Marine Le Pen, Matteo Salvini e o holandês Geert Wilders: sem poder bloquear novas leis

O que muda na Europa

O impacto das eleições da semana passada foi quase nulo no Parlamento Europeu, mas o seu resultado já interfere na política dos países do continente
31.05.19

Os resultados da eleição para o Parlamento Europeu formam, em geral, uma salada ideológica de digestão lenta. Em geral, os candidatos montam suas campanhas centradas em temas locais, como a independência da Catalunha ou a presença do Exército turco no norte da ilha de Chipre. Quando as siglas vencedoras dos 28 países que integram a União Europeia (UE) se organizam em blocos em Estrasburgo e Bruxelas, a confusão começa. O Parlamento tem 24 idiomas oficiais e emprega 600 tradutores. Além disso, as configurações partidárias são tão diversas quanto frouxas. Entre elas, há os “ecologistas e regionalistas”, os “centristas-liberais” e, como sempre, os “outros” e os “independentes”. De forma geral, o que se pode dizer das eleições que terminaram no domingo, 26, é que a centro-esquerda e a centro-direita perderam cadeiras. Os ambientalistas e os liberais ganharam terreno, assim como os nacionalistas e populistas (de direita). A esquerda radical perdeu cadeiras. O que isso altera no dia a dia do Parlamento Europeu? Muito pouco ou quase nada.

A maior expectativa durante a campanha era em torno do avanço dos partidos nacionalistas e populistas de direita, como a Liga, da Itália, o Reunião Nacional, da França e o Fidesz, da Hungria. Os três terão mais cadeiras na próxima legislatura e foram os mais votados em seus respectivos países. A Liga, de Matteo Salvini, teve 34% dos votos. O Reunião Nacional, de Marine Le Pen, 23%. O Fidesz, de Viktor Orbán, 52%. Dentro do novo Parlamento, contudo, a força deles será relativa. A turma que une Salvini e Le Pen, o Europa das Nações e Liberdade (ENF) terá 58 cadeiras, bem mais do que as atuais 37. Se todos os nacionalistas de direita pudessem ser reunidos, eles teriam em torno de 150 assentos. É pouco em um universo de 751. Além disso, os eurocéticos estarão em três grupos diferentes, uma vez que há diferenças marcantes entre eles, como a posição em relação a meio ambiente, Rússia e cotas de imigração. “Os partidos populistas tentarão ser uma força disruptiva no próximo Parlamento Europeu, mas provavelmente eles terão um impacto limitado, uma vez que não possuem a maioria”, diz a cientista política Alexandra Kellert, da consultoria de riscos Control Risks, em Paris.

As regras internas também inviabilizam que os populistas exerçam influência nos braços executivos do bloco. Cabe ao Conselho Europeu, que reúne os chefes de estado e de governo, sugerir um nome para chefiar a Comissão Europeia, o órgão responsável por implementar as leis. Isso deve acontecer entre os dias 20 e 21 de junho. Na escolha, os líderes dos países podem levar em conta os resultados do Parlamento Europeu ou ignorá-los solenemente. O que conta são as negociações políticas. O nome então deve ser levado ao Parlamento Europeu, que inicia seus trabalhos no início de julho. A aprovação do indicado se dá por maioria simples. Em novembro, o atual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, ex-primeiro-ministro de Luxemburgo, deixará o cargo. Em dezembro, o presidente do Conselho Europeu, o polonês Donald Tusk, será substituído após uma eleição dentro do próprio órgão.

Populistas e nacionalistas também não terão qualquer chance de bloquear sozinhos a criação de novas leis no Parlamento. “Como dois terços dos novos deputados serão a favor da Europa, os nacionalistas só conseguiriam frear um novo projeto fazendo alianças com outros grupos”, diz Paul James Cardwell, professor de lei e política europeia na Universidade de Strathclyde, na Escócia. Em alguns casos, eles poderão ficar tentados a cantar vitória mesmo quando não conseguirem nada. Isso porque alguns projetos de lei que dão mais soberania para a União Europeia, como a criação de um Exército único ou uma legislação tributária comum, já tinham sido descartados por falta de acordo. “A principal lição que pode ser tirada dessa eleição é que a Europa não continuará avançando para uma integração ainda maior”, diz o embaixador Marcos Azambuja, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), no Rio de Janeiro. “Não existe, contudo, a possibilidade de demolir o que já foi construído.”

