Flickr/The White HouseJoe Biden com o finlandês Sauli Niinisto e a sueca Magdalena Andersson: aliança revigorada

Putin ressuscita a Otan

A agressão à Ucrânia não apenas uniu os países que compunham a aliança militar, como levou a que Suécia e Finlândia pedissem formalmente para ingressar no bloco cuja morte cerebral havia sido decretada
20.05.22

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental que o americano Donald Trump achava inútil e cara demais e da qual o francês Emmanuel Macron declarou a “morte cerebral“, foi ressuscitada pelo russo Vladimir Putin. A agressão à Ucrânia não apenas serviu para unir os países que compunham a Otan, como levou a que Suécia e Finlândia, duas nações europeias neutras até poucos dias atrás, pedissem formalmente nesta semana para ingressar no bloco que surgiu em 1949, na Guerra Fria, para fazer frente à então União Soviética. Na quinta-feira, o presidente Joe Biden recebeu na Casa Branca a primeira-ministra sueca, Magdalena Andersson, e o presidente finlandês, Sauli Niinisto, e declarou “apoio completo, total” dos Estados Unidos à entrada dos dois países na aliança militar ocidental, acrescentando que ambos “têm todos os requisitos” para tanto. O processo de adesão deve ser acelerado. O ingresso do mais recente aliado, a Macedônia do Norte, demorou 13 meses para ser consumado. No mesmo dia em que Joe Biden recebeu os governantes sueco e finlandês, a Rússia teve outra má notícia: o Congresso americano aprovou, por imensa maioria, uma ajuda colossal à Ucrânia, de 40 bilhões de dólares, quase o valor do PIB da Estônia e o equivalente a dois terços do orçamento militar anual da inimiga Rússia. Seis desses bilhões serão destinados por Kiev à compra de blindados e de sistemas de defesa antiaérea. 

Vladimir Putin, que usou a expansão da Otan como um dos pretextos para invadir território ucraniano, deverá ganhar mais 1.340 quilômetros de fronteira terrestre com outro vizinho pertencente à aliança militar ocidental, a Finlândia. A Suécia também está nas proximidades: a capital sueca, Estocolmo, fica a menos de 700 quilômetros de São Petersburgo, a segunda maior cidade russa. Embora fossem neutras, ambas as nações dispõem de exércitos com grande capacidade de mobilização e arsenal tecnológico de ponta (a Suécia é a fornecedora dos caças Gripen ao Brasil), qualidades potencializadas pela adesão à Otan. No caso dos Estados Unidos, o conflito recolocou a Europa no centro das atenções geopolíticas da maior potência econômica e militar do mundo, de onde o continente parecia ter saído, substituído pela China. O número de soldados americanos no continente voltou à casa dos 100 mil. Pouco antes de o Congresso americano aprovar a ajuda à Ucrânia, o líder republicano no Senado, MItch McConnell, sintetizou: As medidas de auxílio à Ucrânia são bem mais do que simples caridade. A segurança e os interesses estratégicos americanos serão moldados pelo resultado desse conflito”. Ou seja, os tiros do presidente russo estão saindo pela culatra, o que é mais do que uma imagem: além de estar perdendo uma guerra que julgava fácil de ser vencida, e que angariou um apoio internacional inesperado ao país agredido, ele fortaleceu a aliança militar ocidental que considera ser uma ameaça e para a qual a invasão da Ucrânia deveria ser um recado intimidador.

Exercício de artilharia da Otan: ajuda estratégica
Impressiona a miopia europeia e americana em relação a Vladimir Putin – e miopia é a versão mais benigna para definir negligência e até cumplicidade. Ela durou mais de duas décadas, até que o tirano russo declarasse a “inexistência” da Ucrânia e invadisse o país presidido por Volodymyr Zelensky, em fevereiro deste ano. Desde que assumiu o poder, em 2000, Vladimir Putin vem explicitando o projeto de reviver os limites (ou a falta deles) da União Soviética. Não bastassem as intervenções na Geórgia, na Síria e na Crimeia, ele jamais escondeu o seu objetivo em discursos e na maneira que conduz o seu governo (e elimina os seus adversários) desde o início do seu, sejamos francos, reinado. A documentação factual é farta e há uma montanha de livros sobre o assunto, escritos por especialistas em Rússia e Leste da Europa. Em 2014, ano em que Vladimir Putin anexou a Crimeia, por exemplo, dois americanos, Andrew A. Michta e Paal Sigurd Hilde, publicaram o livro The Future of Nato (O futuro da Otan), no qual dissecam o projeto “neoimperialista” russo e alertam para uma nova realidade geopolítica que exigiria uma resposta, como mostrou o jornal Le Monde. Ela está sendo dada agora, finalmente.

