ReproduçãoPetro na posse do chileno Gabriel Boric: se o colombiano ganhar, será a quinta vitória da esquerda no pós-pandemia na América Latina

Onda sem rumo

Eleição de candidatos majoritariamente de esquerda na América Latina não é uma adesão a ideologias e políticas, mas uma manifestação da aversão aos políticos em um momento de crise pós-pandemia
26.05.22

O ex-guerrilheiro Gustavo Petro é o favorito no primeiro turno das eleições colombianas deste domingo, 29, com 40% das intenções de voto. Caso consiga se sagrar vitorioso também no segundo turno, em junho, Petro, do partido Colômbia Humana, comandará a quinta vitória da esquerda na América Latina desde o início da pandemia de Covid, em janeiro de 2020. De lá para cá, a esquerda ganhou na Bolívia, no Peru, no Chile e em Honduras. A direita só levou a melhor no Equador e na Costa Rica. O quadro regional tem levado muitos brasileiros a comemorar as notícias como uma nova onda de esquerda, principalmente porque Lula está à frente nas pesquisas brasileiras. Um olhar mais atento, contudo, mostra um fenômeno de natureza diferente. O que os eleitores em geral estão buscando é substituir os governantes com dificuldade para administrar crises por outros líderes mais frescos e com promessas diferentes.

Na Colômbia, a desaprovação do atual presidente colombiano, Iván Duque, é de 67%. Apenas 27% gostam do seu governo, segundo o instituto Invamer. Corrupção, insegurança, economia e desemprego são as principais preocupações dos eleitores. Desde o início do mandato de Duque, em 2018, grupos do crime organizado ganharam musculatura. O Clã do Golfo é hoje o maior cartel de narcotraficantes e domina a exportação de cocaína. O Exército de Libertação Nacional, ELN, de inspiração cubana, recuperou suas forças, tem realizado atentados e controla zonas de fronteira. A pandemia fez a taxa de pobreza subir de 35% para 43%, no ano passado. Entre os jovens, 20% não têm emprego, o que ajudou a elevar as taxas de crimes nas cidades. A inflação anual está perto dos 10%, mas, entre alimentos e bebidas não alcoólicas, chega a 26%.

Com esse quadro, Duque não fará um sucessor, assim como outros presidentes envoltos em diversos problemas. A boliviana Jeanine Añez assumiu a Bolívia em um momento conturbado, com o exílio voluntário de Evo Morales, em novembro de 2019. Foi surpreendida pela chegada da Covid meses depois e não conseguiu recuperar a economia até realizar novas eleições, um ano depois. No Peru, a política ficou ainda mais instável durante a pandemia, com quatro presidentes se revezando no cargo. No Chile, Sebastián Piñera não soube lidar com protestos em 2019. Entre os governantes de esquerda, Lenín Moreno, no Equador, também enfrentou manifestações e passou o bastão para o direitista Guillermo Lasso. Como regra geral, desde 2020, nenhum presidente se reelegeu na região.

ReproduçãoReproduçãoDuque: com inflação de alimentos, sua desaprovação está em 67%
Com crescimento baixo, crises inflacionárias e desemprego, as pessoas em vários países estão votando para trocar seus governantes”, diz o cientista político Christopher Mendonça, professor de Relações Internacionais do Ibmec de Belo Horizonte. “Mas é difícil afirmar com precisão que a sociedade está se movendo para a esquerda. Só o que se pode constatar por enquanto é que a crise gerada pela pandemia fez as pessoas ficarem mais indiferentes à política, e a quantidade daquelas que não se importam com um líder não democrático cresceu.”

Com a Covid, os governos ficaram sem sobras para gastar com programas sociais e tiveram de apertar os cintos, perdendo popularidade. Na Argentina, o presidente Alberto Fernández, peronista de esquerda, tem hoje apenas 26% de aprovação, com o país mergulhado numa inflação de 58% ao ano. Mas o problema também aflige os que assumiram seus postos depois da onda de Covid. Com a exceção do equatoriano Guillermo Lasso, os que chegaram agora ao poder estão arrastando na aprovação popular. O chileno Gabriel Boric, que assumiu em março com aprovação de 56%, agora tem 24%. O peruano Pedro Castillo, 25%. Se fossem enfrentar novas eleições agora, todos esses latino-americanos de esquerda teriam de fazer alguma mágica para seguir no poder ou eleger um sucessor (assim como o direitista Jair Bolsonaro, com aprovação em 30% segundo o Ipespe, também encontra dificuldades para se reeleger).