Segundo Azambuja, os motivos que levaram à criação da União Europeia perderam ímpeto. Entre eles, estão o medo de uma III Guerra Mundial deflagrada pelos nacionalismos europeus, o temor de uma intervenção russa e a vontade de contrabalançar o poderio americano. A demolição da UE, contudo, não encontra guarida entre a maioria dos seus habitantes. De acordo com 68% deles, a entrada no bloco fez bem ao seu país. O índice de aprovação é maior nas nações que eram menos desenvolvidas e se somaram ao grupo no final dos anos 1970, como a Irlanda (83% favoráveis), e na década de 1980, como Espanha e Portugal (69% favoráveis). Eles deixaram para trás conflitos civis e ditaduras sangrentas para se tornar democracias plenas. Foram esses países os que mais se beneficiaram do acesso a um mercado de quase 500 milhões de pessoas, dos investimentos públicos e da livre circulação de bens e de pessoas.

Nas últimas duas décadas, a falta de uma política fiscal rigorosa comum fez com que alguns países mediterrâneos, como Grécia, Itália, Espanha e Portugal, aumentassem suas dívidas públicas para além de suas capacidades. Como adotaram o euro, eles não são mais capazes de desvalorizar a moeda local para equilibrar as contas. Nos últimos anos não houve outro remédio senão cortar gastos. As medidas de austeridade provocaram enorme chiadeira. Paradoxalmente, o euro hoje possui uma aprovação maior do que a da União Europeia, normalmente fustigada por sua conivência com a imigração ilegal e pelo excesso de burocracia. “Mesmo em países como a Itália ou a Grécia, em que a população reclama muito da União Europeia, o euro desfruta de uma elevada aprovação popular”, diz o francês Julien Marcilly, economista-chefe da seguradora de crédito Coface, em Paris. “As pessoas gostam do euro porque reconhecem que com ele ficou mais fácil viajar e fazer negócios em outros países. Sabem que é uma moeda sólida e que, por causa dela, não há mais inflação.”

Nigel Farage em campanha do Partido Brexit, criado há seis semanas: sem ter como negociar o acordo de saída da União Europeia
O Reino Unido, em que a população optou por deixar o bloco em um referendo em 2016, é um dos países em que menos gente se declara favorável à UE: 43%. Nas eleições para o Parlamento Europeu, o Partido Brexit ficou na dianteira, com 32% dos votos. Com apenas seis semanas de vida, a organização liderada por Nigel Farage terá 29 representantes. Só não se sabe muito bem o que seus membros farão em Bruxelas. A suspeita é a de que eles irão imitar as táticas do Ukip, o antigo partido de Farage que se radicalizou e quase desapareceu do mapa. “Seus deputados devem comparecer às reuniões apenas para receberem seus salários e farão discursos irritados de vez em quando no plenário, mas não deverão se envolver muito nos processos políticos”, diz Alexandra Kellert, da Control Risks. Após a eleição, Farage falou em participar das negociações do Brexit, o que é inviável. Seu recém-criado partido não tem representantes no Parlamento inglês, onde as conversas de fato acontecem.

