RuyGoiaba

Todo dia é dia, toda hora é hora de palestrinha

05.08.22

Todo mundo que assistiu a alguma novela brasileira já viu cena parecida. Estão lá o mocinho e a mocinha num interlúdio romântico, abraçados e se beijando, quando a mocinha diz: “Nossa, amor, que linda essa sua camisa nova!”. “Ah, não é nova, não. É que eu comecei a usar Omo Triple Scrubs Easy Clean Action na minha máquina de lavar. Ficou parecendo nova, né?” Câmera dá close na caixa do Omo Triple Scrubs Easy Clean Action — que deve estar num lugar 100% natural, como a mesinha de centro da sala. “Uau, quero experimentar! Não sabia que o Omo Triple Scrubs Easy Clean Action tratava tão bem nossas roupas”, diz a mocinha. “E ainda é muito mais econômico!”, responde o mocinho, antes de voltar a beijar a parceira e encerrar esse diálogo cheio de espontaneidade.

Está certo, o merchandising nas novelas costuma ser mais sutil — mas não muito. Hoje, porém, a prática não se restringe a sabão em pó e produtos similares. Cientes da sua função social de iluminadores da mente do povão, os autores de telenovelas têm se dedicado cada vez mais a um merchan das boas causas (que, se a gente pensar bem, não deixam de ser um sabão em pó para consciências culpadas, ou para a sujeira da nossa alma). Nadíssima contra as boas causas, nem mesmo contra o merchan: o problema é que, em vez de abordá-las de maneira orgânica no roteiro, em diálogos que guardem alguma mínima semelhança com pessoas de verdade conversando, os autores preferem interromper a ação para que algum dos personagens faça a sua palestrinha.

Foi Joel Pinheiro da Fonseca, colunista da Folha (e meu editor na Dicta & Contradicta, revista que circulou aqui em São Paulo na época em que gigantescos répteis andavam sobre a Terra), que me chamou a atenção para o caso de Pantanal. Uma das mudanças mais visíveis no remake da Globo é o déficit de gente pelada em relação à novela original, que foi ao ar na falecida Rede Manchete em 1990. Outra, em si bem-vinda, é o tratamento dado a temas como a homossexualidade: há um personagem, o mordomo Zaquieu (Silvero Pereira), que é vítima de preconceito dos peões da fazenda de Zé Leôncio (Marcos Palmeira), um dos protagonistas da trama. No original de Benedito Ruy Barbosa, o personagem gay era motivo de troça tanto dos peões quanto dos telespectadores da novela; é obviamente bom que isso tenha mudado.

Mas é verossímil que Zé Leôncio, pantaneiro de meia-idade cuja fazenda não tem nem acesso à internet, trate do assunto fazendo para seus peões uma espécie de TED Talk sobre os males da homofobia? Joel se lembrou, muito a propósito, de uma frase clássica do romancista francês André Gide (“é com os bons sentimentos que se faz a má literatura”); acredito, porém, que a insistência em recorrer à palestrinha tem outras dimensões. Todos sabem que um problema antigo do cinema brasileiro, e de algumas séries televisivas, são os diálogos em estilo “verbete de enciclopédia” para situar o espectador no momento histórico — e cuja naturalidade é inversamente proporcional ao seu “didatismo”. Escrevi entre aspas porque geralmente se trata de mau didatismo: é como se o espírito de um professor de história ruim, que só enuncia clichês e frases feitas, baixasse no personagem do filme para mandar aos alunos o seu recadinho mediúnico.

Já citei aqui um comentário de Paulo Francis sobre Joseph Papp, diretor de teatro que chamou de “inacessível” o texto original de Shakespeare: “Você coça um populista e encontra um elitista que tem desdém pela inteligência do público”. E no fundo é isso: o uso rotineiro da palestrinha é sinal de que, além de preguiçoso demais para buscar outras soluções, o roteirista acha que o consumidor de TV, cinema etc. é burro e precisa de tudo beeem explicadinho, nos mííínimos detalhes. Talvez a maioria seja burrona mesmo; dizem que nunca ninguém perdeu dinheiro subestimando a inteligência do público. Mas acho que todos ganharíamos com a elevação do nível da conversa dentro da arte — ou do entretenimento, se você ficar incomodado em classificar novelas como “arte”.

Enquanto isso não acontece, em breve alguém deve levar ao ar um beijo gay com close na caixa de Omo Triple Scrubs Easy Clean Action. Já é alguma coisa.

