ReproduçãoO ex-presidente discursa para apoiadores: "Nós podemos fazer isso de novo"

Trump ensaia seu retorno

O ex-presidente americano retorna a Washington e mostra disposição para atacar novamente o sistema e disputar as eleições de 2024
29.07.22

Desde que embarcou no gramado da Casa Branca no helicóptero Marine One, na manhã do dia 20 de janeiro de 2021, para não ter de comparecer à posse do democrata Joe Biden, o ex-presidente americano Donald Trump tem sido execrado pela maior parte da imprensa e dos analistas. Depois de ter sobrevivido a dois processos de impeachment, ele entrou na mira de uma comissão parlamentar, cujo principal objetivo é descobrir se Trump incitou seus seguidores a invadir o prédio do Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021. Por causa desse dia vergonhoso, em que cinco pessoas morreram, ele ainda foi excluído das principais redes sociais, perdendo seu principal canal para falar com milhões de americanos. Com tantos obstáculos, um retorno de Trump ao poder parecia impensável.

Um ano e meio depois de sua despedida de Washington, não há quem ouse dizer que as chances de Trump voltar à Casa Branca foram liquidadas. Uma combinação de fatores, que vão da economia já em recessão técnica à falta de concorrentes no Partido Republicano, indicam que as chances de Trump só aumentam. Seu maior empecilho natural seria a idade. Mas, se eleito em 2024, o republicano teria 78 anos, a mesma idade com que o democrata tomou posse. E se o duelo for entre os dois, o democrata já terá completado 82.

Naquele mesmo dia em que deixou a Casa Branca, em 2020, Trump fez um discurso na base aérea de Maryland, antes de seguir para seu resort na Flórida. Ao lado de familiares, ele prometeu “voltar de alguma forma”. O republicano ainda não anunciou sua candidatura para a próxima eleição presidencial, mas já deu todos os sinais de que irá fazê-lo. Na última terça, 26, ele voltou pela primeira vez a Washington, onde falou em um hotel durante um evento de uma entidade que o apoia, o America First Policy Institute.

Em um discurso de 97 minutos, Trump disse que venceu as eleições presidenciais duas vezes, em 2016 e 2020, voltando a mentir que houve fraude na vitória de Biden. “Nós podemos fazer isso de novo”, disse. A plateia, então, o aplaudiu, pedindo “mais quatro anos” na presidência.

O retorno de Trump a Washington é carregado de simbolismo. Em 2016, o bilionário, que não tinha experiência anterior em cargos políticos, também era tratado com desdém pela elite política, incluindo quadros do Partido Republicano. Sua principal promessa era ir para a capital para “drenar o pântano”, o que significava atacar os privilégios de congressistas e burocratas. Seu bile contra os políticos tradicionais foi um dos principais chamarizes para os americanos de classe média e sem diploma universitário, que sentiam ter sido injustamente deixados para trás pelos ricos e nutriam ressentimento contra os líderes políticos em Washington.

Casa BrancaCasa BrancaBiden despacha ao lado de seu cachorro: aprovação menor que a de Trump
O mesmo discurso poderá ser eficaz em 2024. Primeiro, porque poucas pessoas encarnam mais o establishment em Washington do que Joe Biden, que cumpriu seis mandatos consecutivos no Senado antes de tornar-se vice de Barack Obama. “O discurso contra o establishment provavelmente seguirá poderoso. O atual presidente tem circulado pela capital há décadas. Além disso, muitos dos candidatos que Trump derrotou no passado, sejam republicanos ou democratas como Hillary Clinton, foram prejudicados por suas relações com o establishment”, diz o cientista político Martin Geoffrey Cohen, professor da Universidade James Madison e especialista no Partido Republicano. “Ao mesmo tempo, Trump é o mais antiestablishment de todos, porque não há nada mais contra o sistema do que o que ele fez no Capitólio.”

Há bons motivos para acreditar que o ódio contra o sistema estará em alta nos próximos meses e anos. Os Estados Unidos acabam de completar dois trimestres seguidos de contração do PIB, o que já pode ser considerar recessão. A inflação dos últimos doze meses, de 9,1%, é a maior em 40 anos e tem obrigado o Federal Reserve, o Banco Central americano, a subir seguidamente as taxas de juros. Para comparação, quando Trump deixou a Casa Branca, a inflação era de 1,4%. Grandes cidades americanas também têm enfrentado uma onda de criminalidade, algo que Trump atribuiu em seu último discurso à “fronteira escancarada” com o México.