Mais do que alterar o funcionamento do Parlamento Europeu, o resultado das eleições da semana passada, que contaram com a participação de 51% dos eleitores (com exceção do Reino Unido), a mais alta dos últimos vinte anos, terá muito mais impacto nos diversos planos nacionais. Tradicionalmente, as eleições para o Parlamento Europeu costumam ser um termômetro para medir a popularidade do governo de turno, o que pode ser usado contra ou a favor pela situação ou pela oposição. O último pleito não foi exceção. Leia a seguir as principais consequências dessas eleições nos quatro maiores países da União Europeia, com exceção do Reino Unido, onde a novela do Brexit teve mais um capítulo com a renúncia da primeira-ministra Theresa May, que será substituída no próximo dia 7 de junho:

 

Itália

A eleição para o Parlamento Europeu mudou o equilíbrio político no país, que é governado por uma coalizão entre a Liga, do vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, e o Movimento 5 Estrelas, criado pelo comediante Beppe Grillo e que tem no governo, também como vice-primeiro-ministro, o jovem Luigi di Maio. O grupo de Salvini teve 34% dos votos, enquanto o 5 Estrelas caiu para 17%. O resultado evidenciou que o 5 Estrelas vem perdendo apoio dos italianos. Por outro lado, a Liga, que antes se chamava Liga Norte e depreciava os italianos do sul, teve boas votações de Nápoles para baixo na península, principalmente nos lugares que mais receberam imigrantes. Na ilha de Lampedusa, por exemplo, obteve 46% dos votos. Ou seja, tornou-se um partido nacional. Os italianos deram carta branca para a política anti-imigração de Salvini.

Reprodução/redes sociaisReprodução/redes sociaisMatteo Salvini, da Liga e vice-primeiro-ministro da Itália, comemora o bom resultado nas eleições do Parlamento Europeu: mais votado em todo o país
Animado com o desempenho da Liga, Salvini poderia pedir ao presidente da Itália para convocar novas eleições nacionais e, assim, concretizar o bom momento. Ele, contudo, disse que manterá a coalizão. A ver. Salvini também prometeu renegociar seu orçamento com a União Europeia para poder gastar mais em obras de infraestrutura. É algo que deve ficar na conversa. “Salvini não tem tantos amigos assim em outros blocos da União Europeia para conseguir um abrandamento nas leis sobre os gastos públicos”, diz o italiano Alfredo di Feo, professor de finanças europeias no European College de Parma, na Itália. “Qualquer concessão por parte da União Europeia exigirá muita negociação.” Aliás, logo depois do resultado da eleição, Bruxelas enviou uma carta a Roma avisando que abrirá um procedimento para punir a Itália porque o país aumentou o déficit público para além do acordado com a UE.

 

Espanha

Há apenas um mês, os espanhóis saíram de uma eleição em que o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) conseguiu manter-se no poder, ainda que de forma cambaleante. Em abril, a sigla foi a mais votada, mas só levou 28% dos votos. Como nenhum do rivais se saiu melhor, isso foi o suficiente para que o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, continuasse com um governo de minoria. Na eleição para o Parlamento Europeu, os espanhóis deram aos socialistas um pouco mais de confiança: 34%. Isso solidificou a posição de Sánchez, que deve ficar menos inclinado a fazer coligações. “Uma formação de governo com o Podemos, mais radical, agora parece menos provável, dado que eles tiveram um resultado muito negativo, apenas seis cadeiras”, diz o cientista político espanhol Guillem Vidal.

ReproduçãoReproduçãoO primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez: país se consolidou como um dos mais europeístas de todos que integram a UE
Os deputados eleitos pela Espanha também devem fortalecer a coesão da UE. “Poucos países da União Europeia são tão europeístas quanto a Espanha”, diz o cientista político Jesús Palomar, da Universidade de Barcelona. Na Espanha, a Europa é vista com um símbolo da modernização. Mesmo os seis deputados eleitos pelo Vox, de direita, não se declararam contrários à União Europeia.

 

Alemanha

Após treze anos como chanceler, Angela Merkel, do União Democrata Cristã (CDU), já estava de saída. Em dezembro, ela deixou o comando do partido. No ano que vem, quem assume o país é sua sucessora de nome quase impronunciável: Annegret Kramp-Karrenbauer. No Parlamento Europeu, o CDU foi o mais votado, com 28%. Os social-democratas, que entraram na coalizão de governo no ano passado, tiveram apenas 16%. Os números pífios tornam mais complicado que esses partidos obtenham a maioria dos votos em uma próxima eleição. A grande surpresa foi o Partido Verde alemão, o segundo mais bem colocado na eleição para o Parlamento Europeu, com 20% dos votos. Um em cada três jovens com menos de 25 anos escolheu os verdes. É um sinal de que o eixo político da Alemanha está mudando.

