ReproduçãoGuedes, Bolsonaro e Leite: coletiva de imprensa para mudar o nome de um comitê interministerial

Vergonha precificada

Avesso a compromissos e sem apresentar avanços na proteção ao meio ambiente, o Brasil será a vidraça da COP26, que começa neste fim de semana em Glasgow
29.10.21

A 26ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre a Mudança Climática começa em Glasgow, na Escócia, neste domingo, 31. Estima-se que 20 mil diplomatas, ambientalistas e chefes de governo de 197 países participarão das conversas, para evitar um aumento da temperatura acima de 2 graus nos próximos dez anos. Para o evento deste ano, o senso de urgência cresceu depois que cientistas apontaram que os esforços para conter o aquecimento global precisam ser apressados para evitar catástrofes como ondas de calor, uma alteração nos ciclos climáticos na Amazônia e a extinção dos corais. Nesse jogo planetário, no qual é impossível prever as chances de sucesso ou de fracasso, o Brasil chegará isolado e com uma capacidade diminuta de atuação. Por não mostrar disposição para impedir a destruição das florestas e por manter suas posições sob intenso secretismo, o país será um dos principais alvos dos protestos programados para as próximas duas semanas. Fora da arena política, os ambientalistas torcem pela aprovação regulada de um mercado de carbono em que os países poderiam comercializar créditos de emissões de gases de efeito estufa. A expectativa é que, pelo menos nesse item, o Brasil não seja um entrave.

Os dois países que mais apostam nesta COP26 são o Reino Unido, a sede do evento, e os Estados Unidos. Assim que tomou posse na Casa Branca, em janeiro, o presidente democrata Joe Biden recolocou o seu país no Acordo de Paris, assinado em 2015, e passou a exigir dos outros mais ambição na redução das emissões de gases de efeito estufa. Biden, que irá a Glasgow, prometeu cortar, até 2030, as emissões americanas em 50%, em relação aos níveis de 2005. Boris Johnson, o primeiro-ministro do Reino Unido, agora fora da União Europeia, foi quem trouxe a meta mais ambiciosa: reduzir as emissões em 78%, até 2035.

A meta brasileira é uma decepção. Em 2015, o governo brasileiro se comprometeu a cortar as emissões em 37%, até 2025, e em 43%, até 2030. Na comparação com outros países que integram o G20, que terá um encontro nesta semana, o Brasil ficou na lanterna. Segundo um relatório divulgado nesta semana pela ONU, o país é o único nesse grupo que está promovendo um aumento da meta, o que violaria o Acordo de Paris, com base em contas ajustadas unilateralmente. Na prática, o Brasil estaria se permitindo jogar na atmosfera mais 300 milhões de toneladas de gás carbônico. Entre os ambientalistas, a mudança foi apelidada de “pedalada climática”.

Cientes de que não é tão fácil enganar o mundo, a comitiva brasileira foi reduzida ao mínimo possível. O presidente Jair Bolsonaro não embarcará.Ele nem teria muito o que fazer em Glasgow, porque os outros líderes de governo evitariam cumprimentá-lo”, diz Márcio Astrini, secretário-executivo da ONG Observatório do Clima. “O Brasil deixou de ser o país que todos esperam entrar na sala para começar a conversar e se tornou a nação que faz todos saírem da sala quando entra.” O vice Hamilton Mourão, que coordena o Conselho da Amazônia, foi cortado da delegação. O ministro de Relações Exteriores, Carlos França, também não viajará. “É muito estranho que o Carlos França não vá. As delegações, em geral, contam sempre com a presença dos ministros de meio ambiente e de relações exteriores, mesmo que não seja durante todo o tempo das negociações”, diz Eduardo Viola, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP.

ReproduçãoReproduçãoO palco preparado para a COP26 em Glasgow
O Brasil será representado pelos ministros do Meio Ambiente, Joaquim Leite, e de Minas e Energia, Bento Albuquerque, além do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. A Argentina, para comparar, irá com o presidente Alberto Fernández, com o ministro de Relações Exteriores, Santiago Cafiero, e com o ministro de Meio Ambiente, Juan Cabandié. Biden levará metade de seu gabinete, incluindo o secretário de Estado, Antony Blinken, e o secretário especial para o clima, John Kerry. No total, a previsão é que 120 chefes de estado marquem presença. Entre os que não irão, além de Bolsonaro, estão o ditador chinês Xi Jinping, o presidente russo Vladimir Putin e o mexicano Andrés López Obrador.

