RuyGoiaba

Meu genocídio é melhor que o seu!

24.01.20

Falar da “bolha das redes sociais” é um clichê, mas confesso que nunca desejei tanto que ele fosse verdadeiro quanto na semana que passou. As pessoas da internet – as mesmas da vida real, mas com menos filtro — estão muito loucas. Começou com Roberto Alvim, o Dr. Strangelove do governo Bolsonaro (só faltou o mein Führer, I can walk!), e aquele discurso que citava Joseph Goebbels ao som de Richard Wagner. Veio um amigo meu perguntar: “Você acha que ele é nazista?”. Eu respondi que não, imagine, que é isso: alguém que expõe um projeto abrangente para a cultura usando trechos literais do ministro da Propaganda de Hitler certamente só pode ser, sei lá, palmeirense.

Pouco depois apareceu gente culpando “esses judeus que votaram no Bolsonaro”, ou dizendo que Alvim só foi exonerado do cargo porque desagradou a eles (na linha “não mexa com esses judeus, porque eles mandam no mundo” — só faltou citar os “Protocolos dos Sábios de Sião”). Como se judeus fossem todos iguais — e como se antissemitismo, quando se é uma pessoa DO BEM, fosse muito bacaninha e estivesse liberado (vamos lá combater ideias nazistas sendo ainda mais antissemitas que eles! Vai dar supercerto!).

E, já que a desgraça ama companhia, logo surgiram stalinistas — aqueles seres que deveriam estar na lata de lixo da história, mas circulam todos pimpões pelas redes e até são aplaudidos — muito indignadinhos por terem sido comparados com o regime hitlerista, que absurdo, afinal o comunismo tinha IDEAIS etc. Fiquei esperando algum deles mandar um “meu genocídio é melhor que o seu!”, o que ainda não rolou; talvez seja só questão de tempo (em compensação, negacionismo do Holodomor já teve). E aguardo um teste do BuzzFeed ou de outro site do gênero, na linha “clique aqui para saber qual genocídio você é”. O genocídio está na moda, o mundo aplaudiu, é um barato, é um sucesso etc.

Dias atrás, essa lasanha com várias camadas de insanidade e estupidez foi coberta por um molho especial: um idiota do Facebook, que a Folha transformou em colunista provavelmente por ser um veículo muito inclusivo e reservar cotas para gente desprovida de cérebro, escreveu longo texto cobrando artistas populares (Anitta, Thiaguinho, Maiara & Maraísa, o youtuber Whindersson Nunes) por não terem se manifestado no episódio do discurso de Alvim. Ato contínuo, acrescentou uma ilustração em que colocava uma braçadeira nazista na dupla sertaneja feminina — o que provocou uma nota de repúdio de Maiara & Maraísa, com ameaça de processo, e um pedido de desculpas do jornal.

Então fica assim: agora a sinalização de virtude é obrigatória. E, como disse o Whindersson, se você não afirmar o tempo todo que a água é molhada, o fogo queima e o nazismo é inadmissível, é conivente e, portanto, TAMBÉM nazista. Zeca Pagodinho estava tomando sua cervejinha lá em Xerém e não se manifestou sobre o discurso do Alvim? Nazista — e a cerveja com certeza era alemã. Paulinho da Viola também não disse nada? Logo vi: ele só grava compositores arianos (como ele mesmo, Cartola e Nelson Cavaquinho) e vive cantando “Foi um Reich que Passou em Minha Vida”. Roberto Carlos não abriu a boca? É ainda mais Dr. Strangelove que seu xará Alvim. E aposto que Carlinhos Brown não se posicionou por causa de seu evidente parentesco com Eva Braun.

De tudo, fica apenas uma certeza: o Ilê Ayê Afoxé Filhos de Stályn vai bombar neste Carnaval. Com a concorrência acirrada dos Filhos de Hytler.

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A GOIABICE DA SEMANA

Como sempre digo, graças a Deus o Brasil esculhamba tudo: mal aparece o ex-secretário da Cultura com aquela conversa de “arte heroica” e “enraizada na nobreza de nossos mitos fundantes”, vem o Bananão e PÁ, esfrega um Romero Britto na nossa cara. O artista, que já retratara Lula, Dilma e Sérgio Cabral no seu estilo peculiar, conseguiu a proeza de pintar Jair Bolsonaro com a boca rosa –como se o presidente tivesse acabado de passar um batom Boka Loka — e ser elogiado por Flávio Bolsonaro, que postou a obra-prima no Instagram.

Viva Romero Britto, portanto: único artista capaz de não apenas unir um país dividido como retratá-lo em cores escandalosas. A cafonice nos redimirá.

Bolsonaro de batonzão e Dilma fofinha: Romero Britto é 100% fiel à realidade

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TERRY JONES (1942-2020)

Terry Jones foi talvez o mais discreto dos integrantes originais do Monty Python –ou o que mais aparecia como escada dos outros nos esquetes clássicos da trupe na BBC. Foi também um dos criadores da estrutura inovadora do programa de humor e dirigiu filmes hoje clássicos, como “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” e “A Vida de Brian”, no qual também interpretou a mãe do protagonista (“he’s not the Messiah, he’s a very naughty boy!”). Fará muita falta em um mundo cada vez mais mal-humorado e de escassa inteligência. Descanse em paz.

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