A propaganda russa de que a Otan representa ameaça ao território russo é uma falácia. Em 1990, por ocasião da dissolução da União Soviética, os países ocidentais e os seus antigos adversários do Pacto de Varsóvia, inclusive a Rússia, criaram o Conselho de Cooperação do Atlântico Norte. O então presidente russo, Boris Iéltsin, chegou a dizer na ocasião que estava surgindo “um novo sistema de segurança, de Vancouver a Vladivostok” e que “a adesão da Rússia à Otan era uma objetivo político a longo prazo“. Em 2002, com Vladimir Putin na presidência do país, foi criado o Conselho Otan-Rússia, quando a aliança militar ocidental já contava com Polônia, Hungria e República Tcheca, ex-satélites soviéticos que conseguiram superar as reticências americanas e aproveitar-se da política de portas abertas do bloco. O Conselho não se reúne, contudo, desde janeiro de 2019. A verdade é que tanto os países do antigo Pacto de Varsóvia quanto as ex-repúblicas soviéticas sempre temeram os russos, por boas razões históricas, e viram na aliança militar ocidental um escudo contra um inimigo poderoso e inconfiável. Vladimir Putin só fez confirmar esse receio, ao trocar uma aproximação com as nações ocidentais pelo rancor contra os vencedores da Guerra Fria e pelas aspirações territoriais que denotam a visão ideológica anacrônica do obscuro ex-tenente coronel da KGB. Aqueles países que compunham o lado de lá da Cortina de Ferro e aderiram ao bloco hoje se encontram protegidos pelo artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte (o ataque contra um integrante é como se fosse um ataque contra todos os demais).

ReproduçãoReproduçãoErdogan: toma-lá-dá-cá da Turquia já é conhecido da aliança
Assim como fizeram outras ex-repúblicas soviéticas, a Ucrânia também quis ingressar na Otan, mas teve o pedido rejeitado por França e Alemanha, que temiam provocar ainda mais Vladimir Putin. O pedido não atendido da Ucrânia jogou-a numa zona perigosa, na qual passou a ser considerada inimiga da Rússia, mas sem ter a proteção da Otan. A reação pífia de europeus e americanos diante da anexação da Crimeia, aliada à fuga desastrosa dos americanos do Afeganistão, no ano passado, estimularia Vladimir Putin a cometer a invasão do país inteiro oito anos depois. O mesmo ocorreu com a Geórgia, que perdeu 20% do seu território para a Rússia, em 2008, numa guerra-relâmpago de cinco dias.

A invasão da Ucrânia acendeu finalmente o alerta vermelho na Suécia e na Finlândia, que correram a abandonar a neutralidade e não devem demorar a ser aceitas pela Otan, apesar da oposição do líder turco Recep Erdogan. Um país só passa a integrar a aliança militar se contar com a aprovação unânime dos seus integrantes. Recep Erdogan já disse que não aceitará de jeito nenhum o ingresso de suecos e finlandeses, mas os seus parceiros de aliança militar já estão acostumados com o toma-lá-dá-cá da Turquia. O que o líder de um dos países mais estratégicos da aliança militar quer em troca são, basicamente, três coisas. A primeira é que a Suécia e a Finlândia extraditem os militantes separatistas curdos que lá se refugiaram e deixem de dar suporte ao partido ao qual muitos deles pertencem, o PKK, que foi classificado como organização terrorista pela União Europeia e pelos Estados Unidos. A segunda é que finlandeses e suecos voltem a vender armas pesadas para a Turquia. A venda foi suspensa desde a intervenção turca no norte da Síria, em 2019, contra os curdos. A terceira, mas não menos importante: Recep Erdogan gostaria muito, mas muito mesmo, que os Estados Unidos permitissem à Turquia comprar caças F-35 de ultimíssima geração, os mais modernos da Força Aérea americana, que só estão disponíveis para aliados extremamente confiáveis. A confiabilidade pode ser questão de circunstância. A não ser em relação a Vladimir Putin, que ressuscitou a Otan. O ucraniano Volodymyr Zelensky pode ser o comediante, mas o papel de palhaço macabro é do tirano russo.

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  1. Tudo isso lembra demais a questão dos Sudetos, a ingenuidade ou conveniência do Chamberlain e o fortalecimento inicial de Hitler. Deu no que deu. Mas a todas essas, parece que os que vão acabar se f… serão, como sempre e mais uma vez, os curdos, que nem têm a ver com o peixe.

  2. O EUA e a Rússia precisam recuperar uma das boas experiência da Guerra Fria : conversar. Na crise dos mísseis em Cuba, os USA e a URSS aprenderam que o diálogo é o melhor ( e único) caminha para não ir a guerra e superar conflitos. É o que deveriam fazer agora.

