RuyGoiaba

Seremos enganados de novo

24.06.22

“Won’t Get Fooled Again” é um hino da desilusão política. Composta por Pete Townshend — aquele que aos 20 anos dizia “espero morrer antes de ficar velho”, sobreviveu e chegou aos 77 — e lançada pelo Who em seu disco de 1971, Who’s Next, a canção é um inventário das esperanças perdidas dos anos 60 (você sabe, “verão do amor”, “poder jovem”, “revolução”, aquela patacoada toda). É um misto de música exuberante, indispensável nos shows da banda até hoje, com letra entre o irônico e o depressivo, cujo último verso é “meet the new boss, same as the old boss” (conheça o novo chefe, igualzinho ao antigo). Uma espécie de versão roqueira de “se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, a frase clássica de Lampedusa em O Leopardo.

A perene atualidade de “Won’t Get Fooled Again” é, em si, um sinal de que as coisas não mudaram muito nos últimos 50 anos. Minto: não mudaram muito nos últimos 65 anos (o romance do grande escritor italiano, que se passa no século 19, foi lançado em 1958). Na verdade, talvez elas não tenham mudado essencialmente nos últimos 2.500 anos, data estimada da composição do Eclesiastes (“o que foi é o que será, e o que foi feito é o que será feito; não há nada de novo sob o sol”). OK, hoje temos algumas coisinhas diferentes: por exemplo, penicilina e uma porção de outros medicamentos, expectativa de vida bem maior que a de Qohélet — o narrador do livro bíblico — e a internet, que dá a muito mais pessoas o prazer de serem enganadas em muito menos tempo.

Eis o ponto: o ser humano GOSTA de ser enganado. O título da música do Who, “não seremos enganados de novo”, contradiz não só a própria letra como o comportamento geral da humanidade ao longo dos séculos: preferimos a historinha, bem ou mal contada, à realidade, as fake news às notícias que nos desagradem, o sonho de ficar rico entrando num esquema de pirâmide ao pesadelo cotidiano de morar numa casa caindo aos pedaços (ou na rua) em algum lugar especialmente insalubre do Bananão. A sociedade se divide entre os malandros que sabem manipular em proveito próprio essa necessidade de fantasia e nós, a grande massa de otários — não sei vocês, mas o máximo a que consigo aspirar é ser um otário com sorte. E, você sabe, todo dia representantes de um e outro grupo saem de casa: quando os dois se encontram, sai negócio.

E a política é, desde sempre, território de malandros profissionais, que têm à disposição — como uma fruta fácil de colher, pendente do galho mais baixo — uma variedade extraordinária de otários. Tem otário que acredita em Jair Bolsonaro dizendo pela enésima vez “não há corrupção no meu governo”, mesmo depois da prisão de Milton Ribeiro, aquele por quem o presidente disse que poria a cara no fogo; otário que acredita na inocência de Sua Lulidade (que, se voltar ao poder, será o próprio old boss, em vez de alguém igualzinho a ele); otário que acredita na tal Terceira Via, incapaz de viabilizar uma candidatura com votos no seu tubo de ensaio; otário que “acredita no Brasil” e que merece, por isso, ser surrado com um gato morto até o gato miar; otário que acredita que o mundo fora do Bananão é uma pocilga muito diferente, para melhor, da nossa.

Enfim, se há uma coisa certa para o ano (a década, o século, o milênio) que vem é que seremos enganados de novo. Só espero que as próximas gerações de enganadores sejam, pelo menos, mais criativas nos seus truques. Está ficando tediosa essa perpétua corrida do Brasil atrás do próprio rabo: tomara que apareça algum carrinho caindo aos pedaços para o vira-lata correr atrás.

***

A GOIABICE DA SEMANA

O brilhante Jair Bolsonaro, que já confundiu John Kerry com Jim Carrey, chamou o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, de “Cyril Raposa” na última reunião dos Brics. Não é privilégio dele, claro: um amigo jornalista contou que, num encontro com o presidente da Fiat, Luca Cordero di Montezemolo, Lula só conseguia chamá-lo de “Montesinos”. Parece que chamar Jesus de Genésio é um pré-requisito básico para ser presidente do Brasil — o que explica muita coisa.

R.Farrell/ ITUR.Farrell/ ITUCyril Ramaphosa, o líder reclassificado biologicamente por Bolsonaro

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  1. Este texto é o clássico e imprescindível 'cômico se não fosse trágico'; sério, verdadeiro e magnificamente escrito.

    1. Tá certo!! Mesmo assim , continuo trabalhando pra melhorar o Bananão.

  2. Se deixarmos de lado essa dupla lubabaca e Bolsotario e votarmos no único candidato de bom caráter da lista de presidênciaveis que é Luis Felipe D'Avila , começaremos a sair desse atoleiro que nos encontramos há décadas. Tem gente inteligente e honesta nesta lista de candidatos à presidência além desses dois carniças e Luís Felipe está aí p provar isso

    1. Uma pena que não consigamos nos organizar em torno de um único nome. Estava considerando a Tebet, mais sem nenhuma convicção.

  3. Tem o eleitor otário (com ou sem cultura), o eleitor vendido ( por “necessidade” ou vocação) o fanático, o doido (na acepção da palavra)...mais tem um tipo mais estranho. Inteligente, bem informado, que paga as próprias contas, e por convicção, é eleitor do lula ou do bolsonaro. Essa última categoria, que não é pequena e se encontra facilmente em todas as boas famílias - alguém consegue entender?

  4. Só hipnose coletiva, falta de educação e também a malandragem e os otários já ditos no artigo explicam que o povo ainda vote em Jair ou em Lula. Bananão coletivo.

    1. Aliás, e ter otários para defender e votar.

  5. Às vezes até a sociedade vê oportunidades para mudar seu mundo, mas o medo acaba imperando, e volta-se para trás. Realmente, mais fácil é ficar no quartinho seguro e assistir um filme de ficção.

  6. Pa-ra-be’ns! Uma comédia trágica, nostálgica, dramática!Como um idiota util, em autoliquidação , após ler o texto aa Shekspeare, sai’ revigorado acreditando que o mundo irá acabar acreditando nos livros santificados- a tal Biblia- como idiota util. Assim impedir-se-a’ que o ser humano retorne aa forma amebosa que deu o ponta-pe’- inicial (poético, né?) para a vida. Ou, já não somos ameba?

  7. Existem os que vendem esperança e os que acreditam na esperança, ainda temos o “medo à Liberdade” onde preferimos que um líder populista ou totalitário nos conduza sem questionamentos e tomem a decisão por nós

    1. A falta de concordância entre o sujeito e o verbo agora é sinal de inteligência e modernidade.

  8. Os árabes fazem piada com o fato de terem criado (descoberto?) o zero: assim como a figura desse numeral sem ângulo, vivem num círculo de atraso e pobreza, sem sair do lugar. Assim é a América Latina: um perene desalento para ir adiante.

    1. Resta a ignorância como conquista brasileira, mesmo se o zero apareceu primeiro na Índia.

    2. América Latina e sua obsessão em eleger políticos cretinos populistas! Dá no que se vê!

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