 

França

O Reunião Nacional, de Marine Le Pen, teve 23% dos votos e ficou ligeiramente à frente do República em Marcha, do presidente Emmanuel Macron, com 22%. Trata-se de um quadro já conhecido dos franceses, uma vez que Le Pen costuma se sair melhor nos pleitos europeus do que nos nacionais. O duelo entre Le Pen e Macron repete o segundo turno das eleições presidenciais de 2017, em que os dois partidos mais tradicionais do país, o Socialista e o Os Republicanos (antigo UMP), ficaram de fora. Mas com resultado invertido. Para as eleições presidenciais de 2022, Macron segue como o favorito, ajudado principalmente pela alta rejeição a Marine Le Pen. De qualquer forma, Macron sai enfraquecido internamente. Acossado também pelos coletes amarelos, cuja presença nas ruas diminuiu, mas cujo espírito anti-reformas continua bem vivo, o presidente francês deverá sofrer ainda mais resistência para realizar as suas reformas liberais. Outros resultados interessantes das eleições europeias na França foram a ascensão dos Verdes, que obtiveram o terceiro lugar, impulsionados pelos votos dos eleitores com menos de 25 anos, assim como na Alemanha, e o naufrágio do outrora poderoso Partido Socialista — que conseguiu apenas 6,6% dos votos, pouco acima do limite mínimo de 5% que dá direito a ter cadeiras no Parlamento Europeu. No começo dos anos 2000, os socialistas tinham 28% dos votos dos franceses nas eleições europeias. Vai faltar caviar para a esquerda caviar parisiense.

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500
  1. Discordo veementemente da afirmação de Crusoe, pois se os socialistas franceses reduziram sua participação de 28% para 6,6% e a oferta de caviar no mercado internacional continua a mesma, deve sobrar caviar e não faltar....

  2. Tenho q fazer aqui uma pequena correção sobre a Alemanha. AKK, a sucessora de Merkel no partido, ñ a sucederá no Governo, pois, p/ isso, tem q haver eleições. Como AKK, depois de declarações de zero importância se fosse no Brasil, mas pouco republicanas na Alemanha, está vendo sua estrela cair, poderemos ver "a nossa Angie" candidatar-se ao seu 5° mandato. Ela é o governante alemão há + tempo no Poder, mas seria o 1° a tentar um 5° mandato. Pra frente, Angie, estamos c/ vc. Mas AKK tb seria boa!

    1. CRUSOÉ, ALGUNS PROBLEMAS TÉCNICOS -- Qdo faço o comentário, muitas vezes não aparece como "enviado". Aí fico tentando enviar várias vezes sempre com o mesmo resultado. RESULTADO: depois de algum tempo aparece as várias tentativas de formas diferentes. Passei mais de 6 meses sem conseguir fazer comentários apesar das mil reclamações. Alguma coisa está errada com a técnica de vcs.

  3. Salvini está crescendo mesmo no Sul da Itália, pois são aquelas pessoas as que sofrem mais diretamente o impacto da imigração elevada.

  4. Luxemburgo não tem nem nunca teve "presidente". É um Grão-Ducado hereditário. Juncker foi primeiro-ministro de Luxemburgo. Tá faltando conhecimento básico pra escrever sobre União Europeia...

  5. Muito boa reportagem, lembrando que a população, sabendo da sua limitada influência sobre as decisões do bloco, vota muito mais com o fígado neste momento, aproveita para fazer um voto de protesto. Nas votações nacionais, no entanto, a maioria racional dos eleitores tem uma melhor ideia da repercussão de seu voto e por isso vota com mais consciência. Por isso, por exemplo, ninguém acredita que no Reino Unido o sucesso do populista Farage vá se refletir em futuras eleições britânicas.

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