Nos últimos meses, movimentos de empresários, organizações ambientalistas, governadores e cientistas tentaram convencer o governo brasileiro a elevar a meta de redução de emissão de gases de efeito estufa. Ainda que algumas reuniões tenham sido marcadas, não foi dado qualquer retorno. Ninguém fora do governo sabe dizer se uma nova meta será anunciada antes ou durante a COP26. Não seria surpresa se a dúvida ainda existir dentro do governo. Na segunda-feira, 25, o presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e Joaquim Leite convocaram uma entrevista coletiva para falar de um plano ambiental. Ninguém tocou no assunto da meta de emissões. O principal anúncio foi a mudança de nome, por decreto, do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima para Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima e Crescimento Verde.

Em seguida, Joaquim Leite chegou a ventilar nos dias seguintes que o Brasil subiria a meta em dois pontos percentuais, de 43% para 45%, em 2030. Se isso é verdade, a grande pergunta é por que isso já não foi anunciado na segunda-feira, com a presença de Jair Bolsonaro. Uma possibilidade é que os negociadores pretendam propagandear a nova meta ao pisar em Glasgow, para arrefecer a antipatia dos demais. “É possível que tentem isso, mas esse aumento da meta é algo mínimo, se comparado com o que seria necessário, principalmente depois da pedalada climática. Certamente isso não reduziria as críticas ao Brasil”, diz o professor Eduardo Viola.

Para ser respeitado em Glasgow, qualquer país precisa mostrar ações concretas ou resultados vistosos. Mas o Brasil continua passando vergonha. Nesta quinta, 28, o Observatório do Clima divulgou que as emissões brasileiras em 2020 cresceram 9,5%. O aumento ocorreu na contramão do resto do mundo. Com a pandemia, a economia da maior parte dos países diminuiu a marcha, o que gerou uma queda de 7% as emissões globais. No Brasil, contudo, a alta do desmatamento, em especial na Amazônia, fez com que o país tivesse sua maior emissão desde 2006, apesar de uma queda de 4,1% do PIB em 2020.O Brasil ficou mais pobre e poluiu mais”, pontua o relatório. A constatação é um péssimo cartão de visitas.

Official White House/Katie RicksOfficial White House/Katie RicksJoe Biden levará metade do seu gabinete para a COP26
A esperança dos ambientalistas é que a falta de paciência com o Brasil não afete as negociações que ocorrerão nas salas fechadas. As atenções estão todas voltadas para a aprovação do artigo 6 do Acordo de Paris, que pode criar as regras para o funcionamento de um mercado de carbono global. Em seu artigo 6.2, o projeto permite que países que não cumprirem a meta possam comprar créditos de nações com bom desempenho. As chances de aprovação desse ponto, segundo os envolvidos, são grandes. Outro ponto é o artigo 6.4, que possibilita que entidades públicas e privadas comercializem créditos em vários países. Se der certo, uma empresa brasileira poderia realizar um projeto de reflorestamento e vender os créditos para uma indústria polonesa que utiliza energia produzida a partir da queima de carvão.

Em vários países do mundo, já existe um mercado de carbono voluntário, em que as companhias compram e vendem esses créditos. Empresas aéreas, que usam muito querosene como combustível de aeronaves, estão entre as principais compradoras. A COP26 poderia ajudar a criar padrões únicos e regras para facilitar essas transações. Além disso, o estabelecimento de metas de emissões com a chancela da ONU seria uma maneira de obrigar que países e empresas assumissem compromissos e se dispusessem a gastar dinheiro para respeitá-los.

No Brasil, o deputado Marcelo Ramos, do PL, vice-presidente da Câmara, elaborou um projeto de lei com o objetivo de criar um mercado regulado de carbono. A partir das metas acordadas em Glasgow, setores da economia passariam a ter suas próprias cotas. A relatora do projeto é a deputada bolsonarista Carla Zambelli, do PSL. Porém, indecisões sobre o texto final adiaram a votação em plenário, que depende de uma decisão do presidente da Câmara, Arthur Lira. “Alguns setores do governo e o presidente da Câmara, Arthur Lira, defendiam que o projeto falasse apenas sobre o mercado voluntário, mas esse mercado já existe e não depende de lei”, diz Marcelo Ramos, que irá para a conferência da ONU. Até esta quinta, 28, Lira não tinha confirmado se também irá a Glasgow. Ele disse que o projeto pode ser posto em votação na próxima semana. “Tenho falado com muitos embaixadores e a imagem do nosso país está muito ruim no exterior. O próprio Lira ficou muito assustado depois de participar de um evento anterior à COP, em Roma. O mundo não acredita mais nas palavras do Brasil. É preciso mostrar gestos concretos”, diz Ramos.

A condição de vidraça do Brasil na conferência, ao que tudo indica, será inevitável.