A torcida de muitos democratas era a de que a atual comissão formada no Congresso para investigar a participação de Trump no assalto ao Capitólio, que retomará os trabalhos em setembro, teria um efeito negativo em sua popularidade. Mas as audiências e evidências coletadas até agora praticamente não mudaram a percepção que os eleitores republicanos têm do ex-presidente. Desde dezembro, a porcentagem de adeptos do partido republicano que acreditam que a invasão do Capitólio foi uma insurreição e uma ameaça à democracia aumentou de 10% a 12%. É uma mudança ínfima. “Muitos achavam que a comissão seria o golpe final contra Trump, mas milhões de seus seguidores simplesmente não estão prestando atenção às audiências da comissão, que eles consideram partidárias e injustas”, diz Geoffrey. “Essas pessoas estão prontas a votar em Trump amanhã ou em 2024.”

Notícias também têm sido divulgadas sobre potenciais rivais republicanos que poderiam derrotar Trump nas primárias do Partido Republicano. O New York Times chegou até a estampar em julho uma notícia com o título: “Metade dos republicanos estão prontos a deixar Trump para trás”. É aquilo que os americanos chamam de wishful thinking, pensamento mágico. Os números divulgados pelo jornal falam por si: 49% dos entrevistados preferem Trump e 25%, o governador da Flórida Ron DeSanctis. Todos os demais não chegam a 7%.

O republicano ainda poderá ser favorecido pela baixa aprovação ao governo de Biden, que atualmente está em 31%, segundo pesquisa da Universidade Quinnipiac. É menos do que teve Trump em seu pior momento, no final de 2017, quando o republicano amargou apenas 33% de aprovação. “Trump pode derrotar Biden em 2024, caso encontre as condições certas. Se os Estados Unidos ainda estiverem enfrentando uma inflação alta ou uma recessão, ele pode vencer em uma disputa acirrada”, diz o cientista político americano David Karol, da Universidade de Maryland. Para quem achava que Trump se aposentaria da política ao deixar a Casa Branca, melhor ajustar as expectativas. A única maneira de impedi-lo seria por meio de cassação dos direitos políticos, no caso de ele ser culpabilizado pela comissão parlamentar que investiga a sua participação na invasão do Capitólio. Mas, para que isso ocorra, seriam necessários os votos de dois terços dos senadores. O Senado americano, no entanto, tem 50% de republicanos.

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  1. Que todos os deuses livrem a América, as Américas e o planeta, do nefasto, nocivo, demente e marginal agente-laranja!!! Não é possível que os EUA sejam idiotas 2 vezes mais desta vez!!!

  2. Biden deu muito azar. Talvez se Trump estivesse no poder atualmente, a visão sobre ele seria muito diferente. Talvez seria o fim da era Trumpista.

  3. O Trump é um gangster, porem, um gangster competente. Ele é muito parecido com o Lula na sua essência, não na origem, trajetória e aparência. Ambos são eficientes mentirosos que não se envergonham de mentir descaradamente. São políticos cruéis e desleais sem a menor empatia por quem quer que seja. Seu comportamento com as mulheres é muito parecido. São vaidosos, narcisistas, bons oradores e especialistas em plateias amestradas. Tem sorte, sucederam governos eficientes como o do FHC e do Obama.

  4. O BOZO deve ficar eufórico lendo a reportagem! Provavelmente, daqui a 4 anos, 2026, as coisas estarão pior, pois seu LEGADO, esse sim, é uma HERANÇA MALDITA.... Chupa que é de uva, SAPO BARBUDO... Se tal prognóstico sombrio se concretizar, teremos quase 30 anos de total DESPERDÍCIO. (2002 a 2030)

  5. Olha aí o exemplo para nosso presidente. Ele talvez não tenha tanto medo de perder vendo o topetudo ensaiando seu retorno. Infelizmente Biden não está conseguindo fazer um bom trabalho.

  6. A única pessoa que morreu na manifestação do dia 6/1 se chamava Ashli Babbit; era uma apoiadora do Trump que foi morta com um tiro de um policial. Ela estava desarmada. Já se vê, daí, o grau de desinformação desse artigo.

  7. Esse pessoal devia se juntar aos bolsonaro e congêneres, e fundar um país só deles - de ogros branquinhos e bem armados: quem sabe assim, não se matavam entre eles. De preferência, no inferno.

    1. Que tal os especialistas de plantão, profundos conhecedores da política americana, tirarem um tempinho pra conversar com algum americano pagador de impostos e não lacrador, por que eles querem a volta do Trump?

  8. O fim de Trumper será o mesmo de Bolsonaro, ou vice e versa.... CADEIA... Vão cansar-se de fazer a mesma pergunta um ao outro. - -"-ONDE NÓS ERRAMOS ".

    1. Perfeito. Só que o genérico do Trump, do Brasil, é um covarde. Não tem peito para nada, lembra do 7 de setembro na Av. Paulista ¿ the day after abaixou às calças etc

  9. Trump é nacionalista e a família dele não tem negócios com a China. Ele tem coragem de indispor-se com a Rússia e a China.

  10. Negacionismo é isso: o articulista segue com a premissa de que Trump foi um acidente. Ele catalisa os anseios da maioria da população norte-americana. Aceita que dói menos.

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