Um dos primeiros a acertar no diagnóstico desta situação foi o venezuelano Moisés Naím, em seu livro O Fim do Poder, de 2013. Ex-editor da conceituada revista Foreign Policy, ele falou com Crusoé, no ano passado: “Todos os governos da América Latina hoje estão em situação precária. (…) Os governos hoje precisam lidar com múltiplos problemas, como a pandemia, a economia, a fome, a desigualdade e a pobreza. Ao mesmo tempo, eles têm um poder limitado para lidar com tudo isso. Então, é muito difícil que algum governo consiga se manter forte por muito tempo em uma situação como essa. (…) Nos tempos modernos, ficou mais fácil conquistar o poder, mais difícil usá-lo e mais fácil perdê-lo”.

Comparações com a onda de esquerda dos anos 2000 não podem negligenciar o contexto macroeconômico. A atual leva de líderes de esquerda toma posse em condições mais desvantajosas se comparadas aos presidentes da fase anterior. Naquele tempo, todos foram beneficiados com a alta nos valores das commodities. O petróleo turbinou o venezuelano Hugo Chávez, a soja a argentina Cristina Kirchner, o gás natural o boliviano Evo Morales, o cobre a chilena Michelle Bachelet, a soja e o ferro o brasileiro Lula. Com os cofres cheios, eles puderam cortejar os pobres e ganhar votos.

ReproduçãoReproduçãoHernández: se for para o segundo turno, poderá ganhar de Petro
O populismo de agora não tem como ser financiado e pode causar problemas maiores. A Colômbia tem hoje um déficit fiscal de quase 9% do PIB. Petro fala em ampliar os programas sociais, como um sistema de aposentadorias totalmente público, que serão custeados por aumento de impostos. Ele fala em abocanhar uma parte maior das 4 mil maiores fortunas do país, algo que não funcionou em nenhum lugar do planeta. O candidato ainda fala em frear a exploração de petróleo e de minérios, como o carvão. “É muito incoerente prometer aumentar os gastos sociais para as pessoas mais necessitadas nesse momento pós-pandemia e, ao mesmo tempo, cortar as fontes de receitas”, diz Silvana Amaya, consultora da Control Risks, em Bogotá.

Petro, que integrou o grupo guerrilheiro Movimento 19 de abril, o M-19, também fala em uma “segurança humana”. Ele fala em negociar com os grupos criminosos, como o ELN. Petro quer dar a esse grupo a mesma oportunidade que tiveram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, que assinaram um acordo de paz em 2016. O problema, contudo, é que o ELN hoje está muito mais forte hoje do que estavam as Farc no início das negociações. “É muito difícil que uma negociação política dê fim a uma organização com objetivos econômicos. Simplesmente não acho factível que aqueles que dependem de economias ilícitas aceitem algo do tipo”, diz a cientista política Angelika Rettberg, professora da Universidade de Los Andes e especialista em temas de conflito e paz. Petro fala ainda em reformar a polícia e em acabar com o serviço militar obrigatório. Também tem criticado as deportações de traficantes para os Estados Unidos, justamente uma das coisas que mais apavoram os criminosos.

O temor de um retorno da violência desenfreada ainda acomete os colombianos, que podem fazer voto útil no primeiro turno, para impedir uma vitória de Petro no segundo. Desde março, quem mais tem crescido nas pesquisas é o empresário Rodolfo Hernández, ex-prefeito de Bucaramanga. Ele subiu de 8,2% para 20,3% nas pesquisas e está encostando no segundo lugar, Federico Gutiérrez, de centro-direita. O principal atrativo de Hernández é que ele tem boas chances de ganhar de Petro no segundo turno. Ele tem um discurso forte contra a corrupção e contra os políticos, o que se alinha muito bem com o atual clima do pós-pandemia. Seu passado também leva os colombianos a acreditar que ele não será conivente com os narcotraficantes. Seu pai, um agricultor, ficou quatro meses presos pela guerrilha. Sua filha foi sequestrada e assassinada pelo ELN. A Colômbia, não há dúvida, terá uma troca de poder, assim como outros países da região. Mas falar em onda de esquerda ainda é precipitado.

