ReproduçãoBiden chega a Israel e é recebido pelo primeiro-ministro Yair Lapid: novo equilíbrio de forças

Biden a reboque

Visita do presidente americano a Israel e Arábia Saudita não traz nada novo para a região. São os Estados Unidos agora que precisam correr atrás dos aliados no Oriente Médio
15.07.22

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, iniciou seu mandato em janeiro de 2021 com duas promessas voltadas ao Oriente Médio. A primeira era retomar o acordo nuclear com o Irã, remendando a decisão de seu antecessor Donald Trump, que rasgou o pacto e impôs sanções ao país. A segunda era isolar o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, pelo assassinato do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, no consulado saudita em Istambul. Na viagem de Biden para Israel e Arábia Saudita esta semana, essas duas posições afundaram nas areias do deserto.

Biden não teve alternativa a não ser seguir a reboque os países do Oriente Médio. Ao se deparar com o anseio americano em reduzir a presença militar no mundo e com o aumento da ameaça nuclear iraniana, israelenses e árabes sunitas fizeram uma aproximação estratégica. Para desgosto do democrata Biden e seus colegas de partido, esse movimento histórico, que mudou o equilíbrio de forças da região, foi sacramentado pelo republicano Trump, com os Acordos de Abraão, em 2020.

Nada hoje parece capaz de reverter esse acercamento de israelenses e árabes sunitas. E isso beneficia os Estados Unidos. Primeiro, porque alivia um pouco a responsabilidade americana de reagir a qualquer imprevisto em uma terra propensa ao conflito. Segundo, porque fortalece as barreiras de contenção contra o Irã. Desde que Biden chegou à Casa Branca, o comportamento dos iranianos só piorou. Além de avançar com o programa nuclear, o Irã grudou ainda mais na Rússia, que hoje trava uma guerra contra a Ucrânia e seus aliados ocidentais.

ReproduçãoReproduçãoBin Salman: de pária a aliado estratégico de Biden
Se antes Biden cogitava dar uma mãozinha aos iranianos, mesmo sob protestos de israelenses e sauditas, isso hoje está fora de cogitação. Na segunda, 11, o conselheiro de Segurança Nacional de Biden, Jake Sullivan, revelou que o Irã está preparando a entrega de centenas de drones à Rússia, para serem usados na Ucrânia. “O Irã tem se destacado na aquisição, produção e proliferação de tecnologias e capacidades militares baratas e eficazes contra o poder militar convencional. Foi isso que provavelmente chamou a atenção da Rússia”, diz o pesquisador Behnam Ben Taleblu, especialista em mísseis e drones da Fundação para a Defesa da Democracia, FDD, em Washington. “A revelação de Sullivan mostra que não faz sentido pensar que as ameaças do Oriente Médio ficarão restritas à região”.

O comportamento iraniano é tão acintoso que o presidente do país, Ebrahim Raisi, receberá o presidente russo Vladimir Putin em Teerã, no próximo dia 19. Ainda que o propósito do encontro seja discutir a guerra na Síria, com a participação do presidente turco Recep Erdogan, a provocação é clara. Nesse cenário, a chance de Biden querer retomar as negociações com o Irã diminuiu bastante. “Um acordo nuclear com o Irã será muito difícil de acontecer neste momento, porque isso vai além de qualquer ideologia. É uma questão de geopolítica internacional. O Irã agora está totalmente ligado à Rússia”, diz Karina Calandrin, especialista em Relações Internacionais e pesquisadora da USP e do Instituto Brasil-Israel.

IrnaIrnaO iraniano Raisi, com Putin: o próximo encontro será na semana que vem
A realidade também obrigou Biden a engolir muito do que disse sobre a Arábia Saudita. Por exemplo, que o país deveria ser tratado como um pária internacional. No Washington Post, o mesmo jornal que circulava as colunas do jornalista assassinado Jamal Khashoggi, Biden publicou na segunda, 11, um artigo intitulado Por que estou indo para a Arábia Saudita. “Sei que muitos discordam da minha decisão de viajar para a Arábia Saudita”, escreveu ele. “Como presidente, é meu trabalho manter nosso país forte e seguro. Temos que combater a agressão da Rússia, colocar-nos na melhor posição possível para superar a China e trabalhar por maior estabilidade nessa região do mundo. Para fazer essas coisas, temos que nos envolver diretamente com países que podem impactar nesses resultados. A Arábia Saudita é um deles, e quando me encontrar com líderes sauditas na sexta-feira, meu objetivo será fortalecer uma parceria estratégica daqui para a frente.”

Biden voará de Israel diretamente para a Arábia Saudita nesta sexta, 15, mas não irá à capital Riad. Passará por Jeddah. Os americanos não querem que a viagem seja considerada uma visita de Estado. A Casa Branca também não confirmou se o presidente terá um encontro com Mohammed bin Salman, mas é provável que ocorra. Biden ainda precisa melhorar a relação com o saudita por outra razão: ele quer receber mais petróleo, para, desse modo, conter a escalada no preço dos combustíveis. Com tanta coisa em jogo, Biden foi obrigado a se adaptar aos novos ventos que sopram no Oriente Médio.

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  1. Não há discurso eleitoral que resista ao aumento do preço da gasolina, não tem jeito. A política do Trump para o médio oriente seguia em linha com a posição histórica americana: hostilidade ao Irã, apoio irrestrito a Israel e amizade de conveniência com os sauditas. A estratégia do partido democrata é errática e fatalmente natimorta. Aí está, nem demorou muito.

  2. É isso. Mas, e o Brasil? Como ficamos nesse tabuleiro de xadrez geopolítico? Encima do muro com os países democráticos que defendem a liberdade ou com os vermelhos?

  3. E ele está se adaptando! Pelo jeito, dá pra falar muitas coisas, mas não q lhe falte jogo de cintura! Isso, ele tem. PS: fiquei imaginando um artigo do Bolsonaro... "P q conversarei com Zelensky" ou "Pq a pec kamikaze agora" ou "Pq as urnas eletrônicas não são confiáveis"... Eu gostaria de ler um texto dele😜😂😜😂

    1. Nem B nem M…. Nem diarreias. Vote certo, vote no DR TUDO ZERO ZERO CONFIRMA. NÃO PODEMOS CONTINUAR SENDO PALHAÇOS

    2. Bidem, como bom esquerdopata demorou e está fazendo o percurso que o Bolsonaro o indicou quando veio implorar para ele participar do encontro do G20, coitado enquanto o EUA estão afundando o Brasil já está decolando.... qualquer dúvida pergunta ao Bidem‽

  4. Com a, cada vez maior, decadência de nossa política, passei a seguir a Ucrânia e com ela voltei a ter que entender tudo que envolve essa guerra - todo o mundo, afinal. Seus artigos são preciosos para isto, Duda, e o de hoje veio explicar melhor a participação do oriente. Sinto que não escreva muito mais e entendo o pouco interesse dos brasileiros para fora de seu minúsculo quintal.😒 Infelizmente moro aqui, que fazer senão olhar por cima do muro.😂

  5. A política externa americana está em baixa desde a decisão de invadir o Iraque. Continuou errando quando Obama ficou desmoralizado após Síria quebrar a tal linha vermelha e ele não fazer nada. Continuou errando no acordo com o Iran e atingiu seu ponto mais baixo com Trump sendo desmoralizado pelo ditador norte-coreano e com suas alianças com Putin. Biden está apenas colhendo essa imensa sucessão de erros graves. Culpa-lo é desonestidade.

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