sensibilidade! Os novos ricos não tomam mais chá com torrada, não vão mais para o Ritz e suas mansões viram pó para darem lugar a bunkers arquitetônicos extremamente agressivos!

  25. Ruy Castro ensinou a diferença entre o rico e o grã fino: qualquer pessoa pode ficar rica de uma hora pra outra, basta ganhar na loteria. Pra ser grã fino é preciso ao menos 300 anos.

  26. Saudosismo não leva a nada... mas ai que saudade de abrir jornais onde quase diariamente textos encantadores como este, nos tirando parte do peso das agruras cotidianas pelos breves instantes em dura a leitura, obrigado Mário.

  27. S Paulo merecia uma bomba de nêutrons invertida, uma que destruísse todos os prédios deixando todo mundo vivo para reconstruir. Neste caso, algo decente, posto que o aviso fora dado.

  28. Parabens pelo artigo Mario, como sempre voce é brilhante!Desta vez voce traduziu exatamente como me sinto morando em uma linda praça no Alto de Pinheiros, bem proxima ao Santa Cruz. Desde que me mudei para ca, meu sossego esta sendo destruido epor tantas demolições , casas ainda tao habitaveis que estao sendo transformadas em quadras de tenis , verdadeiros bunkers de concreto e muros instransponiveis. E aguente tantos bate estacas dia e noite durante a pandemia que nos intimou a ficar em casa.

  29. Faça desta casa, a analogia ao desmonte das instituições e regras básicas da democracia, virarem pó neste sistema impune e permissivo.

  30. Oi Mário. Moro no Jabaquara, bairro sem muita classe de São Paulo. Tb passeio muito por aqui e observo casas e mais casas - todas sem valor arquitetônico - irem ao chão para a construção de prédios sem valor arquitetônico. Meu horizonte está cada vez mais apertado entre tantos edifícios com suas portarias e andares de estacionamento.

    1. Parabéns e obrigada por este respiro, que nos proporcionas nas tuas excelentes crônicas às sextas.

  31. Mario! Que texto delicioso! Sua redação é um deleite. E a Crusoe uma alegria das 6a feiras. Obrigada e boas caminhadas pra vc, pra vcs dois.

  32. Ah, Mário, que texto lindo! Chego a visualizar a paisagem, a moça em Paris, a elegante senhora, seu York. Obrigada por mais um texto tão delicado.

  33. Que bonito texto! Compartilho destes sentimentos delicadamente expostos! Como é bom ler texto com tal qualidade e sensibilidade!

    1. sempre muito bom gosto, bom jeito, elegante maneira de desprezar essa sujeira política instalada há 200 anos . br 1822 !!

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