***

A GOIABICE DA SEMANA

Felipe Neto, sumidade da internet, meteu-se a ler Moby Dick e ficou, como dizem os cariocas, boladaço: disse ter visto parágrafos “profundamente racistas” no romance de Herman Melville, que é de 1851, e perguntou aos seus milhões de seguidores no Twitter o que seria “recomendado” em casos assim. Houve gente com paciência para explicar o que deveria ser óbvio: no livro, Melville critica o racismo de um modo bastante progressista para um autor branco da metade do século 19, e não se pode ler uma obra dessa época com as lentes desta nossa era iluminada. Menos paciente, senti vontade de recomendar a ele alguma versão que permitisse colorir a baleia e a prótese da perna do capitão Ahab.

Reprodução/Instagram/Felipe NetoReprodução/Instagram/Felipe NetoEspero que Felipe, esse empreendedor, financie algum “Moby Dick for dummies”

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  1. Para fugir dessas celeumas minha recomendação é: NÃO VEJA NOVELAS NUNCA MAIS, princípio que adotei desde o fim da memorável Roque Santeiro…

  2. A palestrinha é, sim, educativa para o povão. Sua visão, Ruy, é elitista, não diferente da do influencer quando se refere ao racismo do passado em Moby Dick.

    1. Palestrinha faz o povão mandar autor tomar naquele lugar

    2. Palestrinha faz o povão mandar autor tomar naquele lugar.

  3. Não vi PANTANAL nem na Manchete nem na Globo, então não posso falar sobre essa novela em específico, agora, sobre os merchans e palestrinhas isso já é comum e broxante, como diria nosso ilustríssimo presidente. Não consigo mais assistir TV. Mal vejo os jornais, que já são altamente direcionados para fazer a cabeça do telespectador. E pensar que tenho uma conhecida advogada, bolsonarista raiz, que assistia a novela GENESIS, da TV Record (acho).

  4. Não seria necessário palestrinha se a Rede Globo usasse sua penetraçâo com mais conteúdos educacionais e menos entretenimentos... mas conteúdo educacional é coisa de gente chata e metida, a não ser que seja no domingón do Huck que aí fica mó legal... então tá... dá-lhe mais palestrinha

    1. Acho que a Globo ou qualquer outra TV tenha que EDUCAR.Isso deveria ser feito em Casa e Escola PORÉM deseducar, e a que nivel!.. É demais para mim.

    2. Helio, eu não acho que seja obrigação da TV Globo educar ninguém. A TV do segmento da rede globo é entretenimento. Existem TV’s, normalmente estatais, que são educativas. Portanto não estou entre aqueles que achem que a Globo tenha essa obrigação. Ninguem cobra isso do SBT. Nem da Record. Quanto as palestrinhas, acho chato porque não sou burro. Parece o papo errado no lugar errado. O mundo ta chato pra cacete. Agora tem que ter “nucleo gay”, “nucleo afro-descendente” , etc.

  5. A goiabice da semana matou à pau. Moby Dick, com parágrafos racistas? Será que o livro que a "sumidade da internet" (existe isso?) leu foi mesmo o do Melville?

  6. Texto corajoso! Espero que provoque uma tsunami na cabeça dos roteiristas brasileiros, tão chatinhos e presunçosos às vezes…

    1. Não se as cores disponíveis forem limitadas... Até o Lula, dizem, é capaz...

  7. Gostei do artigo. Gosto muito dos "merchans" mais sutis: um caminhão da coca-cola ou da FEDEX passa ao fundo da cena, pena que o departamento de marketing das empresas e da Globo não pense assim. Já no caso desse Felipe e tantos outros que não gostam de censura, porém adoram censurar, só sinto pena.

  8. Pior foi o deputado tentando explicar que a comissão de esporte "deve" acompanhar a seleção brasileira no Qatar pq se trata de um... evento esportivo. Bananão ao extremo!!! Não tem solução!!!

  9. Talvez para o Bananão o Omo Mega Power apresentado seja uma metáfora sugerida de pureza que o nosso momento distópico tanto precisa!

  10. Recomendação a "sumidade" da internet? Que "suma" da internet e vá aprender literatura. Se bem que até existe "booktuber" de qualidade dando mostras de que a humanidade não faliu completamente.

  11. Mick Jagger não tem iate, jatinho ou helicóptero particulares. ... Há no Bananão um ÇertaNojo Star que tem tudo isso. ... Barbudo, é uma espécie de Nero (não é o Software) da Internet.

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