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  1. Excelente matéria, mostrando com isenção o quadro político atual. Infelizmente, alguns leitores preferem defesa de ideologia a uma análise inteligente sem polarização.

    1. Realmente gostei da isenção e qualidade da matéria do tipo que sentia falta na Cruzoe! Acho que chega de partidarismos e ataques histéricos ao Bolsonaro! Se ele é o que temos para evitar o retorno do 9 dedos ao poder e toda corja de ladroes e a manutenção dos mandos do STF ! O maior nojo desta nação ! Há outra alternativa? Não vejo! Não moramos em Veneza ! Vivemos aqui!

  2. Só lamento que a reportagem coloca que a esquerda esta sendo uma opção. Toda esquerda deu errado no mundo!! Ondes eles governaram destruíram o País e seu povo. Portando achar que o socialismo possa ser uma solução para um pais é desinformar, deveria sim mostrar ao leitor que o socialismo vai destruir a riqueza do País. Onde tem governos socialistas tem povo desinformado. Aqui digo mais uma vez que a Crusoé devia mostrar o que é o Socialismo.

    1. Dorival concordo inteiramente contigo! Mas admitir que o Globalismo generalizado é a esquerda avançando contra nós é difícil para estes que bebem na água do dogma e do ataque aos direitos individuais!

  3. A América Latina é uma legítima latrina, quanto atraso! Podemos contar com o sexto desastre e será em tons de verde e amarelo. Vontade de falar um palavrão.

  4. A América Latina é um continente sem futuro. Ha quantos anos discutimos os mesmos problemas? Os mesmos problemas, mas agravados. Há uma esquerda doente, que discute a superfície dos problemas e uma direita que quer sugar tudo p ela. Não há futuro com essa gente.

  5. Eleitorado sul americano vota com a situação se crê estar bem de vida ou na oposição caso considere o contrário. Não há quem tenha um modelo de desenvolvimento económico-social em que acredite e que poderia evitar esse movimento pendular eleitoral constante, caindo facilmente no canto de populistas que só vão cavando um buraco cada vez mais fundo. Associe a isso instabilidade institucional e pressão de poderosas organizações criminosas e temos o receituário pro nosso constante atraso.

  6. Não posso concordar ou discordar pq não tenho cacife p isso... Mas acho a fala "as pessoas estão + indiferentes à política após a pandemia", muito estranha! A vida da sociedade, essa maioria imensa q passa sufoco p viver, está um corre-corre danado pela sobrevivência, p colocar comida na mesa e manter casa e família. A manifestação de desaprovação tem q ficar p hr do voto, mesmo! Qm vende o almoço p comprar a janta, não tem tempo p gritar no meio da rua. No +, a matéria está ótima! Mesmo, Duda!

  7. Não há direita nem esquerda nestes movimentos.Apenas populistas com discursos oportunistas surfando na ignorância da grande maioria da população. Desgovernos se alternam na triste América Latina, ora com falso liberalismo, ora com falso paternalismo estatal.

  8. Meu LIVRO “O INROTULÁVEL”. Link de acesso: https://www.amazon.com.br/dp/B09HP2F1QS/ref=cm_sw_r_wa_awdo_PQSA5Z6AXXH2SX16NH87 *LULA: os EXEMPLOS EXECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! São DEGENERADOS MORAIS que IMPEDEM o MUNDO de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  9. O Lula que vem ai não vai melhorar em nada a vida dos brasileiros. Continuaremos a mesma republiqueta de bananas que sempre fomos porque nossos problemas são estruturais. A corrupção, a violência, a baixa autoestima, a falência moral, a falta de ética na política, a falta de perspectivas na vida do cidadão pela baixa qualidade de vida oferecida à sociedade - tudo isso vai continuar por décadas! Só mudaremos esse status quo quando nosso sistema educacional e sanitário se aperfeiçoar.

    1. Concordo. Ouvi ontem o espertalhão lula gritando que vai acabar com garimpos ilegais. E porque ele não acabou com isso em 3 governos??? Esse problema existe há décadas!!

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