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  1. Acho indiscutível que os países desenvolvidos que predaram seu meio ambiente, por ignorância ou ganância, devam contribuir com a preservação do que restou em outras coordenadas geográficas. Nosso país é privilegiado e preservar o que temos é uma atitude inteligente, com ou sem ajuda externa ...

  2. Excelente reportagem! Faltou apenas informar que, em vista da inação criminosa do governo federal em relação à pauta ambiental, os governadores se uniram em uma frente verde que será representada em Glasgow pelo governador do Espírito Santo, Renato Casagrande.

    1. Inação e negacionismo são a marca registrada desse desgoverno. Viramos o pária do mundo. Só Moro22 pode nós livrar da vergonha de ser brasileiro.

  3. Vergonha é esse blog do PSDB . 2 satélites só pra Amazônia, é ainda vem acreditar em europeu que já devastou seu continente há muito tempo. O problema verdadeiro é que o doido não dá dinheiro para a imprensa.

    1. Se a Europa errou no passado, porque temos que seguir este caminho 100 anos depois. Vamos parar de culpar mídia, PT, quem quer seja o governo atual é péssimo da para entender isso? Você subestima as informações que o mundo todo tem do BRASIL. Tá na hora de cair a ficha de vocês Bozo… gado 🐄

  4. Quem não faz o dever de casa, afasta investidores e torna o país motivo de chacota internacional. Com isso, o descrédito se torna presente.

  5. O Brasil não deveria nem participar! Essa turma G19 destruiu o meio ambiente ! Responsáveis pelo aquecimento global. Querem q o Brasil faça o q não fizeram! Mande o maisnada q está lá perto!

    1. É incrível a ignorância de quem não percebe que cada vez mais dependemos uns dos outros. Com Bolsonaro e gente assim vamos fechar de vez nossa economia e voltar à idade da pedra.

  6. Bolsonaro, destruindo o País com louvor. É uma vergonha pra todos brasileiros ter Bolsonaro como Presidente. Os representantes dos tres poderes,envergonham a nação. É preciso mudar o atual sistema de indicação para cortes superiores. Basta de julgamentos políticos qdo deveriam ser Jurídico. As leis são inexistentes para políticos.

  7. .. + jorNAZISMO cínico criminoso para manipular idiotas . que moral tem os europeus que destruíram seu ambiente há cem anos tem para isto? eu nem lá ia . são estes argumentos cínicos que vocês querem combater este governo? beira o ridículo.

    1. você tem toda razão. Vamos destruir tudo, acabar com a Amazônia, vender toda a madeira existente. Quando não tiver mais um vertinho , nem uma cebolinha aí sim podemos discutir em igualdade de condições, até que não demorará muito ao ritmo acelerado de destruição que vamos. Aí quando não houver mais água nem um pé de couve, podemos sentar e chorar junto, se é que haverá ainda chão.

    2. Não existe o planeta da Europa e o planeta do Brasil!!!!! É preciso o engajamento de TODO O PLANETA! Argumento infantil esse de que "já desmataram e poluíram" desconsiderando toda a evolução conseguida a partir da Revolução Industrial!

  8. Quem ainda tinha alguma dúvida qto ao amadorismo desse governo, diante desta reportagem, ñ tem +. É UM GOVERNO NEGACIONISTA EM TODOS OS SENTIDOS, OU SEJA, ESTÁ SEMPRE NA CONTRAMÃO DO BOM SENSO E DO CORRETO. Zambelli, a cadelinha do Bolsonaro (ela imita ele, tal qual minha cadela Suzuki, me imitava) está a frente de um projeto q envolve o Meio Ambiente. Se ela se acorrentar numa árvore p/ protegê-la, prometo ñ MIJAR nela. Afinal, qualquer iniciativa q defenda o Meio Ambiente é bem-vinda. Mor🇧🇷

    1. Moro2022! O Brasil precisa recuperar a autoestima dos brasileiros!

  9. VERGONHA INTERNACIONAL, ORÇAMENTO SECRETO, RACHADINHAS, CORRUPÇÃO nas VACINAS e MANSÕES para o 01 e 04! BOLSONARO é um DEGENERADO MORAL que IMPEDE o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  10. na boa nao consegui ler essa reportagem, até onde vai essa paranóia de Co2, pq os climatogistas q monstram q co2 nao aquece o clima nao sao ouvidos? O Brasil é um dos paises q mais conserva o ambiente e isso é mostrado com dados. Querem q o Brasil seja uma grande selva para deleite do primeiro mundo?

    1. Em que mundo paralelo voces bolsonaristas vivem??? Voce não assiste jornal, não entra em sites de notícias??? É possível que o mundo todo está errado e só voces cabeça de cocô estão certos né. Acorda para a realidade ou troca o cocô de vaca que voce está fumando.

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