  3. Vejo que a Rússia já ganhou essa guerra. A Otan mostra suas fragilidades. Boicotes ineficases, pois vários países europeus já estão pagando gás em rubros, diretamente nos bancos russos e porisso a moeda russa se valoriza. A derrota de milhares de soldados famintos em Mariopol, sem necessidade de combate. Vamos ver o que eles vão contar quando começarem a depor. A Finlândia e a Suécia não têm chance alguma de serem aceitas na Otan. O mundo passará a ter EUA e Europa muito enfraquecidos.

  4. Mário, eu amo as suas aulas de História! As matérias e reportagens são peças de quebra cabeça 🥴, aí o sr chega e encaixa tudo! Obrigada 🙂!

  5. Ótima matéria. Ela, veio da corpo a minha certeza, de o homem é um predador voraz e nada para essa essência, que cresce geometricamente no longo do tempo. Maldito o homem que confia no seu semelhante.

  6. Resta saber qual dos conselheiros de Putin vai ter coragem de lhe dizer que ele está fazendo um "baita negócio"... kkk

  7. Tiro no pé de bilhões de dólares e o isolamento comercial e político pra o resto do tempo de Putin no poder ou até a terceira guerra mundial, o que significa o fim do mundo tal como o é hoje. Mistura de arrogância com burrice como imaginávamos não mais existir em nossos dias ditos civilizados.

  8. O massacre dos ucraniannos pelos russos está sendo concentrado no leste, com o restante do país sendo atacado por mísseis. Tomara que os ucranianos retomem as áreas atualmente ocupadas. A reconstrução será complicada e demandará muito investimento. Enquanto isso a questão energética é um capítulo à parte

  9. Nessa coleção de erros político estratégicos da UE, fica submersa a atuação da decantada 1a ministra da Alemanha, a Sra. Ângela Merkel, a qual esteve a frente do país por mais de 15 anos e fechou os olhos para o perigo Putiniano, muito por conta de uma agenda eco amigável e que hoje deixa a UE entre a cruz e a espada, jogando o planeta numa situação bélico econômica arriscada e sem previsão de qualquer conclusão.

    1. Sem dúvida, o fechamento das usinas nucleares alemãs, substituídas por fontes não renováveis como gás natural da Russia financiaram a maquina de guerra de Putin. Angela Merkel contribuiu sobremaneira com o pesadelo ucraniano. Poucos causaram tanto mal a humanidade.

  10. Grandes infortúnios, como a pandemia, não serviram de alerta para a humanidade! Grandes avanços tecnológicos tampouco! Continuamos com as velhas práticas de sempre. Guerras por terras e poder, como se ainda estivéssemos na Idade Média.

  11. A Ucrânia não entrou por medo entregou suas armas por acordo idiota e aí está o resultado ... o mesmo a quadrilha fez no Brasil desarmando o povo e muitas cidades são hoje governadas por gangues que dividem até o território ... vovó ensinava que chapéu de otário é marreta.

  12. Excelente artigo, muitíssimo bem redigido ; é uma pena que a imprensa brasileira, sequer sabe que existe uma guerra cuja perspectiva é de criar uma ordem global diversa do que Bozo e Lula entendem (aliás, nada entendem) VERGONHA

  13. Mário nota 9,5. Se os tiros estão saindo "literalmente pela culatra", significa dizer que os tiros estão saindo pela culatra, sem o sentido figurado.

  14. Mario, nosso grande historiador, ótimo resumo. Pois é, o Palhaço ensinou ao mundo que Putin pode e precisa ser derrotado. Desaforo Alemanha e França com o covarde Macron ainda não aceitarem "humilhar" Putin e pior, não se expulsar a Rússia da OTAN que deveria ser o lugar é da enorme, IMENSA Ucrânia. Maravilha a ajuda para que ela possa comprar as armas que têm tanto receio de lhe fornecer - 👏congresso americano.

    1. Sra.. a Russia não faz parte da OTAN.. nunca fez. Um dos principais motivos da paranóia de Putin chama-se OTAN.

  15. Agora só falta a Ucrânia: para colocar de vez o Putin amarrado à Cortina de Ferro, a Otan deve convidar e, ..., aceitar seu ingresso, mostrando mais que bloqueios midiáticos, mas um basta no genocida Putin.

  16. Mas o que mais entristece a Humanidade é ver o desperdício de recursos (bilhões e mais bilhões de dólares) a serviço da guerra e do extermínio de vidas humanas, quando se sabe que apenas um quinto dessa dinheirama se usada pela boa causa de exterminar a fome no planeta, estaria muito bem empregada. Este é o Homem.

    1. sim, amigo, e isso é uma vergonha. outros desdobramentos virão, mas sempre na mesma linha bélica

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